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18.11.09

Bentham

É interessante a recente valorização da ciência pouco confessável das vigilâncias. Uns gostam, outros não gostam, outros ainda gostam e não gostam (em concomitância e de acordo com o que lhe dá mais jeito). Sempre me pareceu que a hipocrisia é, talvez, o pior defeito de todos os que afligem este desgraçado país. Assim é: na mesma conversa elogia-se o «Estado de Direito», e a possibilidade de se realizarem (e usarem) escutas ilegais. No café perora-se contra o chip das matrículas, e na rua valoriza-se uma vigilância persistente e panóptica, desde que feita sobre pessoas que manifestamente detestamos. O hipócrita transcende o próprio ego: é uma pessoa diferente em cada circunstância.

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Culpa o Crick, o Watson e (há que fazer-lhe justiça) a Rosalind Franklin*


(Nada de Dois, de Pedro Mexia, chega às livrarias dia 20 e será lançado dia 19, amanhã, às 19h, no Teatro Aberto, em Lisboa.)
*VASCO Isso é um bocado básico, não é, «o que é que tu queres ouvir»? Quero a minha campainha, o meu torrão de açúcar, a mão na crina e
[pausa]
não tenho mais metáforas animais, embora ajudasse ser um bocadinho mais animal.
JOANA Estás a dizer que eu gosto de animais?
VASCO São os genes, minha querida. Vai-te queixar ao Mendel.

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14.11.09

Passeio Público

(Inversão das transparências)

Já vivi tempo bastante para deduzir o que se esconde nas entrelinhas. Ora, sendo verdade que o presidente da Câmara Municipal Coimbra (CMC), Dr. Carlos Encarnação, constatou finalmente, após oito anos, ponderosas razões para afastar a comunicação social de uma boa parte das reuniões camarárias, devo tentar identificar uma dimensão oculta nesta inusitada exteriorização do poder discricionário.

A interdição é, de certo modo, paradoxal. O Dr. Encarnação aprecia, decerto, o controlo das câmaras – o olhar permanente das câmaras de vigilância que tornam as ruas da Baixa (e os caminhantes abstractos) transparentes à gestão securitária do poder. A decisão de afastar os jornalistas das reuniões da Câmara (a fantasia de um “canal de desatenção”), em concomitância com a videovigilância nas ruas da Baixa, evidencia um desejo de voyerismo unidireccional: o poder pretende ver sem ser visto. A observação (a exposição permanente) é a pré-condição essencial do conhecimento. E é preferível conhecer os outros sem que nos demos a conhecer (é dos livros).

No caso, assistimos a uma inversão das transparências: a função autárquica, escrutinizável por direito, esconde-se. Não obstante, incentiva a observação da vida privada dos conimbricences.
Cada palavra, gesto ou acção releva dos interstícios mais ou menos profundos do córtex cerebral. Quando falamos ou agimos (isto é, quando comunicamos) também exteriorizamos as nossas concepções do mundo. A linguagem despe o pensamento, o lugar do bem e do mal. As pessoas traem o seu espírito em cada gesto que oferecem à rua.

Porém, nem tudo é novo nesta viagem: partes do discurso mantêm-se. Lateraliza-se a culpa: a ponderação do regime não sobrevive na presença de jornalistas, o governo (o “Estado”) ignora a cidade de Coimbra, e o diabo a sete. O Dr. Carlos Encarnação, confiado de fresco no mandato derradeiro, não renega a sua natureza: confia demasiado na dramaturgia do Calimero em interacção simbólica com a omnisciência do deus que não quer ser visto.
(Ontem, 13/11, no Jornal de Notícias)

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13.11.09

Dispensável

Se aprendi alguma coisa com a novela da vacinação contra a gripe A é que, para as autoridades sanitárias portuguesas, sou uma pessoa dispensável. No caso, ainda bem. Se fosse um dos few «indispensáveis» recusava certamente a vacina. Não é que não acredite no Pandremix (os efeitos secundários dos fármacos nem sempre são maus, vide o Viagra: ah pois, ladrão!), eu não acredito é na doença.

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12.11.09

Um muro para durar: uma homenagem aos sacos de cimento da Cimpor

Agora que se comemora o vigésimo aniversário da queda d'«O Muro», lembro-me de uma coisa que tem de ser dita, imediatamente e com alguma precipitação vocabular (o caso é urgente, não vá a efeméride ser esquecida): é mais fácil destroçar um muro que construí-lo. Eu sei do que falo. Já erigi um muro (uma muralha!), com a ajuda do meu primo e do meu padrinho – um muro mais alto que baixo, feito em pedra de lei, raçudo e sem graffittis. Foi há 15 anos, mais ou menos. Ainda se mantém nas traseiras da casa dos meus pais, assoberbado, persuadido da sua importância histórica, demarcando com zelo uma estrada da junta de uma fiada de tomateiros.

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11.11.09

Estética da inexistência

A barafunda dos cães não é decerto uma prova de existência - os pânditas devem sabê-lo melhor do que eu - mas uma reacção séria ao desagrado canino aspira a mais que uma corrida piedosa. Isto é, se houver pedras por perto (havia).

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7.11.09

The beginning

Passeio Público

(Aparências)
Um olhar superficial revela apenas uma fracção parcelar da natureza das coisas. Aparentemente, a Universidade de Coimbra (UC) passa por um bom momento, abainhado por um conjunto de circunstâncias que erigem um muro de optimismo em redor das faculdades.
De facto, a UC é a instituição académica portuguesa mais bem classificada num ranking internacional publicado pelo jornal inglês The Times. A venerável universidade conimbricense ascendeu, este ano, à 366.ª posição a nível mundial, e é mesmo considerada a terceira melhor do espaço da lusofonia e a sexta melhor da Península Ibérica. Coincidentemente, o seu orçamento para 2010 ultrapassa, pela primeira vez, os 200 milhões de euros; e a candidatura a Património da Humanidade apronta os derradeiros detalhes da apresentação final à UNESCO. Não há como evitar a máxima de Pangloss: tudo vai pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis.
Infelizmente, quando aproximamos o olhar descobrimos pequenos defeitos, ou irregularidades, que dilapidam o capital de optimismo que antes acumulámos. O orçamento é, na aparência, desafogado; contudo, apenas 30% (60 milhões de euros) das verbas serão canalizadas para unidades não relacionadas com o pagamento de pessoal. A investigação científica, por exemplo, será contemplada com 20 milhões de euros. Eu acho que é pouco. O prestígio das universidades alicerça-se na marca pedagógica e, sobretudo, na qualidade da sua investigação científica. Que, evidentemente, não se faz sem dinheiro. O corte no Orçamento de Estado das verbas para o ensino superior é o principal responsável pela inadequação das verbas destinadas à investigação. Quanto a isso, há pouco a fazer.
Apesar de tudo, o momento é extremamente positivo. O espaço simbólico da UC pode ter diminuído, mas o mundo é constituído por factos e não por nostalgias. E a Universidade de Coimbra tem sabido crescer, apesar das dificuldades orçamentais (mais do que triviais nas universidades portuguesas). Sete séculos de história e um futuro: que se cumpram na velhice as promessas da juventude.
(Ontem, 06/11, no Jornal de Notícias)

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4.11.09

Nambikwara


(Eugène Delacroix, 1850, Étude pour Marphisa, Curtis Bauer Collection)
Acordo em barulho. É esta mania de falar alto, o regalo de qualquer conversa, o cenho carregado das missas. Velhas que se não decidem pelas palavras e tarde hão-de odiar-me por elas.

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Wikipédia


Dossier temático: Claude Lévi-Strauss
O antropólogo que odiava viajar: entrevista com Claude Lévi-Strauss
Carlos Câmara Leme
O código Lévi-Strauss ou o mundo como correlato objectivo
Filipe Verde
Kant na noite do Ártico: uma revisitação do “pensamento selvagem”
Luís Quintais
A máscara por detrás do véu do estigma: cabe o pensamento de Lévi-Strauss numa reflexão sobre a experiência da lepra?
Alice Cruz

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3.11.09

Alteridade radical


(Claude Lévi-Strauss, 1908-2009)
Lévi-Strauss morreu. Era da família.

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2.11.09

Um novo começo

O Público inicia hoje uma nova etapa da sua história. Entretanto, as velhas encheram os autocarros da manhã e começaram a limpeza das campas, entre áleas recolhidas e velas à espera de luz. Flores, homenagens póstumas. Hão-de recordar os seus defuntos - e eu penso como é difícil trazer de volta o passado e os seus despojos, como a vida é mesmo assim, uma sucessão de mortos que, por alguma razão pouco clara, julgamos ainda vivos.

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29.10.09

Psico-Coaching

«Os livros sobre vampiros», rosnou Dracul, «alimentam-se do logro e da mentira».
«A mentira ainda é preferível ao assassínio.»
«E quem diz que eu sou um assassino?»
«Os livros. Todos eles.»
«Compreende então o que quero dizer? Os livros são mentirosos.»
«Os livros são mentirosos.»
«Foi isso que eu disse.»
«Nesse caso, a própria existência de Dracul pode ser posta em causa.»
«É possível. Nunca reclamei uma existência, uma realidade vivida.»
«Mas não entende o propósito da sua existência? É preciso que Dracul exista, para que o medo possa, também ele, existir.»
«Se querem meter medo às criancinhas usem o Papão. Ou o Homem do Saco.»
«Já ninguém acredita no Homem do Saco.»
«Não gosto de ser vampiro. Não gosto de sangue: a minha bebida preferida é a cerveja. Sagres. Se não houver, ou estiver quente, bebo Super Bock. Mas nunca sangue.»
«Não renegue a sua natureza. Dracul viverá do sangue, e por toda a inconcebível eternidade.»
«Isso não. Para sempre, não.»
«Para sempre, sim. Os livros não o deixam morrer. Os filmes também não.»
«Nos filmes, pelo menos, sou um vampiro bem-parecido. Neste último, não só sou bonito, olhos cor de azulejo, como até me apaixono pela mocinha. Catita.»
«Mariquices. Daqui a uns anos ninguém temerá Dracul.»
«Talvez nessa altura eu possa morrer.»
«Deixe-se disso. Não irá morrer, já disse. Quando a cabal emasculação de Dracul for consumada, a Disney tomará o lugar dos livros.»
Pela primeira vez em muitos séculos, Dracul chorou, gemeu e arrancou os cabelos do peito.
«Ai Deus!, livre-nos e guarde-nos deste espectáculo. Não chore tanto, drama queen. Olhe que vai ser amigo do Mickey. E dos esquilinhos. O futuro é tudo menos uma bela merda.»

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28.10.09

Dracul et alii

27.10.09

E as ovelhas fogem quando vêem o pastor

Maitê Proença com piada


(Steeve Coogan como «Tony Ferrino»)

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24.10.09

Aurélio Pereira*


Depois de Bolaño e do autor javista, a indigentzia que pulula pela bloga descobre mais dois jovens, e obscuros, escritores: Charles Dickens e Denis Diderot.

*TM

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22.10.09

2666

Os mesmos que, na semana passada, liam o 2666, hão-de ler, a partir de agora, a Bíblia. Bem-aventurados aqueles que não têm tempo para a fornicação.

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Balneários masculinos

Pappy grinned: reached out and patted Clyde's beer belly. «Easy there, mother Clyde», he said. «Old Hod is doing all right.»
I'm just trying to be helpful, Clyde thought. But: «Yes,» he agreed, «I am pregnant with a baby elefant. You want to see its trunk?»
Pappy guffawed and they roistered away down the hill. There is nothig like old jokes. It's a kind of stability about them: familiar ground.
(Thomas Pynchon, V, pág. 430)

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Introdução ao inferno #2

Saramago dizendo "Deus não é de fiar: é vingativo, é má pessoa" lembra-me as animadas conversas das empregadas domésticas nos autocarros a caminho do trabalho, revoltadas com a Ivone do "Caminho das Índias" e prontas para, dando com a actriz Letícia Sabatella na rua, tirarem desforço dela. Saramago, afinal, é crente, e fundamentalista, levando a novela bíblica a peito e as "más práticas" de Deus (espécie de Ivone da Bíblia) à conta de literalidade.
(Manuel António Pina, Jornal de Notícias)

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21.10.09

Introdução ao inferno


Isto é uma conjectura (nem isso: é um feeling): Saramago, o escritor, é crente. Devido ao peso do (seu) passado, não convive bem com isso. É como aquele camionista homofóbico que, num dos muitos recessos da mente, até sente carinho pelo corpo desnudo do Brad Pitt (oportunidade para rever Thelma & Louise).

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Entretanto, do lado dos crentes


(Rui Costa: Estou a gostar muito de Jesus)

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20.10.09

A mão

Toda a gente se masturba a pensar nalguma coisa: numa mulher, num homem, na ovelha que pasta mansamente no prado, nos Louboutin da vizinha, na Bianka Keds, big breasted amateur milf. O mundo dos que se masturbam está cheio de imaginação e de relações sem qualquer futuro. Ainda assim, há limites auto-impostos: ninguém se masturba a pensar na mão que embala a coisa.

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19.10.09

A Cribra, uma lenda

A Cribra foi imaginada, ca. 1505, por Hieronymus Bosch. Ainda durante o séc. XVI, terá sido avistada por um certo Jacobus Hupprecht, de Leiden, cujo testemunho foi considerado altamente irregular e nada conforme os ditames canónicos pelo oficiante de St. Lodewijk, padre Luuk Adler. Jean-François Peltier, o naturalista da Societé Philanthropique de St. Dieu des Vosges (e, de resto, membro correspondente da Societé Linneéne de Paris), escreveu sobre ela um artigo conciso, mas definitivo, no hebdomadário L'Agronomie du Midi (Peltier, 1796: 12-845):

Não devemos dizer o que é, mas apenas o que não é. Não é muita coisa: abano, abat-jour, etc. (a lista continua por 512 páginas). Tem cabeça de pássaro com lábios de homem e corpo de rã com orgão sexual de peixe. As afinidades filogenéticas com os répteis são evidentes mas não gosta de sol ou de rochas, e não é peçonhenta. Vive debaixo das árvores e, ocasionalmente, à sombra de uma mulher endinheirada. Nisso, não difere de alguns homens. Alimenta-se de flores, madeira seca e do bagaço de Sémillon.
Há quem afirme a sua não existência, mas sem o conseguir provar.
(Bibbiene Laurent, Seres vivos provavelmente mortos, pág. 191)

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18.10.09

Infelizmente esqueceram-se dos discos da Mafalda Veiga

17.10.09

Kindle

Num livro as palavras contam mais, e têm mais consequências. Reparem nas pobres árvores.

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16.10.09

Passeio Público

(Vitórias e festa)

A democracia portuguesa é um espanto. Uma maravilha. Agrada ao país inteiro, ao menino e à menina, do mais novo ao mais velho, ao pobre e ao rico – e até aos condenados pelos tribunais. Quando há eleições, ainda é melhor: todos, ou quase, são vitoriosos. E as vitórias, normalmente, são “esmagadoras”, reveladoras da “vontade popular”, garantes da continuação/mudança (riscar o que não interessa) das “políticas vigentes”. O cosmos eleitoral não é a preto e branco. É todo preto ou todo branco.

Coimbra, cidade do meio (na geografia, na dimensão), não despreza o cânone. No último Domingo, depois de conhecidos os resultados das eleições autárquicas, celebraram-se as vitórias. Foram muitas e bem distribuídas. O PSD (coligado com o CDS e o PPM) ganhou a capital do distrito. E festejou. O PS ficou em segundo mas subiu a votação no concelho. No distrito, teve a maioria dos votos e conquistou ao PSD as câmaras da Figueira da Foz, de Oliveira do Hospital e de Penacova. Festejou. A CDU elegeu Francisco Queirós e ganhou em cinco assembleias de freguesia. Obviamente, festejou. O CDS não foi a votos mas também ganhou na cidade de Coimbra (à boleia de Carlos Encarnação). É provável que tenha festejado.

O Bloco de Esquerda e o independente Pina Prata foram os grandes derrotados da noite. Não devem ter festejado, até porque nada havia para festejar, mas nunca se sabe: a psique dos políticos portugueses é insondável e excêntrica, facilmente descobre realidades alternativas e mundos virtuais que nada devem ao rigor empírico. A esquizofrenia das eleições autárquicas atinge o seu zénite no momento da comemoração: pela vitória, pelo aumento da votação, pela derrota por poucos. É difícil atravessar um distrito sem notar, nas ruas, a festa de quatro ou cinco cores. Agora, cabe exprimir o óbvio: a festa acabou. O trabalho, não. Nunca acaba, não espera nem diminui.
(Hoje, 16/10, no Jornal de Notícias)

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15.10.09

Melancolia de pássaros

O andorinhão, pássaro insectívoro, caçador breve de moscas e melgas (alimento apenas comestível), possui um sistema de orientação evoluído, quase irrepreensível, que lhe permite, por exemplo, contornar borrasqueiros e tempestades. Raramente se apeia do conforto do vento e fá-lo apenas para nidificar (para doar vida) ou para morrer. O andorinhão dorme em voo absoluto. It sleeps in the wings, como dizem os ingleses. Não sei como o faz, ou porque o faz – talvez se sinta mais seguro arredado da terra, das suas misérias e dos seus parasitas.

Foi ontem (não foi) que encontrei um andorinhão (um milhafre pequeno, pensei) na Reserva do Museu Antropológico da Universidade de Coimbra – Secção das Colecções Esqueléticas Identificadas. Esboçava um voo indefeso e tremelicado, destinado ao chão, não sem antes acometer, com alguma violência, os armários que protegem os crânios de homens e mulheres de segunda morte (são 2000? 3000?). Percebi-lhe a aflição do náufrago, do tresmalhado, peguei-lhe com água de matar a sede e outras delicadezas, mas em vão: ele partira já. Julgo que morreu imediatamente, no momento em que tocou o solo, quando vislumbrou a morte reflectida nas vidraças dos armários e percebeu que era da natureza dele viver só a voar. O resto, aquele bater de asas hesitante, foi apenas um derradeiro paroxismo ou, talvez, uma forma de agradecer a quem o criou assim.

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14.10.09

Manga curta

Calor e ainda mais: a meteorologia (ou Al Gore) faz do ano um triste itinerário.

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11.10.09

Eleições Autárquicas

À luz de qualquer critério possível, razoável e justo, as bactérias são, e sempre foram, a forma de vida dominante na Terra.
(Stephen Jay Gould, Full House, pág. 211)

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9.10.09

Passeio Público

(70x7)
O romance da ortodoxia não é intrinsecamente mau – há coisas que não se querem mudadas, como o sabor do bacalhau seco ao sol; afinal, a estase da tradição configura uma espécie de democracia dos mortos – mas não deve ser lido até às últimas consequências. O corolário é intuitivo: muda-se o que está mal, o que nos faz mal.

Coimbra habita na linguagem e, entre cortejos e serenatas, exalta e cumpre-se diariamente naqueloutra palavra: “tradição”. Há palavras que se agarram às cidades, como a lapa se fixa à rocha. Antiga e monumental, é cidade necessariamente conservadora – apesar dos estudantes, da “Geração de 70”, da “Presença” ou de 1969. Coimbra poderia ter-se detido perante o rumo inflexível do progresso (a todo o preço), mas por uma vez isso não aconteceu: os habitantes e os amigos da cidade contestaram o novo viaduto do IC2, projectado para passar sobre uma parte do Choupal, e, depois do grande murmúrio de protesto, surge o anúncio de alteração do traçado da rodovia - que irá contornar a mata, ao invés de a espezinhar.

Noutros campos, a imobilidade e a satisfação comezinha são para manter. Infelizmente. Não há força, ou sequer vontade, de mudar uma cidade sem dinâmica económica, com um centro histórico esquecido e degradado, com problemas nos transportes e habitação. Os problemas da cidade foram elencados de forma exaustiva pelos candidatos à Câmara Municipal de Coimbra, num debate realizado no Teatro da Cerca de São Bernardo. A percepção com que ficaram os potenciais eleitores presentes é a de que os mandatos de Carlos Encarnação se pautaram pela inacção, pela apatia e pela desorganização.

De facto, pouco foi feito pela cidade nos últimos anos. Não sei se a culpa é de José Sócrates que, segundo o edil conimbricense, execra Coimbra. O que eu sei é que é muito fácil sacudir a água do capote e culpar os outros pelos nossos próprios erros. O povo de Coimbra condescende. Mas se é certo que o criminoso deve ser absolvido até setenta vezes sete, o crime não deve ser perdoado uma única vez.
(Hoje, 09/10, no Jornal de Notícias)

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8.10.09

Nobel da Literatura #2

Disons que l’enfant en moi serait ravi de l’avoir, mais alors l’adulte devrait faire le voyage jusqu’en Suède, et à mon âge, je ne supporte ni les longs trajets ni le jet-lag. Mais l’enfant en moi est très, très fort… John Updike, qui était un colosse – il n’y avait rien qu’il ne pouvait écrire –, ne l’a pas reçu. John Cheever, qui était le Vermeer de la littérature américaine, non plus. C’est dire que pour un Américain, blanc, c’est très difficile d’avoir le Nobel. Je suis juif, j’ai peut-être une chance.
(Philip Roth aqui)

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Esquerda vs. Direita

A única razão a sério para se ser progressista é que as coisas tendem naturalmente a piorar. A corrupção que observamos nas coisas não é apenas o melhor argumento para se ser progressista, é também o único argumento para não se ser conservador.
(G.K. Chesterton, Ortodoxia, pág. 163)

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Nobel da Literatura

Herta? Só conheço o de Berlim.

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7.10.09

Isaltino de Jesus


O lançamento de «O mar em Casablanca», de Francisco José Viegas, é hoje, às 22h00, na Cantina (Lx Factory, em Lisboa). O realizador António-Pedro Vasconcelos apresenta o livro. O Sr. inspector Jaime Ramos andará por ali, mas quem eu gostava mesmo de encontrar era o Isaltino.

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6.10.09

O rei morreu, viva o rei

Conheci dois reis (não sou assim tão velho), Herman e Ricardo. Um desapareceu, o outro aparece demais. Pior que isso: já não me põem a rir desbragadamente (daqui a uns anos, o programa «Esmiúça os Sufrágios» será, ele próprio, um tesourinho deprimente). O novo monarca nem sequer tem nome de gente, GANA, mas é assaz garrido e chistoso. Já conhecem o Bruno Aleixo, conheçam agora o Renato, o Bussaco e o Nélson.
(Bussaco aos 1:13m, genial)
(A imitação melhorada)

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Passeio Público

(Não esquecer)

Ana Jorge, Paulo Mota Pinto, José Manuel Pureza, João Serpa Oliva, Victor Baptista, Pedro Saraiva, Horácio Antunes, Nuno Encarnação, Maria Almeida Santos e Maria do Rosário Águas. Estes são os novos deputados (embora alguns não sejam novatos nestas aventuras) eleitos pelo círculo eleitoral de Coimbra. Asseguro-vos que é boa ideia não deslembrar os seus nomes.

O que é que a cidade pode esperar deles? Independentemente do partido a que pertencem, julgo que Coimbra pode esperar mais, muito mais, dos novos parlamentares – tentarei consubstanciar esta afirmação. Considero, de resto, que a cidade deve exigir-lhes mais e melhor. Afinal, na legislatura anterior apenas duas acções de cariz local foram apresentadas na Assembleia da República. Os números comprovam uma tendência exasperante: Coimbra interessa mas apenas durante a campanha eleitoral.
(Sexta-Feira, 02/10, no Jornal de Notícias)
Facto: os deputados são eleitos por círculos eleitorais, mas o mandato do deputado é nacional. Isto é, a vontade dos parlamentares encontra-se, o mais das vezes, condicionada aos interesses de âmbito nacional instituídos nos programas dos partidos. A indiferença a que os círculos locais são votados resulta, em grande medida, da primazia dada aos problemas globais do país. Por outro lado, muitos dos deputados nem se dão ao trabalho de conhecer as dificuldades porque passam os círculos por onde foram eleitos – isto sim, é muito grave.

Como consequência dos resultados das eleições legislativas, o xadrez político conimbricense reconfigurou-se. Para além do Partido Socialista (PS) e do Partido Social Democrata (PSD), também o Bloco de Esquerda e o Partido Popular lograram eleger representantes por Coimbra. Novas concepções políticas, ideologicamente discrepantes, emergem. A cidade tem tudo a ganhar com isso: aumenta a «concorrência», aumenta a «eficiência». João Serpa Oliva e José Manuel Pureza não devem esquecer que foram os eleitores de Coimbra que os conduziram aos Passos Perdidos – os deputados eleitos pelo PS e PSD também não. Nós, os eleitores, não esquecemos.

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5.10.09

Dicionário da Queda

República Portuguesa. Há um presidente (Sr. Silva) em vez de um rei (D. Duarte), escolhido com ponderação pelo povo após namoro oficial de quinze dias. Em teoria, todos os portugueses podem ser inquilinos do Palácio de Belém mas, na prática, só lá chegam se forem apoiados pelo PS ou pelo PSD (vide Manuel Alegre). As cores da bandeira são o verde e o vermelho, o que é bom e mau, respectivamente. O hino é bonito e exaltante, sobretudo quando tocado com a face pseudo-lepromatosa do Cristiano em primeiro plano, mas integra palavras muito difíceis e de significado obscuro (e.g., «egrégios»=gregos? igrejas?) . O 31 da Armada não gosta. Eu tem dias.

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República

Já não sei o que é mais bafiento: se as anuais «romagens aos cemitérios» ou se as anuais referências às ditas pelos seus detractores.

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2.10.09

Dicionário da Queda

Criminoso. Devo dizer que o interior do corpo é aquilo que há de mais criminoso. Contudo, o crime não é senão exequível por intermédio do exterior do corpo ou de algo exterior (alheio) ao corpo. A mão e a pistola (o exterior do e o alheio ao corpo, respectivamente) rebelam-se poucas vezes (mais esta que aquela, apesar de tudo) face à vontade criminosa do interior do corpo, do que se depreende que, mais tarde ou mais cedo, o crime será cometido - peçamos perdão ao Pai.

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Ardipithecus #2

Referential models based on extant African apes have dominated reconstructions of early human evolution since Darwin’s time. These models visualize fundamental human behaviors as intensifications of behaviors observed in living chimpanzees and/or gorillas (for instance, upright feeding, male dominance displays, tool use, culture, hunting, and warfare). Ardipithecus essentially falsifies such models, because extant apes are highly derived relative to our last common ancestors. Moreover, uniquely derived hominid characters, especially those of locomotion and canine reduction, appear to have emerged shortly after the hominid/chimpanzee divergence. Hence, Ardipithecus provides a new window through which to view our clade’s earliest evolution and its ecological context. Early hominids and extant apes are remarkably divergent in many cardinal characters. We can no longer rely on homologies with African apes for accounts of our origins and must turn instead to general evolutionary theory. A proposed adaptive suite for the emergence of Ardipithecus from the last common ancestor that we shared with chimpanzees accounts for these principal ape/human differences, as well as the marked demographic success and cognitive efflorescence of later Plio-Pleistocene hominids.

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Ardipithecus

To some researchers’ surprise, the female skeleton doesn’t look much like a chimpanzee, gorilla, or any of our closest living primate relatives. Even though this species probably lived soon after the dawn of humankind, it was not transitional between African apes and humans. “We have seen the ancestor, and it is not a chimpanzee,” says paleoanthropologist Tim White of the University of California, Berkeley, co-director of the Middle Awash research group, which discovered and analyzed the fossils.

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1.10.09

É tudo gente


(Catacombe dei Cappuccini, Palermo)
Eu gosto de cemitérios, esses repositórios de memórias e homenagens póstumas. Ali, é tudo gente morta e, ao contrário de mim, pouco abespinhada com as voltas que o mundo dá. Percorro em angústia os epitáfios. A brevidade. A inevitabilidade. A violência do julgamento: O que é o mundo? O que é? Nada. Na realidade, a vizinhança de um cadáver acelera a floração, as mais encantadoras violetas alimentaram-se da corrupção. A terra dos mortos, a própria morte, é fecunda: exquisitum alimentum est.

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30.9.09

Arrows of desire #coda


(Guido Reni, São Sebastião, Museu do Louvre, Paris)

Que eu saiba (e eu sei muito, porque tenho acesso à Wikipédia) toda a gente tem as suas «vulnerabilidades». Até Aquiles, que era filho de deusa e bom guerreiro, sucumbiu a uma flecha bem apontada à sua «vulnerabilidade». Sebastião, que entre duas mortes se excedeu nas bocas com que presenteou Diocleciano, não foi capaz de se manter calado: foi essa a sua «vulnerabilidade». Cavaco, como o mártir, devia ter permanecido de boca fechada. O Presidente da República não possui o dom da palavra, é essa a sua maior «vulnerabilidade».

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29.9.09

Arrows of desire #2


(Guido Reni, São Sebastião, Musei di Strada Nuova, Génova)
Isto é importante: a iconografia de uma «quase-morte» é aceite por quase todos como a iconografia de uma «bela-morte». Sebastião não morreu trespassado pelas flechas dos legionários romanos. Providencialmente, foi salvo por Santa Irene, boa católica e hábil enfermeira, como já não as há. O mártir finou-se mais tarde, e de maneira mais poética: foi morto à paulada e o seu corpo encontrou finalmente a paz no meio do esterco da Cloaca Maxima. Nas pinturas de Reni, o corpo de Sebastião atinge-nos, pois, desse lugar ambíguo «entre-duas-mortes» e a sua lividez falseia, em concomitância, a irrelevância da vida e a certeza da morte.

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28.9.09

Arrows of desire


(Guido Reni, São Sebastião, Museu do Prado, Madrid)
É possível que a tensão homoerótica no(s) «São Sebastião» de Guido Reni seja tão profunda e dilacerante que não poucas vocações heterossexuais se arruínem por motivo tão simples como a observação da(s) obra(s) num catálogo barato de museu. Afinal (o facto é incontroverso), o adolescente Mishima experimentou o seu primeiro orgasmo, que suponho compensador (e não o são todos?), quando contemplou, aprazido e de olhos em bico, uma das sete telas que Reni destinou ao santo trespassado. Reni gostava pouco de fêmeas – o que explica muita coisa. Viveu 55 anos com a mãe e, depois da morte desta, não mais permitiu que uma filha de Eva lhe lavasse a roupa interior. Daí ao torso marmóreo de Sebastião, vezes sete, e ao desvario dos cabeleireiros com o «coitadinho do mártir» foi um pequeno passo.
Coitado do mártir? Com certeza. Perfurado mas puro? Anti-erótico ou homoerótico? Tudo é possível. As hipóteses sucedem-se, como os dias num ano, mas pouco me importa o desfecho hermenêutico, seja ele qual for. Se preferirem, reduza-se tudo às «arrows of desire», aos caracóis do cabelo e ao pano branco de linho, enrolado como se residisse no meio de um furacão. As possibilidades interpretativas são quase muitas, pelo menos sete. Que sobre isto se redijam longas teses, e enfadonhas quanto baste – já li algumas e abdico de ir além de uma breve exposição das possibilidades. Felizmente, prefiro o «Martírio de São Bartolomeu», de Jusepe de Ribera: mais feio, mais desengraçado, mais verdadeiro.

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Esquerda vs. Direita


(Comès, Silêncio)

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27.9.09

Total isenção e imparcialidade

Deixem-me chorar descansado, impenetrável ao conforto hipócrita das vossas mãos. Este Benfica ainda me há-de matar. Ou pior: ganha o campeonato. E ainda temos o Cavaco e os fantasmas dos cadernos.

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26.9.09

Interest in cattle

Although cattle have many uses they are chiefly useful for the milk they provide. (E.E. Evans-Pritchard, The Nuer, pág. 21)
Reparem na sugestão subliminar da expressão «cattle have many uses». Os pastores são todos iguais, e o gado tem muita e boa serventia, parece querer dizer-nos Evans-Pritchard. Em África ou em Pitões das Júnias, desde que em sítio ermo e propício à ordinarice.

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25.9.09

Passeio Público

(Santos da casa)
A campanha eleitoral para as eleições legislativas termina hoje, felizmente. Falou-se pouco, e com desconhecimento, do que realmente interessa: a crise da economia, da educação ou da justiça. Não é difícil assacar a alguém a responsabilidade por este alheamento quase generalizado face aos problemas fundamentais do país. Sem que seja necessária uma meditação profunda (algo que me acontece mais vezes do que menos) surge na minha cabeça o nome do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Ele foi a estrela injustificada desta campanha que ora finda.

A política portuguesa está menos sentimental e, porventura, mais ardilosa e capciosa. Prosperam as condições que facilitam o surgimento de fábulas manhosas, ideadas por frouxos leitores do esplêndido Maquiavel, que o tresleram e adulteraram, e caucionadas por comentadores que partilham o mesmo território ideológico e um espírito pouco sagaz. O “caso das escutas” (como, aliás, o fabulário em redor da “asfixia democrática” e das “agendas furtivas de coligação pós-eleitoral”) abastardou o combate eleitoral, que se afastou irremediavelmente da discussão dos temas importantes ou da competência política dos candidatos.

Na campanha em Coimbra, perante a impossibilidade de recorrer a “não-assuntos” como armas de arremesso (mas não deixamos de notar o levantamento da lebre “Rui Teixeira, juiz”, pelo Professor Paulo Mota Pinto), os esforços da “política (de) rasteira” concentraram-se na naturalidade dos candidatos e na sua ligação, ou não, à cidade. Para alguns, só os santos da casa é que fazem milagres.

A Dr.ª Ana Jorge é a única cabeça de lista que não tem qualquer ligação com Coimbra: não nasceu na Sé Nova, não estudou na Universidade, não trabalhou nos HUC. Fraco curriculum para apresentar aos fundamentalistas do “jus soli” e do “jus sanguini” (em concomitância), aqueles que entendem que os candidatos por Coimbra só podem ser recrutados entre os filhos da terra, com ligações afectivas, familiares ou místicas à velha cidadela junto ao Mondego – na tradição do ideário de aversão ao Outro, ao “estrangeiro”. Parecer-me-ia mais correcto que se analisasse a capacidade política de Ana Jorge (que é muita), e não o seu local de nascimento. O problema é que isso parece-se demasiado com a política séria.
(Hoje, 25/09, no Jornal de Notícias)

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24.9.09

Americana


(Andy Moore & Tony Parker, The Exterminators)

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23.9.09

indecisão

são dezassete e cinquenta e cinco quase dezoito, muito obrigado, não tem de quê, segue a tua vida que eu sigo a minha, o dia ainda não declina apesar das horas e é cedo para tanta indecisão.

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22.9.09

Não fui eu


O Bloco tem as mulheres mais bonitas da política portuguesa, diz-se. A CDU tem o homem mais charmoso da política portuguesa, diz-me, sentada ao meu lado, no sofá vermelho (a cor!, a cor!). O CDS-PP tem o homem mais ritmado da política portuguesa, diz o próprio. O PS não tem homens nem mulheres, mas anjos/demónios (riscar o que não interessa), diz o DN e o Público. O PSD tem o casanova da política portuguesa, diz a imprensa cor-de-rosa. A esperança devia ser a primeira a morrer.

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21.9.09

Saber quem tem ideias

Qualquer conhecedor da vida sabe que é muito estreita aquela faixa verdadeiramente fecunda entre a liberdade de pensamento arrojada e a fuga temerosa ao pensamento.
(Robert Musil, O homem sem qualidades, pág. 505)

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20.9.09

Dr. Johnson


O Francisco faz a pergunta certa. Uma resposta, entre as muitas possíveis, encontra-se aqui.

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19.9.09

Passeio Público

(Por Coimbra)

“Por Coimbra não vai nada, nada, nada? Mas mesmo nada? Tudo!” Parece slogan eleitoral (e para isso foi recentemente amputado) mas a história destas palavras é mais antiga, e eleva-se definitivamente sobre as futilidades insistidas nos cartazes de campanha. Estas palavras pertencem à academia de Coimbra (se é que se pode falar de pertença e posse) e não, como parece ocorrer a alguns, ao indivíduo A ou ao partido B.

De facto, a realidade parece opor-se a este postulado fundamental. A utilização de uma parte da expressão relacionada com um dos gritos tradicionais da academia (a saber: “Por Coimbra”) pela candidatura de Pina Prata motivou uma queixa à Comissão Nacional de Eleições por parte da candidatura do PSD/CDS/PPM. Carlos Encarnação e a sua equipa insinuam-se como os legítimos senhores de tão populares palavras. Afinal, usam-nas em campanha desde 2001. Justifica-se a sua propriedade por usucapião: o uso fixa o dono.

Carlos Encarnação e Pina Prata disputam algo que não é pertença de nenhum dos dois. Não o fazem por falta de imaginação ou plágio (o chavão já havia sido utilizado pela candidatura de Mendes Silva, pelo Partido Socialista, em 1982) mas porque partilham a mesma concepção política para Coimbra. Porque apesar de inspirarem posições antagónicas são fundamentalmente iguais.

O que fazer com as palavras? Que as palavras interessam já o havíamos dito, mas talvez possamos pendurar a esse lugar-comum ainda um outro: as palavras revelam ao mesmo tempo que ocultam. Esta é, seguramente, uma trivialidade paradoxal mas justa. O significado veiculado pelas palavras é fluído e poroso, impreciso e vago, carcomido incessantemente pela mudança de interlocutores e interpretações.

No entanto, alguma coisa permanece imutável no caos da comunicação, passível de ser escrutinada e comentada. Coimbra não precisa destes gémeos desavindos mas de uma verdadeira alternativa de esquerda. A responsabilidade de trazer a política a sério para a campanha cabe agora ao Partido Socialista, ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista.
(Ontem, 18/09, no Jornal de Notícias)

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17.9.09

E um protector solar também dá jeito #doze


(Plage de Lespicier, França)
(1) (2) (3)(4)(5)(6)(7)(8)(9)(10)(11)

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15.9.09

Passeio Público

(Pais e seus amados filhos)

A identificação dos problemas fundamentais do país não é problemática – não percamos tempo ou palavras com a gravidade tangível da realidade -; o verdadeiro problema está no facto de não sabermos o que fazer com tanto desespero. É fácil sepultar a nação sob os escombros da economia, da justiça ou da educação. O país é pequeno (é mesmo muito pequeno) e não é assim tão complicado fazer a sua autópsia. E, contudo, não há quem chame de novo o Lázaro.

É de bom-tom reprovar a silly season, e as suas manifestações bronzeadas. O país é uma revista cor-de-rosa; não é um ornitorrinco, mas não é por isso que deixa de ser estranho. E Deus também se ri das suas criações. Mas o Verão esmaece, finalmente. A vivência liminar na Biblioteca Geral substitui a parvoíce no areal. É uma questão de educação.

É tudo uma questão de educação: a economia, a justiça e a própria educação, a ressurreição do Lázaro, a praia e o ornitorrinco. Parece-me compreensível a submissão da justiça e da economia à educação. O sucesso de um país firma-se nas suas políticas educativas. Que não são, lamento dizê-lo, couto privado dos governos e professores.

Os pais e os alunos são actores principais neste teatro da decepção, e ambos por alheamento. O desinteresse dos alunos pela aprendizagem (o ensino tem que regressar à transmissão de conhecimentos, e não persistir no estabelecimento acrítico de programas lúdicos) enforma o grande desafio que toma as universidades, como a de Coimbra, em que a responsabilidade da história é mais um pecado que uma bênção.

O mesmo se pode afirmar relativamente à indiferença parental perante a educação dos filhos. “Não fique à espera que a escola dos seus filhos feche para se interessar por política”. Este slogan (relativo a um dos debates promovidos em Coimbra pelo Jornal de Notícias, no âmbito das eleições legislativas) pode inserir numa qualquer tradição sapiencial. É quase óbvio, mas por vezes as verdades mais evidentes são aquelas que mais facilmente esquecemos.
(04 de Setembro, no Jornal de Notícias)

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14.9.09

Novembro


[Joaquim von Sandrart, November, 1643, Oil on canvas, 149 x 123,5 cm, Staatsgalerie, Schleissheim]

A composição híbrida - paisagem, natureza morta e retrato - impõe desde logo a aporia do olhar. Por outro lado, a abnegação melancólica do caçador, as folhas destroçadas pelo vento, a trela curta que segura os cães e o castelo nas funduras do vale não se compadecem com a dúvida e assinalam o voo destrutivo do tempo.

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6.9.09

Milito, dito «el sencillo»

Um bêbedo passeou-se na calle, em mijo distraído. Aí viu-o. Nu, ou desguarnecido. O peito feito num zero, cavado como se terra, aberto até muito dentro do corpo. Milito sacudiu-se, mesmo borracho. Manha de tomates, e antiga. Pregou um olho na ruína: sangue distorcido, juízo antecipado. Dali haveria de vir um morto. Chamou ambulâncias, não ouviram. Rezou. A garrafa esvaziava-se, esqueceu a oração. Revirou os olhos, encontrou o peito outra vez. Um zero maior que um dez. Grande, roxo crepúsculo. Chamou ainda, qualquer coisa. As coisas não ouvem, só algumas pessoas. Não estavam. Veio dali o frio. Deu-lhe, sem camisola era de esperar. Ainda bem, ia-se embora.

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