<body><script type="text/javascript"> function setAttributeOnload(object, attribute, val) { if(window.addEventListener) { window.addEventListener('load', function(){ object[attribute] = val; }, false); } else { window.attachEvent('onload', function(){ object[attribute] = val; }); } } </script> <div id="navbar-iframe-container"></div> <script type="text/javascript" src="https://apis.google.com/js/plusone.js"></script> <script type="text/javascript"> gapi.load("gapi.iframes:gapi.iframes.style.bubble", function() { if (gapi.iframes && gapi.iframes.getContext) { gapi.iframes.getContext().openChild({ url: 'https://www.blogger.com/navbar.g?targetBlogID\x3d5676375\x26blogName\x3dD%C3%A6dalus\x26publishMode\x3dPUBLISH_MODE_BLOGSPOT\x26navbarType\x3dBLUE\x26layoutType\x3dCLASSIC\x26searchRoot\x3dhttps://daedalus-pt.blogspot.com/search\x26blogLocale\x3dpt_PT\x26v\x3d2\x26homepageUrl\x3dhttp://daedalus-pt.blogspot.com/\x26vt\x3d5394592317983731484', where: document.getElementById("navbar-iframe-container"), id: "navbar-iframe" }); } }); </script>

6.5.11

Passeio Público

(Um homem a sério)
De todas as questões humanas, a única que se encontra resolvida desde o início é a inevitabilidade da morte. Sempre que notificava os amigos acerca do seu estado de saúde, Marcel Proust não perdia a oportunidade de declarar que estava perto de morrer. Fê-lo durante os últimos dezasseis anos da sua vida até que, no dia 18 de Novembro de 1922, o autor de “Em busca do tempo perdido” morreu mesmo. Como assegurou outro escritor, o poeta Ruy Belo, a morte é a única saída.

Ainda assim, custa-nos quando alguém morre. Sobretudo, quando a pessoa que morre simboliza um venábulo de esperança, um trilho de rectidão e generosidade. António Luzio Vaz (1941-2011) era uma dessas pessoas. Talvez alguns se recordem apenas do ilustre Orfeonista ou do notável advogado mas Luzio Vaz deverá ser comemorado, sobretudo, pela sua dedicação às causas, às solicitações e aos desassossegos dos estudantes na Academia de Coimbra, ele que foi administrador dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra durante trinta anos. Luzio Vaz começou por trabalhar como tradutor na gare parisiense de Austerlitz; mais tarde foi operário e distribuidor de batatas na Alemanha. Encontrou engulhos e dificuldades que, sem dúvida, lhe moldaram o carácter, encaminhando-o no sentido de suavizar e aligeirar as aflições dos outros.

Poucas vezes um só homem ofereceu tanto: provedor dos necessitados, solidário e conciliador, António Luzio Vaz concebeu e produziu uma obra de inestimável honorabilidade e grande humanismo. A sua biografia não só não desmerece a história de grandeza da Universidade como lhe acrescenta uma dignidade poucas vezes vista. Luzio Vaz foi um homem sério e muito mais do que isso: foi um homem a sério.

(29/04 no Jornal de Notícias)

Etiquetas: , ,

16.4.11

Passeio Público

(Tempos interessantes)

Aproximam-se tempos interessantes – e nem sequer me refiro ao reinado façanhudo do FMI. Coimbra é demasiado grande para que as minudências do défice lhe melindrem os ventos pujantes da história. O que acontece (ou melhor: o que parece que vai acontecer) é simples: daqui a uns meses irão coabitar na cidade duas realidades “morais” aparentemente opostas; por um lado, vão iniciar-se em Setembro as operações de mudança de sexo nos Hospitais da Universidade (HUC), por outro, o próximo bispo de Coimbra deverá ser o vigário regional em Portugal da Prelatura pessoal da Opus Dei, o padre/engenheiro José Rafael Espírito Santo.

Um ponto prévio: com o parágrafo anterior não pretendo sugerir que a Opus Dei é contra as operações de mudança de sexo. Isso equivaleria a levantar uma lebre que não desejo seguir. A Obra não é conhecida pelo liberalismo dos costumes mas parece-me que, quando se pensa e raciocina plenamente a partir do Evangelho, quando se está em relação jurídica com Deus, a única via é a do amor, ou pelo menos a do respeito. Respeita o outro como a ti mesmo: eis um mandamento interessante, e tão pouco considerado. Não é uma rendição da fé, mas sim um reconhecimento da ortodoxia: a de que o Outro deve ser amado e respeitado.

Chesterton achava que as rosas eram vermelhas por opção: por opção divina. É, portanto, lícito pensarmos, seguindo o escritor (cristão), que também as pessoas são como são por opção divina (que me perdoem os darwinistas pela sugestão criacionista). Gordas ou magras, estudantes ou futricas, assim ou assado. Não interessa. São igualmente respeitáveis. Por isso é tão importante a existência de uma unidade de cirurgia reconstrutiva genito-urinária e sexual nos HUC. Para que o respeito possa começar em casa, no nosso corpo para o mundo.

(Ontem, 15/04, no Jornal de Notícias)

Etiquetas: ,

2.4.11

Passeio Público

(Mea culpa)

É fácil julgar o passado com a vantagem do tempo. E, por vezes, é injusto. No entanto, a atribuição do doutoramento “honoris causa” ao ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra parece ser um bom momento para ajustar contas com o passado do galardão – sem ressentimentos ou desejos espúrios de desforra. O pretérito deslustroso consubstancia-se num nome: Francisco Franco Bahamonde.

Os agraciados com o doutoramento “honoris causa” pela Universidade de Coimbra são muitos, representando várias sensibilidades culturais, religiosas e políticas. Mas nenhum nome na lista de galardoados me causa tanta repulsa como o do caudilho espanhol. Os crimes que Franco cometeu (ou que foram directamente inspirados por ele e pela sua ideologia) foram tantos que nem vale a pena tentar enumerá-los – para uma noção grosseira indaguem-se porventura os livros de história e a wikipédia. Basta referir, como exemplo, que o ditador espanhol mandou executar mil vezes mais pessoas que Benito Mussolini, indubitavelmente um crápula da pior espécie.

O reconhecimento – em ritmo de mea culpa – de que existem nomes “errados” na lista de doutoramentos “honoris causa” pela Universidade de Coimbra não implica uma rasura a posteriori desses nomes; não se deseja a censura indigna de quem mutila as palavras de autores mortos, ou reescreve os seus parágrafos em norma puritana, como se algumas expressões fossem pénis minúsculos de estátuas imperiais.

A desmesura desse tipo de consciência implica, porém, uma reflexão cuidada, um apego maior aos valores humanísticos, éticos e morais de uma determinada personagem – sem exaltações ideológicas. Ao Carbónico sucederá sempre um Pérmico de valores diferentes, um tempo de escrutínio do que passou. Lula da Silva obscurece, pois, Francisco Franco – não porque é um homem de esquerda, mas porque é um Homem.

(Ontem, 01/04 no Jornal de Notícias)

Etiquetas: , ,

12.3.11

Passeio Público

(Para além da paróquia)

É preciso muito mais que o alinhamento estatístico dos avanços e recuos da demografia, cultura ou economia, em tabelas acessíveis e textos concisos, para que acabe a ignorância atávica do Estado em relação ao país. A criação periódica de um ficheiro minucioso das desgraças lusas não implica uma meditação omnisciente dos mais altos poderes da nação nem permite, por si só, a sua compreensão e eliminação. Ainda assim, afiguram-se óbvios os méritos de uma operação como os “Censos 2011”.

No final deste ano, as informações estatísticas com atraso de uma década serão substituídas por dados novos, por vezes melhores, outras vezes piores, mas seguramente mais congruentes com a “realidade” portuguesa destes dias. Os recenseamentos gerais da população, com os seus vícios conceptuais e logísticos, advertem-nos com constância periódica que é necessário confrontar as aparências dos ciclos temporais breves. Avisam-nos que os olhos não devem deixar de ver para além do fino véu da inconsciência mediática.

É, por isso, estranha (e não sei se ilegítima) a tomada de posição do presidente da Junta de Freguesia de Santa Clara, José Simão: o autarca declarou publicamente que não irá colaborar com os “Censos 2011”. Percebe-se a ansiedade de José Simão com as supostas falhas no processo de recenseamento, que irão redundar em contagens mal feitas de residentes, prejudicando as já depauperadas contas das freguesias. No entanto, se as preocupações do autarca se podem justificar, o mesmo não se pode dizer das acções que pretende tomar (ou não tomar) e que poderão repercutir-se no bom funcionamento dos inquéritos e, em última análise, na qualidade dos dados obtidos.

No contexto da grande inquirição estatística que corresponde aos “Censos 2011”, cujas consequências possuem uma relevância de inequívoca dimensão nacional, talvez não seja má ideia pedir aos cidadãos (e, sobretudo, aqueles com mais responsabilidades em termos de governação) que esqueçam o próprio umbigo e que olhem para além das desusadas fronteiras do amor-próprio paroquial.

(Ontem, 11/03 no Jornal de Notícias)

Etiquetas:

5.3.11

Passeio Público

(Coisas sérias)

Anedotas há muitas, umas boas e outras más – não é isso que interessa. Esta que vos desejo relatar é triste, porque próxima de uma certa percepção popular da realidade, mas definitivamente reveladora de um modo de agir menos raro do que seria desejável. É mais ou menos assim.

No Município X, o presidente da Câmara planeia construir uma piscina municipal. Naturalmente, acciona um concurso público ao qual concorrem empreiteiros de diferentes nacionalidades. Especificamente, um inglês, um francês e um português (onde é que o/a leitor/a já ouviu isto?). O inglês propõe-se fazer o trabalho por cento e cinquenta mil euros. O francês disponibiliza-se para realizar a empreitada por cem mil euros. Finalmente, o português oferece-se para construir a piscina por trezentos mil euros. O estupefacto autarca convoca o empreiteiro português ao seu gabinete e pergunta-lhe porque é que a sua proposta é tão onerosa, não menos que trezentos mil euros! O empreiteiro contesta: são cem mil euros para mim, cem mil euros para si e cem mil euros para o francês construir a piscina.

Não me interessa muito o humor – ou a falta dele – que esta pilhéria carrega. A anedota – qualquer anedota – procede de um limbo duvidoso, onde se juntam o preconceito, o mau-gosto e as generalizações abusivas. Tudo o resto (o seu peso alegórico) é potencialmente mais interessante. Porque ressuma o choro triste destes tempos, porque sugere outros episódios, verdadeiros e igualmente caricatos.

Não é difícil recapitular a venda tragicómica do edifício dos CTT na Avenida Fernão de Magalhães, em Coimbra. Vendido de manhã por quase quinze milhões de euros à Demagre, revendido à tarde por cerca de vinte milhões à Espírito Santo Fundos de Investimento, SA. A anedota, que já foi caso de polícia, chegou agora à barra dos tribunais. Esperemos que as coisas se tornem finalmente sérias.

(Ontem, 04/02 no Jornal de Notícias)

Etiquetas: ,

Passeio Público

(For why hide my feelings?*)

O que é Coimbra? O que é a Universidade? O que é uma coisa sem a outra? Perguntas embaraçosas, por certo, mas que não estão para além de todas as suposições. É difícil pensar Coimbra sem a Universidade – e o reverso é igualmente exacto. Parece-me, portanto, bastante feliz a formulação de Seabra Santos (a poucos dias de abandonar a reitoria) quando afirma que “a Universidade e a cidade são complementares e indissociáveis”. A frase surgiu na sequência da XIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra, que irá decorrer entre os dias 1 e 6 de Março e subsume esse conceito, absolutamente fundamental e axiomático, que define uma cidade em relação a uma instituição, e vice-versa.

Em qualquer ponto da cidade é normal sentir-se a relação jurídica com a Universidade – como se cada rua respirasse através de um pulmão instalado na Alta. Na verdade (e por muito que se diga em contrário), esta relação de sete séculos carrega mais amor que ódio, apesar das esporádicas e expectáveis desavenças conubiais. Coimbra e a Universidade ganham muito através da sua ligação, muito mais que aquilo que perdem, já perderam ou virão a perder. A Semana Cultural é um símbolo dessa união de natureza consubstancial, um momento em que a partilha entre cidade e Universidade é mais intensa, mais visível e relevante.

Durante uma semana irá celebrar-se, não a certeza de uma relação entediada, mas o fulgor da mútua surpresa – é possível que se celebrem inconscientemente sentimentos fortes de pertença e comunhão. Lembram-se do que disse Dido?* Talvez não, ela disse tanta coisa sem ademanes de especial eloquência, aflorando assuntos irrelevantes e, diria mesmo, aborrecidos como a amargura da cigarra no Verão derradeiro. No entanto, a recordação de algumas das palavras de Dido (ou de Virgílio) é necessária e importante. Coimbra precisa de revelar o que sente pela Universidade. A Universidade precisa de revelar o que sente por Coimbra.

(25/02 no Jornal de Notícias)

Etiquetas: , ,

19.2.11

Passeio Público

(Vontade de varrer o lixo) Coimbra já foi (diz-se) a terceira cidade do país. Agora é apenas mais uma (entre tantas, algumas mais pequenas e insignificantes que Nazaré, o povoado da Galileia onde viveu Jesus Cristo). A perda é um fim de mundo, descrita como a história possível que deixou de o ser. Aquiles surgiu do outro lado da muralha e desbaratou o que restava de um sonho. Naturalmente, pode julgar-se que a cidade se foi destruindo por dentro, sem que para isso fosse necessária qualquer intervenção de forças alienígenas e mortais. As histórias deste teor são muitas e, desafortunadamente, parecem repetir-se ciclicamente, como se as crises auto-destrutivas devessem alguma coisa à biologia das lampreias. Persiste, é certo, uma vontade pertinaz de sobrevivência. Alguns actores da cidade não se renderam ainda à moleza semântica do “passado glorioso” ou às convicções estultas de alguma contemporaneidade. Os bons exemplos abundam e desses modelos de dinamismo a cidade ainda tem muito a esperar. Por exemplo, estes últimos dias têm sido pródigos em novidades na Universidade de Coimbra. O novo reitor já foi escolhido (Professor Doutor João Gabriel Silva) e a velha Cabra parece nova, depois das remodelações a que foi submetida no último ano. Duas boas notícias – que contam muito, certamente, para a candidatura da Alta de Coimbra a Património Mundial da Humanidade. Felizmente, a Universidade persevera apesar das dificuldades, da evidente nostalgia pelo passado que se resguarda em velhas paredes devolutas.Quão distantes parecem os paradigmas que brotam da Universidade, dos grupos de Teatro, dos Hospitais, dos artistas ou de algumas empresas daqueles que se revelam nas trapalhadas que governam Coimbra. Mesmo assim a cidade não desiste, nem quando deixa de haver vontade de varrer o lixo.

(Ontem, 18/02 no Jornal de Notícias)

Etiquetas: ,

12.2.11

Passeio Público

{Antes da morte}

O pior da vida é que se morre. Mais tarde ou mais cedo morre-se – podemos dizê-lo com a segurança rigorosa de que carecem, por exemplo, os dogmas religiosos ou os orçamentos da nação. Claro que morrer é um passo definitivo lógico, se pensarmos na vida como um ciclo fixo e predeterminado: vivemos, logo morremos. Mas chega de falar da morte, desse local inabitado. Falemos do que vem antes: das alegrias e das misérias, dos poros descerrados pelo sol, das cesuras deste vale de lágrimas.

O que vem antes. Satisfação, sofrimento. Apesar da possibilidade do apocalipse económico, parece-me óbvio que merecemos mais a primeira (a satisfação) que o segundo (o sofrimento). A felicidade não é obrigatória mas devia ser pelo menos uma opção. Para muitos, infelizmente, é apenas uma palavra.

Toda esta elucubração (confesso: um pouco negra) teve origem numa única – e terrível – notícia: “a fome (é mesmo esta a palavra) aumenta nas escolas de Coimbra”. O relato jornalístico não esclarece se esta “fome” é como a “fome em África” ou, de qualquer modo, se está relacionada com a ideia que nós, ocidentais sobrealimentados, temos do que é a “fome em África”. Julgo que não é desse flagelo que se fala, quando se fala de “fome” em Coimbra – mas de outra coisa, quase tão grave como as multidões de subnutridos: fala-se de condições de vida miseráveis, com tendência para piorar.

Onde os políticos vêem uma estatística, nós devemos ver um desastre. Uma criança que necessita de uma refeição escolar para não ter “fome” é um bramido de tristeza; não é um número numa tabela estatística. Representa um país apodrecido – incapacitado pela ganância e pela burrice. Mais interessante que as faces condoídas e mais urgente que a esmola piedosa é a mudança de paradigma económico e social.

{Sexta-feira, 11/02 no Jornal de Notícias}

Etiquetas: , ,

4.2.11

Passeio Público

{Dois mundos}
Os mal-entendidos que têm rodeado a cidade de Coimbra, desde o circo do Metro até à renúncia extemporânea de Carlos Encarnação, não sufocam – de todo – o orgulho e a alegria que resultam quer da “inauguração oficiosa” do novíssimo Hospital Pediátrico, quer da visibilidade internacional crescente da venerável Universidade. Uma apreciação rígida destes eventos que vêm marcando a cidade poderá concluir da diferença irredutível entre aqueles que servem a cidade e aqueles que se servem da cidade. Ao fim e ao cabo, talvez seja esta diferença a paradoxal intérprete dos eixos que retesam Coimbra entre o desenvolvimento e a estagnação.
A homérica transferência que ocorreu no último sábado (29 de Janeiro) entre as antigas e as novas instalações do Pediátrico tangeu o acorde maior (a “inauguração oficial” nunca será mais que um ritual de alarde e presunção) de um processo que se arrastou molemente por intérminos anos – bem descritos pela derrapagem dos custos de construção (nada de novo se anuncia debaixo do sol português) ou pela escolha desinspirada do local de edificação (o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha configura um paradigma semelhante mas com a desvantagem dos séculos).
Como é lógico supor, a limpidez desta história transformar-se-á facilmente numa margem esquecida de um corpo. O esquecimento é adequado. As excelentes instalações do novo Hospital Pediátrico, aliadas às reconhecidas capacidades dos seus profissionais de saúde (que transitam do antigo), devem ser as justas características que irão regular as conversas sobre a instituição.
À primeira vista, Coimbra vive imersa num antagonismo ontológico entre frescos que representam a elevação à justiça e a queda na boçalidade. O Hospital Pediátrico e a Universidade mostram-nos objectivamente que é necessário desqualificar aqueles que se agarram aos próprios erros, aqueles que recusam libertar-se do mundo ambíguo das habilidades e mentiras.
{04/02, no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

Passeio Público

{Tipicamente lusitano}
Neste país conhecem-se tarde as trapalhadas, os equívocos e as malfeitorias que se vão praticando em nome do Estado, como se a realidade vertesse sempre de uma confissão contrita, mas tardia, aos antigos padres da província. Lentamente, vão sendo dados a saber muitos dos processos que contribuíram (na sombra da lei e da ética) para que um país tão pequeno chegasse a ter uma crise económica e social tão grande.
Para a maior parte das pessoas de bem, a Lusitânia é uma antiga província romana, a oeste da Península Ibérica, onde viviam e morriam os audazes lusitanos, nossos putativos antepassados, e cuja capital era Emerita Augusta (a Mérida espanhola). Para uma ínfima minoria de iluminados, a Lusitânia é (ou era, não se sabe ainda muito bem) uma “Associação de Desenvolvimento Regional”, que deveria promover o investimento produtivo e o desenvolvimento social numa vasta região, que engloba dezasseis municípios dos distritos de Coimbra, Guarda e Viseu.
A associação, que existe desde 2002, vai ser dissolvida. O seu legado é parco e obscuro; para além de um ou outro site disfuncional, não se lhe conhecem actividades, programas ou resultados. Da sociedade resta somente um rol de despesas, de dinheiro desperdiçado em projectos espectrais e desígnios sem interesse para a região. Depois da miséria que nos foi dada agora a conhecer (vinte e cinco milhões de euros de fundos comunitários, públicos e municipais gastos não se sabe muito bem em quê) resta-nos a esperança que nada disto voltará a acontecer.
Mas é difícil acreditar nisso. O desperdício de dinheiro é um hábito antigo e enraizado, um fenómeno tipicamente lusitano. É quase a afirmação de uma identidade.
{28/01, no Jornal de Notícias}

Etiquetas:

1.12.10

Passeio Público

{A melhor cidade do mundo}
Coimbra é a melhor cidade do mundo. Já repeti muitas vezes o estribilho, sem ambiguidades ou interrogações. Não há uma efabulação perante os factos mas uma certa facilidade na aplicação automática do afecto irracional. A aplicação conscienciosa de um método científico e racional aos sucessos e vicissitudes conimbricenses não só é impossível como é indesejável – o recurso à crítica sustentada (ergo, construtiva) parece não agradar às “pessoas de bem” e aos restantes capangas do bom-nome da cidade.
Compreende-se, pois, que o comentário diagnóstico passe por maledicência e que a exposição descritiva seja lida como um romance de época. A “Fundação do Esquecimento” (que através de uma passividade tendente ao panegírico acrítico oculta o pó que extravasa cada equívoco ou descuido) recusa as dores da queda, negando-a. Infelizmente, os problemas surgem de novo.
A Biblioteca Joanina, o casario excedendo os acidentes da geografia, a senhora que vende bolos de Ançã, os Hospitais e os jardins, o novo canal de televisão da AAC, os Encontros de Cinema Português ou esse lugar extraordinário que é o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha referem-se, na verdade, a um encanto de dupla natureza: concreto e alegórico. A evidência palpável de algum mérito é polinizada pela sugestão simbólica de grandiosidade criando a cidade irrepreensível de cada um de nós. Sem estômago para a crítica ou o desapego temporário.
Para muitos, Coimbra não é uma experiência criticável. Eu penso o mesmo. Coimbra ainda é a melhor cidade do mundo. A sua história refuta qualquer tentativa de desconsideração. Sob uma forma vigorosa e, como eu considero, suportada pelos factos, é desejável, ainda assim, satirizar e reprovar quem destroça (mesmo sem saber que o faz) um átimo que seja da perfeição que sentimos em cada toque da Cabra.
{26/11 no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

24.11.10

Passeio Público

{Água da vergonha}

É natural que se tema por um país transformado em cordeiro desorientado, disponível para a auto-imolação, cujo motivo ideal contempla um presente sofrível e pouco mais. Muitos dos problemas do país radicam de uma indiferença histórica – pouco compreensível – perante o património, a herança que parcialmente nos cria e descreve. Não se pode esperar grande coisa do futuro quando se desrespeita o passado.

E qual a melhor palavra para descrever a decisão de deixar submergir a linha do Tua? Ocorre-me, precisamente, o vocábulo «desrespeito». Desrespeito pelo odor espesso da tradição, pela fragilidade da paisagem. O desaparecimento da linha centenária revela ao país (não esqueçamos: multissecular) que lhe resta apenas a fria aceitação da vacuidade. Infelizmente, um desastre assim não se encontra suspenso de um veto. Os homens bons não são suficientes para cegar o olho do erro.

A Universidade de Coimbra (UC), pelo contrário, não mostra receio pelo passado. Procura a identidade em respostas seculares, projectando-se decisivamente no futuro. O dossier de candidatura da UC a Património da Humanidade já foi entregue à Comissão Nacional da Unesco e os sete volumes que a compõem simbolizam outros tantos séculos de história – bem como a expectativa do porvir. A Universidade é reconhecida em todo o mundo – talvez um pouco menos em Portugal, que tantas vezes a despreza (por velha e ultrapassada) sem se dar ao trabalho de a conhecer.

A Universidade de Coimbra deverá ser uma das poucas instituições que sobreviverá ao grande naufrágio português. A pedra sobre a qual assenta é imperturbável. A um passado glorioso corresponderá, certamente, um futuro afortunado. A água da vergonha é um espectro de outros.

{19/11 no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

Passeio Público

{Luzes apagadas}

Ainda vem longe o fim de Novembro mas já pode dizer-se, com propriedade, que o Natal é todos os dias. Na televisão e nas montras dos centros comerciais, pelo menos. Nas ruas das cidades talvez não. E ainda bem. A ubiquidade precoce da quadra nos processos e discursos de um capitalismo voraz e capcioso (para além de tudo o resto) esvazia-a de significado. Para além disso, não consigo gostar dos paramentos luzidios que enfeitam árvores nas ruas – não consigo gostar, tão-pouco, da árvore de Natal propriamente dita.

Naturalmente, aplaudo a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de não montar a desmesurada árvore de Natal no Parque Eduardo VII. A resolução é um arrojo de sabedoria: porque poupa dinheiro aos cofres da autarquia e, sobretudo, porque nos poupa à fastidiosa lengalenga televisiva da “maior árvore de Natal do universo”.

Na realidade, o nosso país parece já não sobreviver sem um certo espírito próprio da época, deprimente, fomentado por temas tão díspares como a árvore gigante, o bolo-rei do Guiness ou o salto de pára-quedas de um senhor trajado como o Pai Natal. As luzes esparramadas à beira das estradas compõem, de forma similar, a atmosfera desse folguedo melancólico. Porém, este ano as circunstâncias são bem diferentes.

A crise económica contundiu as finanças das autarquias e, como tal, a restrição nos gastos com a iluminação de Natal é tão acertada como decente. Em Loures e Palmela não haverá qualquer luz natalícia promovida pelas respectivas Câmaras Municipais. A contenção é o mote também em Oeiras, Amadora, Santarém, Almada, Seixal, Cascais, Beja ou Faro: as reduções variam entre os 25% e os 68%. Em Coimbra, o corte será de apenas 10%. Porque será que isso não me surpreende?

{11/11 no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

8.11.10

Passeio Público

{Um carro sobre carris}
Os Belle Chase Hotel reúnem-se «para matar saudades» e acicatar a nostalgia dos fãs. Enfim, não surgirá um álbum novo mas alguns concertos com a formação original estão irreversivelmente garantidos. Em termos muito gerais, este será o tema principal nos próximos tempos – a bem-aventurança (com prazo de validade) terá início no próximo dia 12 (Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra).

O infortúnio é axiomático: não é possível habitar indefinidamente num microcosmo musical edénico, incomunicável e reservado. As asperezas da realidade destroem qualquer ensejo de sanidade. A tendência geral é a da perda ou da queda. A crise económica absoluta, que nos açaima tão confiadamente, não coíbe algumas figuras, ditas «com responsabilidade», de revelarem uma índole pouco rigorosa. De forma similar, certas organizações empresariais, com capital maioritariamente público (espaços sensíveis do perene recontro entre a honestidade e a ratonice), acumulam a desdita por inépcia e, em simultâneo, cultivam os terrenos férteis da impudência. Os exemplos são muitos, decerto, mas consideremos apenas o exemplo triste – e tão recente – da despesa com automóveis da Sociedade Metro Mondego (MM).

Asseguro-vos que meu horizonte mental se prolonga para além da MM. No entanto, o martirológio da empresa não cessa de me alvoroçar. Pouco tempo após o anúncio de agregação da MM à Refer, ficamos a saber que os maiorais da administração daquela preferem a BMW às carruagens do “Eléctrico Rápido de Superfície”. Para alguns, chegar à Lousã é fácil. Sabemos agora porquê: os carros parecem ter sido mais valorizados que os carris. É esta a ética empresarial que guia o país para os píncaros do sucesso? Não me parece.

Etiquetas: ,

1.11.10

Passeio Público

{Violência, condescendência}
A violência não é uma saída discreta (ou desejável) para o mar de frustrações que atormenta o tipo humano médio. Perante uma adversidade maior, ou uma discussão veemente, nem sempre é fácil contestar a pulsão ancestral, atávica, implantada nos meandros mais obscuros da nossa mente, que segue preferencialmente a via dos punhos ao invés do caminho dos mansos e das palavras de apaziguamento. Naturalmente, a moral e a lei existem também para contrariar esses caprichos – ou tiranias – da “natureza humana”. Quando caem as muralhas éticas o resultado é, o mais das vezes, assustador.

A fria atenção do mundo aos fenómenos crescentes de violência injustificada nem sequer é surpreendente (afinal, o que interessa verdadeiramente à plutocracia pós-moderna é o frenesim dos mercados); todavia, parece-me importante reflectir sobre situações concretas que justapõem um véu sombrio sobre eventos facilmente descritos como “festivos”.

É o caso da Latada, em Coimbra, e do “imprescindível” episódio de violência que todos os anos aformoseia a festa académica. Um relato prévio, à laia de contexto. Na última Queima das Fitas, durante o Cortejo, assisti desgostado a uma cena de pancadaria digna de filme americano (sem desmerecer Bud Spencer ou Terence Hill), envolvendo uma dezena ou mais de pessoas. Nunca saberei realmente o que se passou naquela tarde de Maio, o que determinou aquela dissonância física, mas recordo bem a apatia de dois agentes da Polícia de Segurança Pública que, naquele momento crítico, desprezaram por inércia a segurança e o público.

Já esta semana, na Latada, o arroubo violento foi similar: foram agredidos cinco estudantes com “navalhas e soqueiras”. Ah!, país de brandos costumes. A segurança privada não viu, a polícia chegou tarde e Miguel Portugal garantiu que o que aconteceu no recinto poderia ter acontecido noutro sítio qualquer (Charles de la Palice abençoaria, seguramente, a lucidez do presidente da DG/AAC). A colossal condescendência das estruturas de poder (no caso, a polícia, a segurança privada e a direcção da AAC) perante a derrocada da razão não é mais do que um sintoma geral de fraqueza da democracia.
{29/10, no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

Passeio Público

{Pontapear um morto}
Quando jogo no Euromilhões – é cada vez mais raro – só excepcionalmente acerto em mais que uma estrela ou número. Posso confessar, sem mentir, que nunca ganhei mais do que oito ou nove euros no jogo que «faz excêntricos». Também não possuo uma habilidade especial para prever tempestades e muito menos quedas abruptas no mercado bolsista. Enfim, a máscara fulgente do oráculo não combina com a minha personalidade bisonha.

Infelizmente, há muito que adivinhei o terrível destino do Metro na cidade Coimbra. A demissão de Álvaro Maia Seco, presidente da Metro Mondego (MM) e vereador da Câmara Municipal de Coimbra (eleito pelo Partido Socialista), marca de forma indelével o acto final de uma comédia que se transformou irreversivelmente numa tragédia: para Coimbra, mas também para a Lousã, para Miranda do Corvo e para toda a região.

A proposta de Orçamento de Estado para o próximo ano, apresentada na última sexta-feira pelo governo de José Sócrates, determina a obliteração da MM e a sua inclusão na REFER. Na sequência da deliberação governamental, Maia Seco declarou que o projecto do metro ligeiro de superfície foi «ferido de morte» – também o creio. Contudo, não imputo ao actual governo socialista toda a responsabilidade pelo enredo deste reles folhetim. A culpa divide-se forçosamente por mais do que um incompetente.

A MM pisou trilhos dolorosos, e erráticos, modificando constantemente as estratégias que alicerçavam o projecto e tremendo perante os desafios mais insignificantes (quem não recorda as críticas ao traçado do metro por um grupo de “pais preocupados”?). Na realidade, a história do MM encontra-se desde o início (desde 1996!) sob a sombra da cruz. O governo, ao integrar a empresa na REFER, teve o descaramento de pontapear um morto. A iniquidade de uns não desculpa a agnosia de outros.
{22/10, no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

17.10.10

Passeio Público

{Um recomeço}
Não estava à espera. É o fado dos pessimistas sentimentais. Não esperava que Victor Baptista perdesse as eleições para a presidência da Federação Distrital de Coimbra do Partido Socialista (PS) mas, sobretudo, não esperava que após a contagem dos resultados o deputado socialista jogasse a carta indecorosa do jogo viciado, acusando os apoiantes da candidatura de Mário Ruivo, o novo presidente, da utilização de documentos comprovativos do pagamento de quotas falsos, entre outras irregularidades.

Isto é muito grave, e espantoso; não só porque expõe de forma clara a astenia democrática que caracteriza agora uma fracção dos militantes do PS, especialmente em Coimbra, mas também porque mostra que para alguns tudo serve para ganhar (ou não perder) – até a sugestão de que camaradas do mesmo partido são desonestos.

Em última análise, a possibilidade histórica da democracia está nas mãos de uma capacidade biunívoca para acreditar na justeza dos processos eleitorais. Nas democracias mais “frágeis” (ou nas pseudo-democracias) uma das tentações do(s) derrotado(s) passa quase sempre pela alusão a irregularidades nas eleições, pela tentativa de recondução do desfecho eleitoral a uma circunstância de abuso difuso e programado.

Qualquer súmula moral, motivada pelo rescaldo deste processo, poderá sugerir que o PS de Coimbra tem experimentado um estado de “democracia frágil”. Mas seis votos, apenas, desvendaram uma possibilidade decorosa de redenção, um potencial de raiva e desprezo pelos erros cometidos nos últimos anos, autofágicos e improdutivos. A transformação prometida por Mário Ruivo mensura com precisão o pulsar socialista conimbricense: os valores democráticos talvez não se tenham perdido, talvez esperem apenas pela “jouissance” de um recomeço.
{15/10, no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

Passeio Público

{Uma árvore, nenhuma}
No Outono gostamos de ver as folhas das árvores precisamente porque caem e cumprem o seu destino de aniquilamento. É possível – mas não desejável – esquecer esses episódios concretos dos dias abreviados de Setembro. Não sei o que se passa com os portugueses e com aquele rancor que, às mãos completas, destinam ao pouco que resta das árvores raquíticas das cidades – não falo sequer do que se passa no Verão, em pinhais interiores e eucaliptais fastidiosos.

Visitamos o bairro novo (aquele género de condomínio privado tão do gosto do eterno pato-bravo) admiramos o cimento e os vidros amplos, mas não vislumbramos áreas verdes, uma árvore séria que se conte. O hospital mais moderno trata bem os seus utentes (os doentes deixaram há muito de existir) mas não admite árvores – um pequeno arbusto, por Deus! – no seu perímetro. As universidades são piores que as norte-americanas em quase tudo; consideremos particularmente a beleza do campus típico da Ivy League (mas não só) durante a “foliage” – em Portugal, os hossanas cantam-se aos calhaus, aos andaimes e à argamassa.

Logo, não nos admiramos quando, em Coimbra e na Lousã, se fala tanto em abater árvores. O desígnio parece sagrado – e imparável. O desvanecimento pacóvio com a estrada alcatroada, nutrido por uma poalha de incúria, ainda aquece os corações do autarca modelo lusitano. Em Coimbra, existe mesmo um parecer da Provedoria do Ambiente e Qualidade de Vida Urbana que considera um verdadeiro «atentado urbanístico» o abate de vinte e quatro árvores na rua João Pinto Ribeiro. A Junta de Freguesia da Sé Nova olhou para o lado, e fez o que lhe competia: deitou abaixo. O mundo e a cidade sobreviverão. O que não faltam são árvores e “maluquinhos” que se prendem a elas, com a vã esperança de as salvar. No fim, ganham os autarcas ajuizados e as ruas bem cimentadas.
{01/10, no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,

22.9.10

Passeio Público

{Realidade e pipocas}
A beleza produz milagres – se acreditarmos em Gogol – mas só a violência parece criar a sensação de realidade. A violência próxima, a disrupção urgente e fugaz do dia-a-dia, alimenta condições de absurdo em que tudo é tão concreto que, paradoxalmente, lembra a ficção. Quando um grupo de ladrões tenta assaltar as instalações da Prossegur, em Taveiro, a situação é vista por testemunhas, não como um incidente ancorado a uma grave crise económica e social ou como uma manifestação de insegurança crescente, mas como “um filme”. De gangsters, suponho.

Infelizmente, o “filme” nem sequer é muito original. No final do ano passado, um grupo fortemente armado tentou roubar uma carrinha da Esegur que transportava cinco milhões de euros – o assalto falhado ocorreu a poucos quilómetros da zona industrial de Taveiro. Apesar de constituírem actos falhados, estes assaltos provam que a criminalidade violenta possui um palco privilegiado no eixo fundado ao longo da via rápida de Taveiro. O fluxo ininterrupto de crime nesta zona cria uma expectativa de retaliação policial – que todavia parece não germinar.

O planeamento cuidado destes assaltos (bem como a extrema violência a eles associada) configura um tipo de crime pouco habitual no nosso país. Daí à fantasia cinematográfica vai um insignificante – mas perigoso – passo. A ficção conjura a impunidade: a vida imita a arte (pode dizer-se) mas, em todo o caso, não há perdas reais na segunda. Na verdade, não há vítimas a lamentar, ou prejuízos materiais avultados, mas é certo que também não há criminosos na prisão. A polícia (neste caso, a Guarda Nacional Republicana) descobriu os seus carros vandalizados – e descansou na coxia, como se esperasse o recomeço de um filme americano.

Etiquetas: , ,

15.8.10

Passeio Público

{Cortar o mal pela raiz}
Normal, tudo demasiadamente normal. O calor excessivo, a lentidão dos dias, as cinzas que envolvem os montes após os fogos. O Verão habituou-nos a esta miséria consentida de eucaliptos, maus acessos e bombeiros extenuados. Perdem-se homens e mulheres, paisagens, dinheiro e alguma inocência mas reiteram-se os hábitos que favorecem a destruição do que nos é potencialmente mais querido. Uma mulher, um renque de árvores, um

Quando, em Agosto de 2005, o fogo avassalou Coimbra de uma forma tão violenta quanto rara, pensámos que aquela fantasmagoria dantesca era apenas um acidente do destino, remetida para a singularidade de um acaso pouco feliz. Não obstante, se pouco ardeu entretanto em redor da cidade é porque pouco restou para arder depois do grande incêndio que ocorreu há cinco anos.

Mais tarde ou mais cedo, quando a massa florestal for suficiente para que outro incêndio como aquele suceda, a cidade será de novo cercada pelas chamas e, como já é hábito, os responsáveis políticos irão culpar a falta de meios de combate a fogos, a alienação dos incendiários e a resiliência da canícula. Infelizmente, as coisas são mais graves. Os erros estruturais (mau ordenamento florestal, falta de limpeza das matas, inexistência de guardas florestais) acumulam-se desde há muitos anos e o Verão não mostra qualquer misericórdia pelos equívocos dos homens.

No centro da cidade, os problemas são outros mas também afectam a cobertura vegetal: o Parque Dr. Manuel Braga pode ficar sem os seus plátanos, afectados por não menos que três agentes patogénicos, rápidos e letais. É quase impossível imaginar aquele belo espaço sem as suas famosas e generosas árvores, que acolheram sob a sua sombra múltiplas gerações de conimbricenses. Cortar o mal pela raiz – literalmente – parece ser a solução. Mais um microcosmos que se perde.
{Sexta-feira, 13/08, no Jornal de Notícias}

Etiquetas: ,