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22.9.10

Passeio Público

{Realidade e pipocas}
A beleza produz milagres – se acreditarmos em Gogol – mas só a violência parece criar a sensação de realidade. A violência próxima, a disrupção urgente e fugaz do dia-a-dia, alimenta condições de absurdo em que tudo é tão concreto que, paradoxalmente, lembra a ficção. Quando um grupo de ladrões tenta assaltar as instalações da Prossegur, em Taveiro, a situação é vista por testemunhas, não como um incidente ancorado a uma grave crise económica e social ou como uma manifestação de insegurança crescente, mas como “um filme”. De gangsters, suponho.

Infelizmente, o “filme” nem sequer é muito original. No final do ano passado, um grupo fortemente armado tentou roubar uma carrinha da Esegur que transportava cinco milhões de euros – o assalto falhado ocorreu a poucos quilómetros da zona industrial de Taveiro. Apesar de constituírem actos falhados, estes assaltos provam que a criminalidade violenta possui um palco privilegiado no eixo fundado ao longo da via rápida de Taveiro. O fluxo ininterrupto de crime nesta zona cria uma expectativa de retaliação policial – que todavia parece não germinar.

O planeamento cuidado destes assaltos (bem como a extrema violência a eles associada) configura um tipo de crime pouco habitual no nosso país. Daí à fantasia cinematográfica vai um insignificante – mas perigoso – passo. A ficção conjura a impunidade: a vida imita a arte (pode dizer-se) mas, em todo o caso, não há perdas reais na segunda. Na verdade, não há vítimas a lamentar, ou prejuízos materiais avultados, mas é certo que também não há criminosos na prisão. A polícia (neste caso, a Guarda Nacional Republicana) descobriu os seus carros vandalizados – e descansou na coxia, como se esperasse o recomeço de um filme americano.

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