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1.11.10

Passeio Público

{Violência, condescendência}
A violência não é uma saída discreta (ou desejável) para o mar de frustrações que atormenta o tipo humano médio. Perante uma adversidade maior, ou uma discussão veemente, nem sempre é fácil contestar a pulsão ancestral, atávica, implantada nos meandros mais obscuros da nossa mente, que segue preferencialmente a via dos punhos ao invés do caminho dos mansos e das palavras de apaziguamento. Naturalmente, a moral e a lei existem também para contrariar esses caprichos – ou tiranias – da “natureza humana”. Quando caem as muralhas éticas o resultado é, o mais das vezes, assustador.

A fria atenção do mundo aos fenómenos crescentes de violência injustificada nem sequer é surpreendente (afinal, o que interessa verdadeiramente à plutocracia pós-moderna é o frenesim dos mercados); todavia, parece-me importante reflectir sobre situações concretas que justapõem um véu sombrio sobre eventos facilmente descritos como “festivos”.

É o caso da Latada, em Coimbra, e do “imprescindível” episódio de violência que todos os anos aformoseia a festa académica. Um relato prévio, à laia de contexto. Na última Queima das Fitas, durante o Cortejo, assisti desgostado a uma cena de pancadaria digna de filme americano (sem desmerecer Bud Spencer ou Terence Hill), envolvendo uma dezena ou mais de pessoas. Nunca saberei realmente o que se passou naquela tarde de Maio, o que determinou aquela dissonância física, mas recordo bem a apatia de dois agentes da Polícia de Segurança Pública que, naquele momento crítico, desprezaram por inércia a segurança e o público.

Já esta semana, na Latada, o arroubo violento foi similar: foram agredidos cinco estudantes com “navalhas e soqueiras”. Ah!, país de brandos costumes. A segurança privada não viu, a polícia chegou tarde e Miguel Portugal garantiu que o que aconteceu no recinto poderia ter acontecido noutro sítio qualquer (Charles de la Palice abençoaria, seguramente, a lucidez do presidente da DG/AAC). A colossal condescendência das estruturas de poder (no caso, a polícia, a segurança privada e a direcção da AAC) perante a derrocada da razão não é mais do que um sintoma geral de fraqueza da democracia.
{29/10, no Jornal de Notícias}

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