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15.4.10

Estéticas da morte #sessenta

& assim terminou a sua vida, resfolegando como um novilho. Quanto a D. Berenice, haveria de viver ainda dois carros de anos – se ainda se recordam desta medida tão pícara, perceberão que não foi assim tão pouco – mas agarrada já ao túmulo, à escuridão do que ainda havia de vir, & pouco importada com a fortuna, com os jardins da casa de Alvouco ou com a educação do menino Américo. Chorou uma única vez, durante todos esses anos, porque se queimou a fazer o café (ou possivelmente o chá), sorriu ainda menos & esqueceu o uso das palavras – ninguém mais lhas escutou. Podia dizer-se que D. Berenice foi vivendo, mas o mais correcto talvez seja dizer-se que D. Berenice foi morrendo
(sem no entanto chegar de facto a morrer).
Sei bem o que digo: ando há dias a pensar nisto que aconteceu a D. Berenice (esta respiração pendente, este sono empedernido) & entretanto algum cheiro há-de surgir. Então, declará-la-ei finalmente morta - como é lógico supor, e a menos que ela se levante sem nada dizer, se dirija à cozinha e me prepare uma infusão de ervas, como é, de resto, seu hábito antigo.

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19.6.09

Estéticas da Morte #cinquenta e nove

Bonfort e Le Coeur, assassinos, ajoelharam-se e declararam em voz alta o seu arrependimento pelas ofensas feitas a Deus e ao rei. Deus, infinitamente misericordioso (feitio, de resto, amplamente disputado em alguns livros do Antigo Testamento), indultou-os enquanto o Diabo* esfregou um olho. O rei, mais pragmático que o bom Criador, fez dos dois assassinos um exemplo: Bonfort e Le Coeur seriam enforcados depois de tomarem um banho veemente e de vestirem uma farpela elegante, costurada numa das melhores lojas da cidade (alfaiataria de Vincent Chalès, filho).

Mais tarde, Bonfort e Le Couer, caminhando lentamente para o cadafalso, remiraram-se com gosto nos olhos de belas raparigas do povo. Apesar de acharem as roupas novas um tanto ou quanto apertadas, é possível que tenham perdoado ao alfaiate Vincent esse nada despiciendo pormenor no momento em que o verdugo os ajustou à derradeira, peremptória, gravata.

*Que aparecera no Paraíso pouco antes, a fim de tratar de umas burocracias.

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17.6.09

Estéticas da Morte #cinquenta e oito

As obrigações familiares e um temperamento algo timorato, sempre despropositado no momento de arranjar desculpas esfarrapadas, levaram-me a aceitar o convite e, desgraçadamente, a comparecer no casamento de minha prima, H. Cosme da Silva (o «H.» é de Elena). A cerimónia, como de costume ao sábado, decorria sem surpresas ou espanto, se ressalvarmos a entrada em cena do decote generoso da flamejante G. de Castro (o «G.» é de Joana), a madrinha, durante a epístola de Paulo aos Coríntios, que provocou pelo menos dois «Ah!» de aprovação e um «Oh!» de inveja, até àquela parte da missa em que o padre questiona a assistência relativamente a impedimentos, putativos o mais das vezes, à consumação do matrimónio. Nesta altura a porca torceria o rabo, se porca existisse por perto. Pela primeira vez na história, acho eu, alguém se chegou à frente e disse de sua justiça. O infeliz amava, vejam bem para o que lhe deu, a minha prima H., e por isso falou. Não contava, porém, ou não sabia, o que é muito mais provável, que o noivo era da Guarda (Republicana) e que aquilo é gente que sói carregar as armas para as festas, para as descarregarem para o ar, como fazem os árabes quando os americanos espirram, ou o Benfica ganha o campeonato. Que o tenham morto logo ali, vá lá, é compreensível e até louvável, mas ao menos que me dessem tempo de tirar a Leica do saco. O álbum de fotografias, digo-o com mágoa e sem pensar no brasileirismo, ficou «meio mixuruca»: uma mosca esborrachada no penteado da minha tia S. (o «S.» é de Célia) não leva metade da graça de um corpo surpreendido por duas dúzias de balas.
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26.5.09

Estéticas da Morte #cinquenta e sete

Este homem, antiquado mas non troppo, ama a rapariga. Mata-a todavia com três tiros (arma de caça, canos justapostos, origem italiana). Um, dois, três - calma. É a vez dele. Um tiro, um apenas mas estrondoso, sincero e escolhido, fechado no papo carnudo entre a mandíbula e o pescoço. Chegou e sobrou – confirma o médico legista (há-de ir beber dois copos – é melhor que sejam três - e tentar esquecer o que viu) -, está feito e ite missa est.

Ninguém sabe porque acabou assim a história (ninguém se deu ao trabalho), mas naquelas órbitas vazias remanesce um caos antigo de traição.
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8.5.09

Estéticas da Morte #cinquenta e seis

Com desvantagem substitui Beppo os olhos de Borges. Na obscuridade relativa da calle Serrano, em alguma divisão da casa, prefigura-se o inventário apócrifo: «Há uma pele já gasta que foi de tigre.» O que é agora, senão uma pele? Talvez o próprio tigre, não fora o tempo que perdeu entretanto: o corpo, a presa e a selva.
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4.5.09

Estéticas da Morte #cinquenta e cinco

O sono é uma morte reversível. Eis uma associação impensada; mera justaposição de bracinhos pendentes, ícones da Prelada e ardores de alma, orgãos de missa e negrumes correctos de Goya. Na morte (no seu irreconhecido estado perpétuo) todas as cores são iguais, todas as caras se tornam uma só, e as saídas não abundam. O sono é uma morte transiente (como a osteopenia*), um esquecimento sem caixão e prantos desnecessários; é uma morte melhor, em princípio, mas no outro dia é preciso ir trabalhar.
*Marcus, Robert. 2008. Osteoporosis. Elsevier, NY.
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16.4.09

Estéticas da Morte #cinquenta e quatro

Não é fácil mas aqui vai: o ano seria 1992 ou 1998, a cidade seria Coimbra (mas é possível que fosse A., no centro de P., freguesia de S.A.O.), o protagonista seria um qualquer - permito que o leitor mais fantasioso extravase, às suas custas, a minha limitada imaginação. Ainda assim, o sol brilhava, talvez complacente, e uma pequena ave de arribação, bravia porém descansada, no corrupio de Abril encontrou ainda o par. Ah, l'amour! Como é belo, delicado e eterno, o (sic) l'amour!. Passarinhos, passarocos, infelizes, amantes e loucos: talvez não merecessem o destino rasteiro da pressão de ar, mas o prato de um homem não se quer vazio.
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31.3.09

Estéticas da Morte #cinquenta e três

Um velho espia-me, sentado. Porque me olhas assim, paizinho? Porque perdes o teu tempo comigo, tu que não tens mais tempo para desperdiçar? Sou o arremedo possível do que foste, sei bem que é isso que pensas. Mas, por favor, pára de olhar. Vive ainda, mais um pouco, como se amanhã pudesses esperar ainda outras manhãs. Esta manhã não te chega, paizinho? É tarde demais para chorar. As folhas do plátano caíram todas, já as levaram para longe os almeidas da junta, e tu, descansa, permaneces. Sem o troar de quedas e o assobio do vento - a tua anca recupera, não te preocupes. Ninguém te leva. Espias um pobre rapaz que não sabe o que dizer para que feches o olhar de uma vez por todas. A tua cabeça é ainda uma cavala fresquinha, não te enerves, vais a falar para a cova, vão ter que te calar, de certeza, com o Pascoaes na ponta da língua, lembras-te?, como se fosse o dia do exame em mil novecentos e trinta e coiso. Calça-te, vamos ver as árvores, assim não, ao contrário, essa pantufa?, sim, no outro pé. Anda, alminha. Pára de olhar. Vive mais um pouco, deixa-te ir.
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24.3.09

Estéticas da Morte #cinquenta e dois

Tu também vives – grande desta cidade, efialta da mulher – no vazio do teu nome e chegas cansado de uma rua à outra, como se a limpidez da geografia fosse supérflua: ecuménica, monótona. Outrora eras o gado trémulo, precipitado, mas a vida é uma redoma incerta – vileza ou desfeita de Deus – e há-de entender-se o cadafalso. Retoma a parénese, o ardor moral do condenado – tu vives ainda, o leão desenha as sílabas na cegueira prometida. Bebe deste sôfrego bocejo a suspeita de toda a desproporção. A sementeira do mal (mimetizas a planta) incandesce na monstruosidade lábil da derrota, revela-te imundo ao carrasco. O homem é o que dele faz este machado.
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4.3.09

Estéticas da Morte #cinquenta e um

Uma pazada de terra em cima da madeira, um cigarro. Uma pazada de terra em cima da madeira, uma mija. Uma pazada de terra em cima da madeira, uma hesitação. O cansaço. Aldo deita-se na terra, em cima da madeira; adormece, o dia vai cumprido.

Um homem a dormir numa cova, deitado na terra, em cima da madeira, parece um homem morto. Mas este ressona muito.

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4.2.09

Estéticas da Morte #cinquenta

O choque foi veemente – enérgico! Tchim-pam-pum! O gajo ia a abrir, o Punto todo artilhado, ai que rústico, e eu rodava na rotunda há vários meses; alas!, pode dizer-se, e eu digo, que a culpa foi inteiramente dele. Mas o jovem tinha que vir ao meu direito, uma espécie de Rambo de baixa graduação, a chamar nomes à minha mãe e até a mim, vejam lá se o cabrão merecia continuar a viver, e depois deu-lhe para dizer que fazia e acontecia e que me matava com pancada. Eu calado, a boca inacessível numa gaifona de volúpia. Furtivo, levei o dedo ao gatilho: atirei aos pneus, como costuma fazer a polícia em perseguições na têvê e na Cova da Moura. Azar, ricochetes e acasos, a mão do Inimigo*, sei lá: acertei, puf!, não no pneu, mas na cabeça do parolo. Como costuma fazer a polícia em perseguições na têvê e na Cova da Moura.

* Valha-me o Bom Jesus do Monte, o São Torcato e o São Bentinho da Porta Aberta.
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23.1.09

Estéticas da Morte #quarenta e nove

As raízes já crescem nos teus olhos. À mesa, no teu lugar, uma velha fotografia que te tirei em Q..., amarelecida pela sucessão entediada dos verões e pelos olhares piedosos das tias. Já me disseram que a fotografia não te faz justiça, e não faz. Uma reprodução silenciosa de uma rapariga risonha e despreocupada - até bonita - não apaga o mal que fizeste a tanta gente, a dor que me causaste, sobretudo. Ainda bem que morreste cedo, cheia de viço e saúde. Uma bala, mesmo desajeitada, costuma ser mais forte que uma excelente pele.
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12.1.09

Estéticas da Morte #quarenta e oito

Morri na praia. Não como as ondas e menos ainda como um tal de Gustav von Aschenbach, cuja história de má sorte (e maus instintos) podemos adivinhar nas poucas páginas de A morte em Veneza. Lembro-me (claramente, apesar da escuridão desta cova) que uns segundos antes de cair para o lado, e para nunca mais me levantar, pensei: ena, sinto-me tão bem! Foi então que senti uma pancada na nuca. Julguei que era um efeito secundário da felicidade que então me apoquentava. Agora, mais calmo, imagino que alguém me quis adormecer temporariamente, com o malévolo intuito de me extorquir a carteira. Tenho pena, a arte de furtar ainda hoje nega as graças de uma boa formação profissional. Aquela pancada matou-me e, pior que isso, deixou mal vista toda a classe dos ladrões.
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