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31.1.08

Bastonadas

Um bastonário com pommodoros: Marinho Pinto. Pode-se não gostar do estilo bulldozer, do sotaque ou da gravata [horrível] mas não há dúvida que o advogado de Coimbra agitou decididamente as remansosas e lamacentas águas da justiça e política portuguesas e é dos poucos que denuncia sem temor as pequenas misérias que as inquinam.
[O caso da venda do prédio dos CTT, na Rua Fernão de Magalhães em Coimbra, é antológico]

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John Edwards

John Edwards afastou-se da disputa para a nomeação do candidato democrata às eleições para a presidência dos EUA. As propostas do ex-senador da Carolina do Norte eram, relativamente aos projectos e concepções políticas de Barack Obama e Hillary Clinton, as que se dispersavam de forma mais explícita na paisagem ideológica da esquerda. Por isso, e apenas por isso, Edwards era o meu candidato preferido. Muitos apoiam Obama só porque é negro (de acordo com o maradona, Barack Obama podia também ser o primeiro presidente branco do Quénia), outros tantos apoiam Hillary só porque é mulher. Confesso que gostaria muito de ver uma mulher ou um negro (ou um asiático, ou um homossexual, ou um nativo-americano, ou um chicano...) como presidente dos Estados Unidos. Mas apenas porque são negros ou mulheres? Não. Se assim fosse estaria a fazer tabula rasa de uma parte da equipagem ideológica e moral das ciências sociais: ver além da cor da pele, ver além do género. Mesmo que isso signifique apoiar a pessoa (temos que perceber definitivamente que é de pessoas que falamos e não de brancos e negros, mulheres e homens) com o fenótipo do "opressor" tipificado: homem, branco, cristão. Edwards é muito mais que isso e representava muito mais que o idealismo vácuo de Obama ou a experiência ancorada ao sistema de Hillary. Desistiu, pronto. Life goes on. Eu nem sequer sou americano, porque é que a minha opinião sobre este assunto haveria de ser do interesse de alguém? Mesmo não interessando, sempre digo que agora serei por Barack Obama ou por Hillary Clinton: muito melhores que qualquer um dos candidatos do outro lado.

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Passeio público

Ontem, 30/01, no Jornal de Notícias

Eis as palavras dilectas dos políticos: progresso, desenvolvimento, crescimento. Enfim, o futuro. A ilusão das palavras, a desilusão das acções por concretizar. Na realidade, não há razão para não darmos outra oportunidade aos fautores do nosso destino público. A tradição e as leis canónicas sugerem-no: a paciência é uma virtude. E Coimbra, sabemo-lo bem, é uma cidade virtuosa.

Foi finalmente apresentado aos empresários e a outros parceiros estratégicos, na sede da Associação Comercial e Industrial de Coimbra, o programa que promete ser mais que um sonho utópico da cidade que nele vislumbra a sua definitiva oportunidade de futuro. Falo, já perceberam, do projecto Coimbra Inovação Parque, trivialmente designado por Coimbra iParque. Uma ideia que manifesta, pelo menos, um premente desejo de sol por detrás da penumbra de estagnação que há muitos anos vem ensombrando a cidade.

A construção de um vasto complexo industrial e tecnológico, um espaço privilegiado de acolhimento de empresas da nova economia, pode funcionar, sem dúvida como um catalisador de desenvolvimento num Distrito que há demasiado tempo soçobra à inércia da autarquia, ao esquecimento do poder central e às promessas por completar de ambos.

O iParque funda-se, antes de tudo, num vínculo entre a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e a Universidade. Um sucesso, por si mesmo, quase inaudito: é conhecida a aparente distância da cidade relativamente à academia (e vice-versa). É, portanto, um desígnio tocado pela fragrância da mudança.

Com cinco áreas estratégicas de desenvolvimento (saúde e ciências da vida, robótica, telecomunicações, multimédia e transversais), a aposta crucial do projecto cinge-se à implantação de empresas ligadas às novas tecnologias, de crescimento rápido; à transposição para as empresas do conhecimento gerado na Universidade de Coimbra ou no Instituto Politécnico e à constituição de uma tessitura de parcerias entre investidores, empreendedores, centros de investigação e outras empresas preexistentes. O propósito final é claro: agilizar, dinamizar e fortalecer o sector produtivo da região.

Apesar de neste momento as expectativas serem as melhores, o iParque esteve próximo de sucumbir às altercações intestinas que há bem pouco tempo afligiram a autarquia conimbricense. Os desentendimentos e querelas entre subscritores (recordo que a CMC é a accionista maioritária do Coimbra Inovação Parque) quase impediram o embolso das verbas referentes ao terceiro Quadro Comunitário de Apoio. Tempo precioso, sumido.

Reverenciado por tecnocratas e políticos, o projecto do iParque pode ser mais que uma promessa de “crescimento” e de “progresso”. Pode ser o fio condutor entre um passado glorioso (mas desmaiado) e um futuro promissor que tarda em se cumprir.

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29.1.08

Estéticas da morte #trinta

A hesitação coordenada das mãos. Dias a mais fora da pele. A carta. A mulher do olho garço, julgo que era este o nome pelo qual Laura era conhecida no bairro, encostou o corpo à transparência efémera do vidro e permitiu-se à observação diletante, quase obstinada, dos homens que, no cimo das torres em construção, preparavam a boca e todo o resto do sistema digestivo para o alimento que, bem vistas as coisas, é apenas um saboroso e nutriente paliativo da morte. Para quê, perguntou-se Laura, tudo é pó e ninguém parece aperceber-se disso: mais vale que olhem mesmo, como se fosse a mim que estivessem a comer, até à náusea da erecção. A carta esvoaçou para longe, parecia mesmo um daqueles pardais de jardins de fim de tarde e mãos velhas de milho - leve, leve, leve. Ocorreu-lhe segurá-la mas no mesmo instante adivinhou um sopro repentino, brando como o amansado zéfiro; e, nem um milésimo de segundo depois, um estrondo indiferente e seco (um salpico quente de sangue e bocadinhos de osso). Um dos operários quis mesmo saltar-lhe em cima, o olho garço de Laura calculou que o homem falhara o propósito em cerca de 45cm. A carta e os seus segredos (mas não o sobrescrito) perderam-se definitivamente na agitação carpida de gritos e sirenes.

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28.1.08

Da ciência

1. Nunca afirmar como verdadeiro o que é apenas uma suposição íntima.
2. Fundamentar as hipóteses com dados empíricos.
3. Fazer tabula rasa dos preconceitos.
4. Reflectir antes de falar.
5. Reflectir depois de falar.
6. Ter sempre a noção de que mais tarde ou mais cedo alguém vai aperceber-se dos nossos erros.

[É a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. Parece que é o Sol que se move, não é? E, no entanto, isso é mentira. Cuidado com os movimentos aparentes: a delusão é a fraqueza do mau cientista.]

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26.1.08

Levezinho

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24.1.08

Passeio público

Hoje, 24/01, no Jornal de Notícias

[Café Central]

Passou algum tempo até que eu apreendesse definitivamente, e da forma mais trágica, uma das ideias capitais enunciadas por George Steiner no pequeno livro “A ideia de Europa” (que é a condensação escrita de uma conferência no Nexus Institute em Tilburg, Holanda): “a Europa é feita de cafetarias, de cafés”. Estes, desde “A Brasileira” do Chiado e de Fernando Pessoa aos cafés da ucraniana Odessa frequentados pelos bandidos de Isaac Babel, definem-na e mapeiam-na. Forjam e circunscrevem o endoesqueleto de uma certa percepção do que é, ou pode ser, a Europa.

É uma concepção à escala do humano, do sentido corpóreo das cidades ou das aldeias. Um café é um local de afectos porque geralmente nele permanecemos até ser ultrapassado o limiar do desconhecimento (de quem e do que nos rodeia) ou porque os amigos rematam a companhia fiel dos balcões e das mesas. É um sítio de reconhecimentos, de relembranças e memória; uma espécie de congregação laica, onde interesses e conveniências símiles se agregam em volta das mesas, da bica e das conversas.

Foi tudo isto que me inundou a memória de reminiscências sinistras quando, ao passear na Rua Ferreira Borges, percebi que o Café Central deixara de existir. Mais um. De mansinho, num murmúrio, a Baixa vai perdendo os seus cafés emblemáticos, simbólicos. Aliás, por toda a cidade vêm encerrando alguns cafés que, no seu conjunto, entreteciam uma certa alegoria do que é (ou era) Coimbra. Por eles perpassava uma parte importante da história da cidade. Não é possível desprezar os seus nomes nesta fuga derradeira ao esquecimento: Arcádia, Internacional, Mandarim, A Brasileira, Moçambique e até o OAF.

É claro que o lento eclipse dos cafés na Baixa é apenas um presságio de um infortúnio maior. No velho centro de comércio mal se reconhece o pulsar da vida. Nas ruas estreitas, no silêncio profundo dos prédios desbotados, a existência é quase uma sombra, uma fantasia projectada nos olhos dos poucos habitantes que desrespeitam o fim anunciado. O desaparecimento é sempre um fado menor, mesmo para quem resiste perante a certeza da muralha caída. Mas é um destino, afinal.

Um destino de ruínas cinematográficas, à mercê de dispositivos de vigilância, filmado meticulosamente. Talvez as câmaras de vigilância que hão-de ser instaladas na Baixa, avatares tecnológicos de derivas securitárias de antanho, sejam apenas as testemunhas de uma morte serena em que o passado é reduzido à condição de ficheiro de vídeo.

Resta o espaço memorialístico como contraponto ao desaparecimento dos cafés, das barbearias centenárias, das lojas. E as histórias que nos vinculam ao passado e nos definem a existência.

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Coimbra: amigos da cultura

23.1.08

Procrastinação

22.1.08

Fake empire

Quando encurralados entre a fera e a rocha é tudo mais simples, o alívio da morte é a única possibilidade do porvir. O pior é quando existe uma saída, ou a ilusão de uma saída, a verdade é que a esperança da fuga não impede que as sombras tomem o nosso olhar. Apenas torna a morte mais indigna, mais mijada, mais mortífera. A esperança devia ser a primeira a morrer.

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21.1.08

Anamnese criativa

Como reconstruir o puzzle? Peças a menos, o trivial: dedos gordos de crianças e bocas à espera do incisivo primevo, recantos de sala, um sofá enrugado de rabos recorrentes. As lacunas preenchem-se com uma coisa qualquer, não é isso que interessa, o puzzle tem é que convidar para o sentido, retomar um enredo possível - desejado, até, mas radicularmente utópico. Há muitos anos, não sei bem quantos, comecei a ler O músico cego de Korolenko numa edição de bolso da Europa-América, muito verde e branco no limiar subtil de 3 figuras agónicas a tocar pífaro e balalaika. Digo comecei porque não cheguei a terminar o livro: faltavam as últimas 23 páginas. Quando me apercebi disso fiquei puto de raiva, se fosse rapariga até tinha chorado e tudo (deixai-me desmontar este momento perturbante de machismo: isto é pura provocação, eu sou feminista, feminil e adoro fenilalanina). A verdade é que o mundo não acabou ali, com a falha física do livrito e a falha moral que é a marca ingénita de uma história abandonada a meio. Parece-me até que os pássaros depois disso continuaram a voar, a cantar - mas só aqueles que cantam - e a cagar os vidros dos carros e das janelas dos prédios mais altos. Foi isto, comecei e, por motivos de força máior, não acabei. Inventei: Casei o Pedro, o músico cego, com uma mujique que quando o viu (e ouviu) a primeira vez disse: Ena! O moço toca tão bem! É capaz de chegar acolá mas não à outra que é mais longe e mais grande*. Mas isto são devaneios pouco profícuos para uma resposta hipotética à questão que encima o texto. Não vou tentar responder agora. O puzzle segue aconchegado num envelope pequeno. Se o encontrares poderás fazer a anamnese de uma história omissa, inacabada; poderás fazer dele o que quiseres.
*Por quem é?

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Suedehead

Peço desculpa, as minhas palavras tomam o caminho solitário da derisão. (I’m soooooooooooooooooo sorry!). A certa altura o homem que escarnece do mais fraco é humilhado pelo próprio riso desamparado. Como me sinto, um morto entre flores esmaecidas, insulado no enfado de missas assistidas por obrigação. Estrangulado pela vertigem do poder. Sei que o sarcasmo é um mecanismo jurisdicional, um processo lento e conspícuo de opressão. Mesmo assim queimo os dias com beijos de Judas, gargalhadas sentidas no peito (de frango, à escolha da freguesa) indiviso do gozo, escolho eu. A raiva, a morte. Um destino menor para quem caiu sozinho. Mas um destino, afinal.
Abano de cabeça. Bué de abano, assim estou a gostar.

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18.1.08

Dendrocronologia

A palavra incompreensível nunca será proferida em vão.

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17.1.08

64

Agora os fantasmas que se lamentam, os mortos entre os vivos: custa-lhes estar noutro planeta. Estou morto e os meus sinais são apenas esperanças frustradas. Estar morto, eu! Como esta ideia entusiasma a minha vida.

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Passeio Público

Ontem, 16/01, no Jornal de Notícias
Escrevo a partir da “província”, como se dizia antigamente, quando o país rescendia a mofo e trajava de negro. Os termos “província” e “provinciano” são interessantes porque traduzem múltiplos sentidos. Na sua polissemia destaca-se, para além da acepção geográfica e territorial, uma certa ideia de paisagem anacrónica e tradicional ou de português de casta grosseira, de mundividência limitada e baixa extracção cultural.

Fernando Pessoa, em “O provincianismo português” identificou perfeitamente os estigmas peculiares desse feitio tão marcadamente nosso. O provincianismo, mais do que a condição geográfica de “pertencer à província”, supõe uma atitude mental de êxtase e postura acrítica perante a novidade, o progresso e a civilização. E a falta de ironia. O poeta objectou ao provincianismo uma terapêutica única: “saber que ele existe”.

Se é verdade que o fundamento de que qualquer cura se vincula à consciência de que existe uma doença, então as declarações de Gomes Canotilho (Jornal de Notícias, 08/01/2008), que aludem a um suposto provincianismo da Universidade de Coimbra (UC), revelam-se como um importante episódio de auto-consciencialização de uma universidade que carrega o peso de setecentos anos de história (como uma mercê e um frete, em concomitância).

O constitucionalista e professor da Faculdade de Direito tentou ainda amansar as próprias palavras, contextualizando-as: a UC é provinciana porque cativa, cada vez mais, alunos da zona Centro, em detrimento das outras regiões do país. O provincianismo é geográfico, portanto. Nem sequer isso, como assevera João Gabriel Silva, presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC. Coimbra é, incontestavelmente, a menos regional das grandes universidades portuguesas. Os dados assim o indicam.

Não obstante, a questão mantém-se (e não deve ser esquecida): a UC é, ou não, uma escola provinciana? Paroquial? Medíocre e de vistas estreitas? A resposta é, ainda, negativa. Pelo menos se avaliarmos o substrato de excelência que toca e poliniza diversas arenas de conhecimento na mais antiga universidade do país. Apesar dos reiterados constrangimentos orçamentais, da redução do número de alunos em alguns cursos e da diminuição do espectro geográfico de recrutamento de estudantes, a excelência da UC pode ser aferida pela posição privilegiada que a instituição ocupa em classificações internacionais relevantes sobre universidades (e centros de investigação) e que a colocam invariavelmente em primeiro lugar de entre as universidades portuguesas.

A UC, para se projectar definitivamente no futuro, não pode ter medo de se criticar e reprovar, de inventariar os seus próprios defeitos. Assim, apercebo nas declarações de Gomes Canotilho um brado mobilizador de consciências adormecidas pela complacência da “vidinha” universitária, não um jugo de vergonhas íntimas e auto-flagelação.

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16.1.08

French music #seventeen

Glenn Gould - Bach Partita No.6


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Se isto é um homem*

Chega ao fim a primeira semana após a entrada em vigor da Lei da Discriminação, também conhecida por Lei 37/07, ou Lei Antitabaco. Dois milhões de portugueses viram as suas vidas mudadas de um dia para o outro, sendo remetidos para a rua nos locais de trabalho, nos cafés e nos restaurantes, nos centros comerciais e nas lojas. Faz-me lembrar, irresistivelmente, os primeiros decretos antijudeus da Alemanha nazi. Será que aguentaremos o gueto sem nos revoltarmos?
[Miguel Sousa Tavares]
Anedótico. Obsceno. A distância entre o desrespeito e a representação do desrespeito é inconquistável.
*O título deste texto remete, obviamente, para o livro de Primo Levi com o mesmo nome e com ele não pretendo, de maneira alguma, fazer juízos de valor sobre a personalidade de MST.

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14.1.08

Lei do tabaco, o estado da arte [em act.]

French music #sixteen

PJ Harvey - The piano

[Oh God I miss you]

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13.1.08

La jeunesse ignore la mélancolie

Glauco, condutor dos homens da Lícia, filho de Hipóloco, de cenho sombrio, que se expôs à mofa e chacota de sucessivos leitores (ah, o que rio quando me lembro) com a inesquecível repreensão: Heitor, és um homem lindo; mas na guerra deixas muito a desejar, não é mais nem menos que eu, apenas um homem que luta por uma muralha cujo destino é a queda (mas lembra-te que das ruínas de Ílion nasceu Roma). Tu também és linda e hei-de dizer-to muitas vezes. Mesmo que não queiras ouvir - por ser verdade ou possidónio, ou simplesmente exasperante, hei-de olhar-te nos olhos e dizer: és linda.

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Epitáfio para uma dor

Não falamos. Ainda bem. O que dizíamos antes não era para ser ouvido. Agora há tempo para o silêncio e para bocejos indisfarçados.

(Leio O ente querido, enterrar alguém na página de um livro é o destino de coveiros maiores).

Não falamos – enterrados, cada um de nós, na suspeita trágica de que uma palavra, apenas, signifique o fim de tudo.

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12.1.08

Natureza da experimentação

Quis eternizar-lhe os gestos mas faltou-lhe a lava de Pompeia.

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10.1.08

Sem metáforas [da iliteracia funcional]

Escreveu Gógol que a estupidez constitui um encanto especial numa mulher bonita. Num homem, a estupidez é apenas digna de pena. Digo eu.

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Passeio Público

Ontem, 09/01, no Jornal de Notícias

[Sinais de fumo]

Revolta e fogo. Sem fumo, para variar. Agora é de lei. Entramos num café da Baixa, pode ser o Santa Cruz ou o Nicola (os outros eclipsam-se aos poucos), e não descortinamos cigarros acesos, acompanhando as pequenas chávenas de porcelana. E é a mesma coisa por toda cidade, da Universidade ao Tropical na Praça da República, os fumadores e o manto cerúleo de fumo que os segue refugiam-se nas ruas, junto ao umbral das faculdades, restaurantes e cafés, acossados e proscritos. É por isso que se revoltam (em conversas de circunstância, nos blogues ou nas páginas dos jornais). Porque os seus “direitos fundamentais” estão a ser violentamente atacados, esmagados pelo despotismo das “políticas higienistas”, materializadas na muito recente e discutida Lei do Tabaco.

Há qualquer coisa de hiperbólico e hipócrita nas reacções de alguns fumadores à nova lei. Hiperbólico porque, apesar de restritiva, a lei é, ainda assim, lacunar e ambígua, admitindo o consumo de tabaco em determinadas circunstâncias; desse modo, os cafés, bares ou restaurantes podem optar por ter salas onde é permitido fumar. Em Coimbra, é possível comer, dançar e beber um café ou um whisky, enquanto se mandam umas passas no cigarrinho. Para isso, basta visitar um dos estabelecimentos que não se assustaram perante a feroz cavalgada proibicionista: Quinta das Lágrimas, Irish Pub, Xuven, Bossa Nova, Restaurante Viela, Taberna do Parque, Café S. José, Via Lusitânia, Velha Academia, Café Samambaia, Noites Longas, Pharmácia, Moelas, New on the Rocks, Galeria Santa Clara e Aviz, entre outros (encontra-se uma lista actualizada no blogue de Francisco José Viegas, A Origem das Espécies).

A oposição à lei por parte de alguns fumadores assemelha-se ao activismo selectivo e, como este, é hipócrita: os mesmos privilégios e direitos que são agora invocados e defendidos foram olimpicamente ignorados durante anos, quando estavam em causa as liberdades e as prerrogativas dos não fumadores. Coisas simples, como o direito a saborear um robalo assado sem inalar a nicotina e o alcatrão alheios ou a trabalhar num local onde é possível respirar um arzinho, como dizer?, puro.

O Estado não deve coarctar as liberdades dos cidadãos, mesmo aquelas que implicam um certo grau de irresponsabilidade. E fumar é, indubitavelmente, um acto irresponsável: o fumo provoca as funestas caranguejas (cancro) ou o mau hálito, dificulta a respiração e empesta a roupa. É óbvio que, com a nova legislação, ninguém é proibido de fumar. Por isso, os argumentos de que a lei se intromete nas liberdades individuais dos fumadores são primários e imponderados. A lei limita-se a salvaguardar quem nunca soube, pôde ou quis protestar as “liberdades” dos que fumavam onde e quando queriam. Sem pensar nos direitos de todos os outros.

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8.1.08

Argumentos a favor da existência de Deus

1. J.S. Bach
2. As variações de Goldberg
3. Um piano Steinway
4. Glenn Gould

Donc, Dieu existe.

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French music #fifteen

The National - Mistaken for strangers

[You wouldn’t want an angel watching over]

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7.1.08

Continuei a olhar a tarde

Deixei que a escuridão me tomasse o olhar. Esperei que a imagem no espelho recuperasse o tempo próprio dos gestos que eu simulava do outro lado do quarto (coisa mais estranha, um espelho assíncrono, pensei). Todavia, tinha sido engraçado, e até estimulante, verificar como os meus gestos eram lentos (e eu queria que fossem rápidos), tornados ainda mais lentos pelo desfasamento entre o momento em que eram executados e o posterior momento em que, tal como num filme, os via naquele espelho pousado na parede, do outro lado do quarto.

A dada altura, não sei muito bem quando, os meus gestos tornaram-se, de facto, concomitantes (aquém e além do espelho), aprisionados em reflexões fugazes e animadas pelo meu movimento contínuo. Foi nessa altura que peguei no revólver e despachei o assunto. Dei um tiro no meu próprio reflexo, no sítio onde era suposto estar o coração (a sua imagem reflectida, pensei mal, a imagem reflectida de um pullover azul sob o qual deveria estar: pele, costelas, músculos, pulmões e, talvez, um coração, pensei melhor). Os vidros estilhaçados (que agora repousam no caixote do lixo da cozinha) são a prova de uma tentativa de assassinato (e não de suicídio). Tentativa, digo bem: ainda aqui estou, vivo e castigado pelo cinto do meu pai. O espelho era novo, vou ter que pagá-lo com a minha mesada.

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6.1.08

Fantasma para fantasmas


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5.1.08

E no entanto, fantástico

-Róis as unhas?
-Não.
-O Van Nistelrooy.

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4.1.08

Passeio Público

Ontem, 03/01, no Jornal de Notícias

[Anos perdidos]

Acabou. O ano de 2007 é apenas um rumor de águas na consciência de alguns. O restolho da festa, sussurrando ainda o adeus ao passado, espraia-se desordenadamente pelo chão dos salões e pelas ruas adormecidas na solidão. O lixo da celebração. É ele que, primeiro que todos, dá as boas vindas ao ano novo. Todavia, a despedida de 2007 é intrincada e, sobretudo, embaraçosa. O país e Coimbra, em particular, resguardaram-se incompetentemente de ventos favoráveis nos trezentos e sessenta e cindo dias agora findos. O ano transacto não pode ser esquecido. Não foi grande coisa, convenhamos.

Mais uma vez, mais um ano. A divergência em relação à Europa. A falta de competitividade da economia. Os problemas na justiça e na educação. A precariedade no emprego. O desemprego. Sobretudo, o desemprego. O país acha-se nu sem as vitórias de Pirro do futebol (para o ano, na Áustria e na Suiça, há mais). Resta-lhe o orgulho do anfitrião incansável e educado: a cimeira Europa-África, a assinatura do Tratado de Lisboa, a presidência da União Europeia. Uma paisagem histórica interessante mas de parca relevância e vantagem para o dia-a-dia de cada um de nós.

De volta a Coimbra: era aqui que eu queria chegar. Coimbra, a cidade que parece não querer ver-se a viver. Que tem medo de descobrir as suas imperfeições, os seus defeitos. Eu preferiria documentar apenas (e só!) o que de bom aconteceu em Coimbra durante o ano de 2007, mas infelizmente isso não ia chegar para adorno de mais que duas ou três frases. Muito pouco. Assim, resta-me lembrar o descaminho que a cidade vem tomando e que, no ano findo, apenas se acentuou.

A inflexível erosão: o tempo. Este começa a escassear. Quando faltam dois anos – apenas – para as próximas eleições autárquicas, Carlos Encarnação e o actual executivo camarário têm que fazer pela vida. Senão, a vida passa-lhes ao lado. E a cidade com ela. Reclama-se obra sólida, palpável. As remodelações da fachada só em programas de televisão são do agrado das gentes.

Em 2008, talvez as obras do Metro Ligeiro de superfície arranquem resolutamente, com a força de um desígnio preparado para fluir da utopia do papel para as agruras da realidade. Esperemos para ver. Entretanto, a destruição de uma parte substancial do núcleo medieval da Baixa é irreversível. A insegurança nesta mesma zona da cidade vai ser desafiada pela disseminação de câmaras de vídeosegurança. Oportunidade perdida, com certeza. Mais uma experiência de “Big Brother” que não tem a capacidade, por si só, de deter a criminalidade numa área repudiada da cidade, habitada quase em exclusivo por sombras e ratos. Orçamentou-se tristemente a cultura. Esperam-se os milagres do vereador do pelouro, Mário Nunes.

Não se espere a criação de emprego no Concelho ou o decremento do preço da habitação. Ou a escrupulosidade e firmeza das contas camarárias. É pedir demais a um ano só.

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2.1.08

Os livros de 2007

Claro, são aqueles que eu li [ou reli] e que não têm muito a ver com o meu trabalho [isto é, foram lidos sobretudo por prazer]. Levam a pessoalíssima [e discutível] classificação:
* Satisfatório
** Bom
*** Muito Bom
**** Excelente
***** Genial

Adolfo Bioy Casares, Diário da guerra aos porcos ***
Adolfo Bioy Casares, O sonho dos heróis *****
Alexander Pushkin, A dama de espadas **
Albert Camus, L'été ***
António Lobo Antunes, Os cus de Judas ****
António Lobo Antunes, Memória de elefante ****
Arthur Conan Doyle, O cão dos Baskerville **
Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas *****
Aquilino Ribeiro, S. Banaboião *
Brian K. Vaughn, Y, the last man vols.1,2,3,4 ***
Camilo José Cela, Onze contos de futebol *
Daniel Clowes, Ice Haven **
Daniel Clowes, Dan Pussey *
Eduardo Pitta, A cidade proibida ***
Flannery O'Connor, Um bom homem é difícil de encontrar *****
Frank Miller, 300 **
George Orwell, 1984 ****
Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre ciência ****
Henry James, Daisy Miller *
Jaime Rocha, Anotação do mal **
J.G. Ballard, Noites de cocaína ****
João Pereira Coutinho, Avenida Paulista **
John Updike, The women who got away **
Joseph Conrad, A estalagem das duas bruxas **
Louis-Ferdinand Céline, De três em pipa ***
Luigi Pirandello, Um, ninguém e cem mil ****
Luís Quintais, Canto azul ****
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, vol.3 **
Maria Filomena Mónica, Confissões de uma liberal *
Michel Foucault, Vigiar e punir ***
Michel Houellebecq, A possibilidade de uma ilha ***
Miguel Esteves Cardoso, A causa das coisas ****
Miguel Esteves Cardoso, As minhas aventuras na república portuguesa****
Miguel Esteves Cardoso, Explicações de português *****
Miguel Torga. Diário vols. 4,5 ***
Ondjaki, Bom dia camaradas **
Nicolai Gógol, O capote*
Nicolai Gógol, A avenida Névsky**
Norman Mailer, The castle in the forest ***
Philip Roth, O complexo de Portnoy ***
Philip Roth, The dying animal **
Philip Roth, Everyman ***
Paula Tavares, Ritos de passagem ***
Paula Tavares, Manual para amantes desesperados ***
Susan Sontag, In America ***
Thomas Bernhard, O náufrago ****
Truman Capote, Boneca de luxo *
Vasco Pulido Valente, Ir prò maneta ****
W.G. Sebald. Vertigens, impressões **
Woody Allen, Pura anarquia ****

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