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24.11.09

Pandemia da náusea

A verdade é esta: neste querido país é mais perigoso ter «namorado» do que apanhar a gripe A.

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2.11.09

Um novo começo

O Público inicia hoje uma nova etapa da sua história. Entretanto, as velhas encheram os autocarros da manhã e começaram a limpeza das campas, entre áleas recolhidas e velas à espera de luz. Flores, homenagens póstumas. Hão-de recordar os seus defuntos - e eu penso como é difícil trazer de volta o passado e os seus despojos, como a vida é mesmo assim, uma sucessão de mortos que, por alguma razão pouco clara, julgamos ainda vivos.

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29.10.09

Psico-Coaching

«Os livros sobre vampiros», rosnou Dracul, «alimentam-se do logro e da mentira».
«A mentira ainda é preferível ao assassínio.»
«E quem diz que eu sou um assassino?»
«Os livros. Todos eles.»
«Compreende então o que quero dizer? Os livros são mentirosos.»
«Os livros são mentirosos.»
«Foi isso que eu disse.»
«Nesse caso, a própria existência de Dracul pode ser posta em causa.»
«É possível. Nunca reclamei uma existência, uma realidade vivida.»
«Mas não entende o propósito da sua existência? É preciso que Dracul exista, para que o medo possa, também ele, existir.»
«Se querem meter medo às criancinhas usem o Papão. Ou o Homem do Saco.»
«Já ninguém acredita no Homem do Saco.»
«Não gosto de ser vampiro. Não gosto de sangue: a minha bebida preferida é a cerveja. Sagres. Se não houver, ou estiver quente, bebo Super Bock. Mas nunca sangue.»
«Não renegue a sua natureza. Dracul viverá do sangue, e por toda a inconcebível eternidade.»
«Isso não. Para sempre, não.»
«Para sempre, sim. Os livros não o deixam morrer. Os filmes também não.»
«Nos filmes, pelo menos, sou um vampiro bem-parecido. Neste último, não só sou bonito, olhos cor de azulejo, como até me apaixono pela mocinha. Catita.»
«Mariquices. Daqui a uns anos ninguém temerá Dracul.»
«Talvez nessa altura eu possa morrer.»
«Deixe-se disso. Não irá morrer, já disse. Quando a cabal emasculação de Dracul for consumada, a Disney tomará o lugar dos livros.»
Pela primeira vez em muitos séculos, Dracul chorou, gemeu e arrancou os cabelos do peito.
«Ai Deus!, livre-nos e guarde-nos deste espectáculo. Não chore tanto, drama queen. Olhe que vai ser amigo do Mickey. E dos esquilinhos. O futuro é tudo menos uma bela merda.»

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15.10.09

Melancolia de pássaros

O andorinhão, pássaro insectívoro, caçador breve de moscas e melgas (alimento apenas comestível), possui um sistema de orientação evoluído, quase irrepreensível, que lhe permite, por exemplo, contornar borrasqueiros e tempestades. Raramente se apeia do conforto do vento e fá-lo apenas para nidificar (para doar vida) ou para morrer. O andorinhão dorme em voo absoluto. It sleeps in the wings, como dizem os ingleses. Não sei como o faz, ou porque o faz – talvez se sinta mais seguro arredado da terra, das suas misérias e dos seus parasitas.

Foi ontem (não foi) que encontrei um andorinhão (um milhafre pequeno, pensei) na Reserva do Museu Antropológico da Universidade de Coimbra – Secção das Colecções Esqueléticas Identificadas. Esboçava um voo indefeso e tremelicado, destinado ao chão, não sem antes acometer, com alguma violência, os armários que protegem os crânios de homens e mulheres de segunda morte (são 2000? 3000?). Percebi-lhe a aflição do náufrago, do tresmalhado, peguei-lhe com água de matar a sede e outras delicadezas, mas em vão: ele partira já. Julgo que morreu imediatamente, no momento em que tocou o solo, quando vislumbrou a morte reflectida nas vidraças dos armários e percebeu que era da natureza dele viver só a voar. O resto, aquele bater de asas hesitante, foi apenas um derradeiro paroxismo ou, talvez, uma forma de agradecer a quem o criou assim.

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1.10.09

É tudo gente


(Catacombe dei Cappuccini, Palermo)
Eu gosto de cemitérios, esses repositórios de memórias e homenagens póstumas. Ali, é tudo gente morta e, ao contrário de mim, pouco abespinhada com as voltas que o mundo dá. Percorro em angústia os epitáfios. A brevidade. A inevitabilidade. A violência do julgamento: O que é o mundo? O que é? Nada. Na realidade, a vizinhança de um cadáver acelera a floração, as mais encantadoras violetas alimentaram-se da corrupção. A terra dos mortos, a própria morte, é fecunda: exquisitum alimentum est.

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6.11.08

Passeio Público

(Recordação do dia dos mortos)

O dia era de finados, dos fiéis defuntos. A romaria aos cemitérios tinha começado bem cedo, pela manhã. A prática costumada de milhões de católicos: recordar os mortos, adornar a derradeira morada dos que partiram antes de nós. Revivescer a sua memória.

No Alto da Conchada ou no cemitério paroquial do Ameal o ramerrame embelezador é o mesmo, os sentimentos também. A estranheza da morte é igual em todo o lado. Apesar da crise, e do preço dos gladíolos, as áleas recolhidas entre os plátanos encheram-se de cores celebratórias, de homenagens póstumas e saudades desabrochadas em ramos imensos de cravos.

Quando cheguei ao cemitério do Ameal, com a tarde quase cumprida, a colina marmórea aconchegava já o ardor das velas e o cuidado de alguns derradeiros visitantes, afrontados pela comoção nostálgica, suspendia-se no arrasto de flores e na libação a negro das memórias calcadas pelos passos de anos. Reparei que a maior parte das sepulturas se animavam de branco (frio, pétreo e perene), e aquelas velhas grades que antes marcavam o horizonte do cativeiro eterno, e o delimitavam, vão sendo cada vez menos, desaparecendo, ano após ano, em pachorrento denodo.

Pelo que sei, o último pastor da aldeia está vivo e transpira saúde – ainda bem. As grades dos cemitérios – sabiam-no? – protegiam os mortos dos animais de pasto. Como vai ser quando desaparecer o último pastor? Sem a vigília tutelar do pastor perdem-se as ovelhas na infinitude dos caminhos. Perdem-se as grades que nos prendem a algum lado - mesmo que seja o lado de lá.

Vagueei por ali, mais um pouco, ciciando objecções às lonjuras finais da tarde. Procurei uma daquelas grades enferrujadas, preguiçosas, chegadas aos muros depois da jubilação compulsiva: o seu vago azul fazia lembrar a cor de um berço. Diluí a atenção no sentimento melancólico da brevidade da vida. Na realidade, a proximidade de um cadáver acelera a floração, as mais belas violetas alimentaram-se da corrupção. A terra dos mortos, a própria morte, é fecunda: exquisitum alimentum est. Os antigos sabiam o que diziam. O ciclo nunca acaba.

As folhas outonais, semeadas ao acaso, queimavam de vermelho as lajes brancas. Percorri em angústia os epitáfios. A brevidade. A inevitabilidade. A violência do julgamento: O que é o mundo? O que é? Nada.
(Ontem, 05/11, no Jornal de Notícias)

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4.8.08

No arquipélago da morte

(Alexandre Soljenitsyne 1919-2008)

(A foice derrotou-o ontem)

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20.6.08

É de uma pessoa ficar transtornada

Amândio, com um olhar meio tresloucado (por vezes, mas eu não sei se é o caso, a miopia é a culpada), atentou no jogo da bola que se espraiava ao comprido e a preto e branco no ecrã da Telefunken, coçou o abono de família e pensou (sentimentos piedosos e edificantes): Nazis de merda, filhos da mãe! Havia de lhes dar uma grande caganeira, àqueles racistas fdp.
Terminou o jogo. Amândio, mansamente recostado nas flores azuis do sofá, havia partido já para o reverso da vida, para a margem anoitecida - para o outro lado, como costuma dizer a malta que gosta de encontrar o sentido das coisas em chavões com pouco sentido. A culpa foi dos alemães, cuspiam os filhos. Malditos alemães, reflectiu a mulher. Béu, béu, opinou o Piruças.
Posso garantir que a morte do senhor Amândio F. não teve nada a ver com os alemães. A culpa deste trágico decesso foi, e disso não tenho quaisquer dúvidas, dos portugueses – alentejanos e durienses, sobretudo tintos, disse, faceiro, o Dr. Mendes-Dutra do Gabinete Médico-Legal de Tomar e Abrantes.

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5.3.08

Weekly Review #3


[In memoriam: Maria Gabriela Llansol]

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7.3.07

Jean Baudrillard [1929-2007]


[Não há nenhum afrodisíaco como a inocência]

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2.11.06

Eis tudo o que deixaram os punhais

Prefiro quando não há nada para dizer e o que resta é uma tarde de Quinta-Feira, de janelas abertas e luz esmaecida.
Sempre se disse alguma coisa, apesar da ameaça de chuva, disse-se que alguma vez terias que jogar [o novo PES6] perto demais da queda. Claro que não, nada disso. Havia algures um pássaro em voo melancólico. Concordámos, não o negues agora. Ou talvez não, o dia lembrava as algas cinzentas na baixa-mar de B..., talvez nem houvesse pássaros em movimento. Que ideia. Claro que não poderia haver qualquer pássaro de asa em riste, armada na utilidade que lhe é própria, recortado no horizonte. No dia anterior tínhamos feito o teu fato de anjo com as asas de todos os pássaros. Os que não morreram só voavam porque tinham enlouquecido de dor. Que merda mais triste. Cambiemos. Ala para outro tema. Gosto de romãs e tu também.

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8.4.05

É a vida

Um dia tive uma namorada que até dizia umas coisas engraçadas, como daquela vez em que disse, Estas pesetas são euros falsos, ou ainda outra vez em que disse, Spice girls: as raparigas espaciais, e outras coisas assim, com piada, algumas vezes; e azedume depressivo, quase sempre. Um dia esventrei o tempo e esqueci-me do passado, não o chorei embora chorasse nos teus ombros a perda de coisa nenhuma. Era noite, daquelas noites lentas, coalhadas de pirilampos e gritos pouco audíveis, peguei numa espada e amputei-lhe as jugulares. Calou-se, nunca mais disse coisas engraçadas, ou mesmo azedas, só sei que escureceu ainda mais e a seguir não me lembro de mais nada, só de estar aqui contigo a escrever cartas ao menino Jesus.

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