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19.8.08

Levemente irritado


São coisas que me irritam, que me corroem os dias até ao tutano. A hipocrisia, o paternalismo, o pedantismo. É possível que a Antropologia não seja uma área com tantas possibilidades de emprego como a Farmácia, a Medicina, a Economia ou a Engenharia Civil mas pressupõe um caminho de trabalho digno e, para quem se dedica a ela com intensidade, compensador. Eu sei que é difícil acreditar mas a Antropologia oferece (mesmo) momentos de realização maior a quem decide enveredar por trilhos tão esburacados. Por isso, quando falarem comigo, não apelem aos vossos sentimentos mais paternalistas (e involuntariamente pedantes) e abstenham-se de dizer: coitadinho, que estuda antropologia e investiga umas merdas assim muita giras mas que não interessam nada a ninguém... Sou investigador num centro científico de excelência, dou aulas numa instituição universitária pública, escrevo num jornal. Não sou, de todo, um coitadinho. E é só isto.

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23.4.07

Estas palavras são um saco de boxe


Ainda bem que esta porcaria não tem comentários. Apetece-me partir os cornos às palavras, às frases mais compridas e também às mais curtas. Estilhaçar fotografias, crivar de balas qualquer ideia, assunto ou história - inventada ou não. Partir tudo, escavacar cada pedaço de pixel, ou lá o que é. Quem és tu: Teresa, anónimo das 12:49am, Frederico Cotão Basto, Celeste Mais que o Todo, the Sliced Watermelon, puta que pariu? Coitadas das teclas, no fundo no fundo são elas as únicas que sofrem desta brutidade extemporânea. Tec tec tec, se calhar é dorzinha.

Mas o silêncio elimina a pouco e pouco a derradeira missão do ódio.

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12.4.07

O corpo subjugado

Certos dias são demasiado longos, de horas a mais e mais compridas. Certos dias em que te lembras que tens corpo. E é simples a razão porque te lembras dele: ele dói-te, iterando o vómito macerado pelo sustento ázimo. Não é porque o observas num espelho ou na ocasional poça de água. É porque ele te vai doendo e vertendo a soma das partes doridas. Um dia há-de passar, as horas são mais compridas, o tempo cura. Um dia, há-de passar.

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24.1.07

Passé composé


Vamos molhar os pés no mar em dia de inverno? A revelação do palavreado inútil, a folha que denuncia a floresta. A epifania. As citações preferidas. Não existem máquinas do tempo, só existe a possibilidade de viajar no tempo. O imaculado branco tornado ema[s]culado. O passado limita as possibilidades do futuro. The edges of our love are in the stars [my oblivion].


We'll always have.

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12.4.06

História natural do amor

Foi decerto difícil para ele receber, digerir, a notícia. Catarina morrera na cadeira do jardim, nos fins da tarde, enquanto lia a Histoire naturelle de Buffon. Le Comte e as suas excêntricas concepções da natureza do mundo e do homem aniquilaram aquela alma inapelavelmente crente, católica e submissa.

Ele começou a ler a Bíblia [a de Lutero, de 1574, publicada em Frankfurt]. Queria experimentar o que Catarina sentiu antes de partir. Não morreu - o coração, que sobreviveu ao Génesis, aos Salmos, aos Gálatas e ao Evangelho de Marcos, apaziguou-se. As palavras de Buffon, tautológicas, não eram mais que a ruptura moral com algo - julgava agora - intrinsecamente perfeito.

Antes de fecharem, nas suas costas, as portas do mosteiro, julgou ainda ver a tessitura derradeira de uma escada de homens.

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30.6.05

Chamas

A rebeldia sobressaltada dos amantes sucumbe por vezes em ígneos enleios de paixão. Esta incendeia, dizem os mais avisados. Poderia dar-vos uma dúzia de exemplos de amplexos definitivos – bastaria ler alguns jornais de actualidades – em que o juízo do fogo eximiu afeições à eternidade da morte. Reparem que os amantes, por vezes, morrem abraçados, açoitados por ingentes labaredas. A corporalidade do homem e da mulher sobrevive, porventura, em duas linhas circunspectas no diário local que celebram a improbidade da ardida morte e a perpetuidade do amor abraçado.

Jörg Klimdt morreu durante a noite, na cama. Não dormia mas a segadora surpreendeu-o da mesma forma. O fogo prostrou o quarto exíguo em poucos minutos, de acordo com o chefe dos bombeiros, o calor ou o fumo – ou ambos – quebraram a parca resistência de Jörg, que enfim afrontou o barqueiro, cingido a um livro desfeito. Alguns jornais transcreveram uma única frase resgatada do fragmentário volume: “A minha amada chega no ar dos pinhais”. Aida Klimdt, esposa do defunto, enviara-lhe o livro – de um poeta português, Ruy Belo – alguns dias antes da tragédia. Amavam a poesia, as palavras intraduzíveis do amor, proferiu chorosa.

Ainda agora penso que aquele livro de Ruy Belo levava consigo Aida, o amor chegado a Jörg no ar dos pinhais. E a morte colheu-os abraçados, como não poderia deixar de ser.

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29.5.05

Finitude

Quando olho para mim não me percebo. As olheiras afundadas na magreza ossuosa da face, as rugas balbuciantes na testa cada vez mais espaçosa, as incertezas maiores do olhar cansado delatam a irrupção compulsiva do Outono na minha vida. Os trapos moços com que me cubro, os cremes com que desbarato o precário estipêndio mensal, as horas alongadas na penumbra mesmerizam a rasura do tempo, por breves momentos, sabendo a peleja perdida de antemão mas confiando na sanha guerreira do corte pós-moderno, do retinol A e de um provérbio que de noite torna todos os gatos pardos. Olho-me e não me percebo. O Outono chegou, é já uma certeza firmada no meu corpo, mais tarde ou mais cedo começará a chover.

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17.5.05

8:45 am, Coimbra B

Quis dar-lhe um último beijo antes de saltar para o comboio que, ainda não o sabia, os afastaria para sempre. Ela pegou-lhe suavemente na mão e apagou-lhe o sorriso enquanto confidenciava: Ainda bem que vais para tão longe. Já não te amo. Vai ser melhor assim. Acabarás por esquecer-me.

Se ela não tivesse mentido, ainda não sei se por piedade ou por um assomo de crueldade própria dos abandonados, ele teria saltado para o comboio e não para a frente do comboio. Mesmo afogueado de longe, os rostos distantes contemplando-se mutuamente em fotografias amarelecidas, o amor poderia não morrer. Mas assim, subitamente perecido, desse amor restaram somente pedaços espalhados por vários metros e uma culpa perene por expiar.

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4.5.05

Define “Homem”. Define “Melhor amigo”.

Ao folhear o dicionário cortejo displicentemente a palavra “misantropo”, reveladora vocabular dos fiapos da minha vida. Odiei tanto os homens que pedi um cão ao meu pai. Aquiesceu. Gosta de mim, assenti. Nessa mesma noite conheci o Noki, um globo de pelo e baba, excrescendo duas orelhas e quatro patas. Crescemos juntos, crescemos bastante, apesar das nossas raças bastardas. O meu corpo glabro, o corpo felpudo do Noki, consciências biunívocas, amálgama de amor inter-específico. Um dia fui embora para estudar noutra cidade. Voltei, cinco dias depois, num domingo de beatífica sobriedade. Noki pressentiu a minha chegada, acercou-se da varanda. Sei que, desde que me recordo, vivo num intenso 5.º andar, inesperadamente rodeado de jardins [e por muita gente de bem, como costuma dizer o meu pai]. O cão não esperou que eu subisse e rompeu dos firmamentos para os meus braços. À nossa volta sussurraram as árvores, Porque ninguém nos ama assim?

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6.1.05

Horrível verdade

Acordo cingida pela morte. Procuro o brilho das paredes brancas mas sou interpelada pela contemplação embaraçada de um par de olhos que já não vêem. O paradoxo, a função delida pela despedida da vida. As minhas mãos emulam o coração, tremendo sincopadamente, experimentando a secura insuportável daqueles corpos dispostos em simetria na babel da morgue. Tenho três anos e conheço muito mais que tu, que porventura lês estas linhas. Vejo a morte a meu lado, pressurosa, diligenciando uma arbitrária safra de inocentes.

Disseram-me morta mas pela porta entreaberta reconheço um elefante de pano nas mãos da credulidade. Choro, o meu avô também do outro lado do espelho.

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12.1.04

Artrose ou a dor do tempo

A virtude de um tempo sempre chuvoso, a imposição de um dever inaudito. Ficou em casa durante todo o fim-de-semana, custodiado pelos dois gatos que um dia impediu de serem afogados pela avó [telefonaste-me três vezes: qual é a melhor maneira de matar um gato?], era isso ou ir ao shopping, e ele optou pelo desconsolo de 48 horas afogado no arrumo dos quartos e do escritório. Quando ela foi embora e lhe deixou os gatos [é-se sempre responsável por quem se salva da morte] e a responsabilidade de limpar o apartamento que fora, que continua a ser, dos dois, as articulações das mãos doíam-lhe sempre que se lembrava dela. No início essa dor não passava de um palimpsesto cujas iluminuras mostravam a irreversibilidade do fim de uma relação descomedidamente linear: namoro-casamento-divórcio. Com o transcorrer dos dias as dores vinham sempre em dias frios, chuvosos e cinzentos, o de hoje um exemplo. Enquanto esticava o fio do aspirador ele apercebeu-se que as dores nos dedos finos de ambas as mãos não tinham nada a ver com a perda de uma mulher. Eram somente a fronte visível da sua obsolescência germinal. Só e sem crédito para voltar atrás.

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