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24.11.09

O livro



(When on board HMS ‘Beagle’ as naturalist, I was much struck with certain facts in the distribution of the organic beings inhabiting South America, and in the geological relations of the present to the past inhabitants of that continent. These facts, (…) seemed to throw some light on the origin of the species – that mystery of mysteries.)

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15.8.09

Passeio Público

(O animal sem qualidades)
Já o disse uma vez, neste mesmo espaço e nestes termos: não gosto de ratos. Não conheço ninguém que lhes devote sincera afeição (mas há malucos para tudo), que adormeça enquanto lhes dedica carícias e meiguices, que gaste metade do ordenado numa espécie de Pedigree Pal para roedores, ou que os passeie no parque pela trela.

Os livros de história (e a sabedoria do povo) garantem que são os ratos que, perante a ameaça de naufrágio, tomam a dianteira da fuga. São vermes imundos e emporcalhados, dos maiores portadores de microorganismos patogénicos que sulcam o reino animal (não transmitem a gripe A, que se saiba, o que só abona a seu favor). E mais: eles comem tudo; o lixo, os cereais, e até as orelhas dos prisioneiros em celas escuras (existe uma vasta bibliografia sobre o assunto).

A verdade é esta para a maioria das pessoas, liberta de hipocrisias ecológicas: o único rato bom é o rato morto. Por causa dele (e da Yersinia, e das pulgas, e de muita agnosia) morreram milhões de pessoas durante a Idade Média. Não ladra, nem afasta os ladrões das nossas casas. É um animal sem qualidades reconhecidas.

Mas, se calhar, talvez, possivelmente: sempre é belo um rato em Coimbra. Junto à Estação Nova, em dois prédios abandonados, os murídeos orelhudos prosperam. Homenageando Charles Darwin, e as efemérides associadas ao naturalista inglês que se celebram este ano, os ratos que se passeiam na Rua Fernão de Magalhães mostram ao ingénuo passante como se afigura na natureza a “sobrevivência dos mais fortes”.

Coimbra irá apostar em força no turismo cultural – é uma boa estratégia para a cidade. Contudo, eu proponho algo ainda mais radical: a organização de safaris na Rua Fernão de Magalhães, com jipes e guia indígena. As nédias criaturas são já o alvo declarado das objectivas dos turistas, porque não rentabilizar as graças do mundo animal? Permitir que a praga subsista é uma outra forma de afirmar o amor que se sente pela cidade.
(Ontem, 14/08, no Jornal de Notícias)

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12.2.09

Carlitos Darwin: o darwinista relutante #4

Charles Darwin nasceu a 12 de Fevereiro de 1809 em Shrewsbury, Shropshire, Inglaterra. Darwin é, para além de Albert Einstein, o cientista mais reconhecido pelo público interessado, mas não especializado, nos meandros da ciência. Ilustrado numa nota de £10, Darwin é convocado de forma banal à intimidade dos Britânicos. No âmago rural dos Estados Unidos da América – no famigerado Bible Belt – reservam-lhe, não poucas vezes, o estatuto de apóstata e herege, de “capelão do demónio”, como o próprio referiu uma vez de forma trocista. Em Portugal, ou é ignorado ou é considerado de forma fragmentária, parcial e preconceituosa. Não obstante, a vida e o trabalho de Charles Darwin, quando são conhecidos, são usualmente limitados ao seu opus magnum, a Origem das Espécies.

A verdade é que existe um Darwin para além da Origem: no início um menino rico, esbanjador. Às vezes cientista. Uma odisseia fulcral e transformadora no pequeno Beagle. Uma carreira científica ímpar e subversiva como geólogo, primeiro, e como biólogo, depois. Uma família amada em crescendo geométrico (a invectivar o inspirador Malthus?). Amizades sinceras, outras nem tanto. Doenças, muitas doenças, e amargura.

Quem foi então este Charles Darwin, desconhecido? Acomodo, naturalmente, os seus feitos científicos no contexto da Inglaterra do período vitoriano: em plena revolução industrial, dickensiana. Se é verdade que o estatuto social e económico da família Darwin permitiu que o jovem Charles tivesse uma educação privilegiada (Universidade de Edinburgo, Universidade de Cambridge), com dedicação total aos estudos e todas as benesses inerentes a uma situação económica desafogada, tal não supõe de forma directa que num único homem, apenas, se combinaram todos os factores necessários para desenvolver a ideia de evolução. Como afirmam os autores, em Darwin sucedeu uma combinação de experiência a bordo Beagle, imaginação, liberdade para trabalhar e, talvez o mais importante, a influência de uma forte tradição familiar de interesse e capacidade científicas. Diga-se, no entanto, que um Alfred Russel Wallace sem educação formal e provindo de um estrato socioeconómico carenciado, amarrou ideias a partir dos seus próprios dados e forjou uma teoria similar à de Charles Darwin. Por outro lado, John MacGillivray, o ébrio e dotado naturalista do HMS Rattlesnake, com um background social e percurso científico semelhantes aos de Darwin, não destinou quaisquer implicações evolutivas aos dados que foi recolhendo nas suas viagens. Portanto, o social não influencia definitivamente e em exclusivo a produção científica de excepção. Penetrando em terrenos movediços, arrisco falar em criatividade singular, em uma centelha de genialidade de Darwin.

Na relação com a família, com o pai e com o seu irmão e depois com a esposa e os filhos, a preocupação maior de Charles parece ter sido a de assegurar a estabilidade – emocional mas também financeira – aos seus e a si mesmo. Estabilidade e segurança perdidas em momentos como a morte da sua mãe ou da sua filha Annie. O amor que devotou a Emma Wedgwood, a cristianíssima esposa, terá mesmo influenciado de forma decisiva o protelamento da divulgação das suas ideias evolucionistas. Darwin foi resguardando as suas concepções heterodoxas, pelo menos 20 anos se passaram entre as primeiras letras demoníacas e a carta de Alfred Russel Wallace, que acelerou a célebre conferência da Geological Society em que os dois cientistas, em jargão críptico, disseram que não havia mão de Deus sobre as criaturas, que era tudo obra do acaso, do tempo e da selecção natural. Esmagado pelo seu trabalho herético, Charles demorou a confiar as suas ideias a outros colegas. Escolheu Charles Lyell que, para enorme tristeza de Darwin, nunca aceitou completamente a teoria da evolução. No entanto, as suas relações com John Hooker e T.H. Huxley, por exemplo, valeram-lhe, não só duas amizades perenes, como o solícito auxílio de dois convictos sequazes, no dealbar das perenes lutas entre criacionistas e evolucionistas.

Evoco a imortal jornada de Charles Darwin a bordo do Beagle. O próprio Darwin reconheceu o carácter revolucionário e transformador que a viagem operou no seu pensamento acerca da natureza e origem das espécies:

When on board HMS ‘Beagle’ as naturalist, I was much struck with certain facts in the distribution of the organic beings inhabiting South America, and in the geological relations of the present to the past inhabitants of that continent. These facts, (…) seemed to throw some light on the origin of the species – that mystery of mysteries.

Para além da colecta de dados essenciais à formulação de uma teoria válida da evolução, a viagem do Beagle ajudou Darwin a cimentar uma reputação científica junto da intelligentsia inglesa. Dos milhares de páginas de apontamentos e da colecção sistemática de especímenes geológicos, botânicos e animais resultou um trabalho de consolidação académica – em áreas científicas “ortodoxas” – que seria fundamental para a construção da imagem de Darwin enquanto sábio e, portanto, para a legitimação das suas ideias revolucionárias. Isso mesmo, revolucionárias – e das “melhores”.

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21.1.09

Carlitos Darwin: o darwinista relutante #2


Como nos tornámos humanos?
Ciclo de Conferências DARWIN: No Caminho da Evolução
21/01/2009, 18h00, Auditório 2
Eugénia Cunha - Universidade de Coimbra

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13.1.09

Carlitos Darwin: o darwinista relutante #1


2009. 200 anos depois, 12 de Fevereiro. 150 anos depois, 24 de Novembro. Charles Darwin. Menino rico, esbanjador. Às vezes cientista. Isto foi o início. Depois veio a viagem, o terramoto e as Galápagos; dois livros fulcrais e nenhum deles era a Bíblia. Uma família em crescendo geométrico (a invectivar Malthus?). As doenças, o estatuto como geólogo. Depois como biólogo, graças às insignificantes cracas. Sabiam que o seu livro mais lido, isto é, enquanto ainda vivia, foi Earthworms e não a Origem? Que lhe morreu a filha mais querida? Que ele via na própria pele - nas suas próprias alergias e dores de estômago - e na dos filhos a acção da selecção natural? Teve amigos, bons amigos. Que concordaram com ele, que eram mais darwinistas que Darwin. Excepto o velho Lyell. Esse morreu e foi para o céu. Um dia recebeu uma carta de Wallace, o outro, que ninguém ou quase ninguém conhece, mas que, vindo de baixo (não era rico nem esbanjador: a mostrar que não é o social que influencia definitivamente a produção científica), concatenou ideias e chegou ao mesmo resultado que o Carlitos. Só que este tinha receio, mais por Emma que por si, e foi resguardando as palavras heréticas, pelo menos 20 anos se passaram entre essas primeiras letras demoníacas e a carta de Alfred Russel Wallace, que espoletou a célebre conferência da Geological Society. Em que os dois, em jargão críptico, disseram que não, que não havia mão de Deus sobre as criaturas, que era tudo obra do acaso e do tempo. Wallace afastou-se, tornou-se místico. Darwin continuou, sempre.

Humanos?
Qual a diferença,
a ínfima dobra,
que faz a diferença?
(Luís Quintais, Mais espesso que a água, pág. 101)

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