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4.4.10

Infinita benignidade

Talvez não - a tarde sofreu com as deserções. Um sumo-sacerdote, um sumo de laranja, uma revista de gajas nuas. Um filme de cães, pudera!, acabaram-se as mordomias da religião. Um resto de alecrim, um beijo mutilado (1 bj), uma casca de camarão. A senhora dos caracóis. O armário escancarado. A lição da professora histérica, e um pouco puta (a bem dizer). O Gavião na massa dos óculos, o Chiado escalavrado, a virtude das chagas de um cínico. Fora isso, tudo bem.

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22.9.07

Pragmatismo

-E queres largar à toa por essas serranias fora?
-Sim, padre, armada apenas do sinal da cruz.
-Grande arma é essa, não haja dúvida. Há, porém, ocasiões em que uma boa clavina não é para rejeitar.
[Aquilino Ribeiro, Andam faunos pelos bosques, pág. 79 ]

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20.9.07

Lidos

Jardim das Tormentas [1913]
Filhas de Babilónia [1920]
Estrada de Santiago, onde se inclui o Malhadinhas [1922]
Andam Faunos pelos Bosques [1926]
A Batalha sem Fim [1932]
As Três Mulheres de Sansão [1932]
Quando ao Gavião Cai a Pena [1935]
Os Avós dos Nossos Avós [1942]
Volfrâmio [1943]
Lápides Partidas [1945]
Caminhos Errados [1947]
Cinco Réis de Gente [1948]
A Casa Grande de Romarigães [1957]
Quando os Lobos Uivam [1958]
Dom Frei Bertolameu. As três desgraças teologais [1959]
O Romance da Raposa [1959]

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5.2.07

Assim de repente

Aquiles e Aquilino. O calcanhar de aquiles do primeiro era o calcanhar, do segundo uma outra língua portuguesa.

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Relambório

Por nada, diga-se. É uma palavra maior, de acento no o. Só por isso e por nada mais. Minto. Porque sou eu e porque me faz lembrar os gatos do Aquilino.

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31.5.04

Efeméride em detença



No dia 27 de Maio de 1963 morria um dos mais fecundos cultores da língua portuguesa, Aquilino Ribeiro. Dele disse, um dia, Oliveira Salazar: "Comece o seu inquérito pelo Aquilino. É um inimigo do regime. Dir-lhe-á mal de mim mas não importa: é um grande escritor." Quem lê o Daedalus percebe que a minha escrita muito deve ao romancista do picaresco e do regional.

A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir?! Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem sabe?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim? Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol (... )? Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser

A Casa Grande de Romarigães (excerto)


p.s. Este tributo é devedor ao Luís Rainha, do BdE.

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23.5.04

Talvez camiliano

Aquilino Ribeiro disse uma vez que todo o leitor modelo português era do lado do Eça ou do lado do Camilo. Embora leitor, e até português, estou longe de ser modelo, presumindo, no entanto, caber justa e aconchegadamente na banda camiliana. Entre a enumeração pródiga e científica de uma sala de fumo depois do jantar e um beijo que pode trazer o infortúnio aos dois amantes, prefiro a verbosidade da descrença nos amores que acabam bem.

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3.11.03

Conto primeiro

Por vezes gostaria de voltar aos tempos pré-Casapianos em que, ingénua e piamente, acreditava que todos os portugueses eram, no fundo, boas pessoas. Hoje apelo a Aquilino Ribeiro, que, nos idos de 13 do século passado, registava no seu seminal livro de contos Jardim das Tormentas esta fuga possível a uma realidade incontornável: O Demónio põe às vezes à virtude a máscara do pecado.

Aquilino Ribeiro. Jardim das Tormentas (A Catedral de Córdoba). Bertrand

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13.8.03

Alguma definição de Malhadinhas

“Danado aquele Malhadinhas de Barrelas […], reles de figura, voz tão untuosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por um nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão.”
Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (in Estrada de Santiago)

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Ronaldo (o Cristiano), Corto e António Malhadinhas

Conheço homens iguais. Talvez estes três nomes reflictam não mais que isso, homens iguais. Pelo menos em alguma coisa hão-de ser iguais. Eu acho que a sua similitude advém do facto de incorporarem em si um sonho, sonhos.

Lia hoje numa das nossas folhas de couve diárias, daquelas que transmitem notícias desportivas (leia-se notícias de futebol), que o "talentoso prodígio" (meu Deus, que hipérbole) ex-Sporting, Cristiano Ronaldo, vive um sonho real, um momento mágico em que, para além das emoções desportivas propriamente ditas, sobressaem os milhões de euros que vai auferir no colossal Manchester United. Sinceramente, acho que Ronaldo tem futuro como desportista, mas, tornando-se o sonho realidade numa fase tão precoce da sua caminhada futebolística, cogito se esse mesmo sonho não será mais um a engrossar as taxas de mortalidade infantil dos espaços oníricos.

Corto Maltese sonhava a liberdade e o amor, transportando um fado que o afastou, se não da liberdade, da liberdade de esquecer o amor. Até ao fim da sua vida (se é que Corto morreu, Pratt nunca o "matou") o marinheiro sonhou sempre e o seu sonho não se tornou nunca realidade. Talvez daí a sua longevidade enquanto anti-herói. E o Malhadinhas da velha Barrelas? Bem, esse sonhou com a sua própria vida, nos seus últimos estertores, quando quase perdida. Sonhou com o amor, com a riqueza, com a romaria e a feira, com o trabalho. Tudo teve, tudo perdeu, tudo teve.

São iguais os três, mas dois destes homens só vivem no mundo da ficção. Talvez por isso o sonho de Ronaldo seja o único palpável e não etéreo. Talvez por isso não seja o sonho com que eu sonho.

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