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6.9.07

Passeio público

Das convulsões da modernidade assoma um mundo dicotómico, sustentado, por um lado, num ininterrupto estado de turbilhão e devir, e, por outro, firmemente radicado na materialidade da “tradição”. Afinal, o que é a “tradição”? Talvez seja uma concepção do passado (os seus costumes e crenças) em que este se descobre encerrado numa espécie de casulo ou de estase, comparável ao paradigma da imagem da eternidade. Imutável, cristalizado, perpétuo. Ou será, porventura, uma reverberação – um reflexo – do mesmo passado, mas estimulado pela passagem do tempo e pelas transformações e rasuras que lhe são próprias?

Confesso que me agrada mais esta derradeira ideia do que é a “tradição”, despreocupada com a “autenticidade” dos hábitos, convicções ou ritos. Quando a inquietação com a autenticidade é levada ao paroxismo, a vida submerge num manto atávico e estático.

Demoremos um pouco o nosso olhar no fado/canção de Coimbra. José Afonso, Hilário, Carlos Paredes, António Menano ou Adriano Correia de Oliveira são alguns dos nomes canónicos desta paisagem musical e estética. Não sem alguma perplexidade, noto a ausência pungente de antropónimos femininos. O fado de Coimbra celebra as mulheres mas não tolera que elas o cantem. Não há Amálias, Marizas ou Severas em Coimbra. Existe antes uma autenticidade artificialmente construída: os estereótipos e preconceitos masculinos são reificados e as mulheres, se quiserem, ouvem e aplaudem.

Contrariando este encerramento “evolutivo” do fado de Coimbra, Cristina Cruz lançou, no início do ano, um disco (“Coimbra menina do meu olhar”) em que é a voz de uma mulher que interpreta a canção coimbrã. Um verdadeiro atentado à tradição e ao costume, para os mais conservadores e puristas: portas fechadas, sempre fechadas, mais fortes que uma parede de pedra. Prefiro pensar neste disco como uma recriação no feminino da canção de Coimbra, respeitando o passado sem a ele se submeter.

Confesso que ainda não ouvi a voz de Cristina Cruz. Não sei se, musicalmente, o seu disco é valoroso. Sei que há muitos que não gostam mas, se pensarmos bem, é sempre assim: uns gostam, outros não gostam e o mundo lá continua, à roda do sol, completamente indiferente a estas minúcias da vida. É como uma toalha no meio da tempestade, podia gritar – se pudesse – que ninguém a ia ouvir. Assim, o que importa é a calhoada no charco. O espoletar da reflexão.

O fado de Coimbra não morreu só porque agora uma mulher o canta. Ou melhor, talvez tenha acabado um pouco, para depois renascer. E depois da morte, sabemo-lo bem, o luto é tradição costumada. O que é certo é que a existência, bem ou mal, sempre avança e encontra novos rumos. Como gostava de dizer Salústio, quando não tinha mais nada para dizer: Faber est suae quisque fortunae. Qualquer homem é o artífice da sua própria sorte. Neste caso, uma mulher procurou a fortuna em jurisdição masculina. E nós só podemos ficar satisfeitos com isso.

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