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4.9.03

Ainda Lévi-Strauss

Prometendo voltar à questão do relativismo cultural e multiculturalismo de forma mais aprofundada (agora com a adição do dossier "excisão ritual do clitóris", tema escavado por Bruno e Francisco José Viegas), transcrevo agora uma entrevista do nonagenário antropólogo Claude Lévi-Strauss, no Estado de S.Paulo, nos idos de 97 do século passado. As palavras de Lévi-Strauss assumem, quanto a mim, uma importância desmedida neste pequeno debate iniciado em Avatares de um Desejo pois mostram um etnólogo desiludido que assume inconscientemente uma faceta saudosista que poderá explicar a sua luta permanente contra a destruição da fácies cultural indígena.

"PARIS - Ocorpo, debilitado e franzino, e as mãos, trêmulas, traem a chegada aos 90 anos, que ele completará em novembro do ano que vem, mas o etnólogo Claude Lévi-Strauss não interrompe o ritual sagrado de, toda sexta-feira, ir trabalhar em sua sala do College de France, no Quartier Latin de Paris. Na estante, livros em português sobre os índios cadivéus. "Leio português perfeitamente, mas só falo o caipira que aprendi nas minhas viagens pelo interior", explica.

Ao lado de um mapa do Brasil, pendurado na parede, encimado por alguns artefatos indígenas, o antropólogo fala em saudades do País e lamenta: "Estou velho demais e sei que nunca mais voltarei." Sua última visita ao Brasil foi em 1985 e dela o intelectual não guarda boas lembranças. "Passei pouco tempo em São Paulo e não reconheci o Brasil que amei no passado", diz com tristeza.

Essa fúria destrutiva urbana, aliás, é uma das características dos países jovens que ele mesmo observou em Tristes Trópicos (1955), livro em que contou sua experiência brasileira nos anos de 1935 e 1938, quando, acompanhando a Missão Francesa, lecionou na recém-nascida Universidade de São Paulo, ao lado de Braudel e George Dumas, e fez expedições para conhecer os índios cadivéus, bororos e nhambiquaras. A aventura mudou a vida do jovem de 27 anos, professor de filosofia num liceu do interior da França que, pouco tempo depois, galvanizava a antropologia com livros como As Estruturas Elementares do Parentesco, Raça e História e O Pensamento Selvagem. Após anos estudando os mitos, ele próprio acabou por converter-se num.


Estado - Jovens incendiaram um índio em Brasília. Os trópicos agora estão terríveis?

Claude Levi-Strauss - Li sobre isso no Le Monde. É uma coisa horrível, mas não se pode dizer que é algo específico do Brasil ou dos trópicos, pois acontece também aqui, na Europa Ocidental. Bárbaros ameaçam, surram e matam mendigos e árabes na França, num jogo de ódio e selvageria. São coisas abomináveis, mas não são um "privilégio" do seu País.


Estado - Mas refletem, em parte, a situação de abandono dos índios brasileiros. O que se poderia fazer?

Lévi-Strauss - Antes de tudo, fazer justiça ao povo índio, que teve sua terra espoliada. É claro que não proponho que se lhes devolva todo o continente, porém é preciso dar-lhes terra suficiente e boa, não a destruída pelos garimpeiros. Isso para continuarem a viver, a subsistir e terem condições de fazer a escolha entre manter suas tradições ou fundir-se totalmente à identidade nacional. Sei que muitos não admitem que eles tenham privilégios. Tentar que entendam isso é o que os antropólogos vêm procurando fazer nos últimos cem anos, mas há os conflitos de terra e os índios estão no fogo cruzado desses interesses contraditórios.


Estado - Essa boa-fé na aceitação dos brancos é histórica. Por quê?

Lévi-Strauss - Isso é fruto de uma idéia fundamental, compartilhada pelos ameríndios do norte e do sul do globo. É o jogo do bipartismo: para eles, a idéia da gênese, do bom funcionamento do mundo repousa num equilíbrio sempre instável, um contrapeso de duas partes desiguais e nunca balanceadas. Para os ameríndios, no momento em que o demiurgo os criou, gerou também o "não-índio". Assim, o invasor já existia para eles, inscrito nesse sistema. Por isso, a chegada de Cortez e Pizarro não os surpreendeu, antes era algo esperado, porque o mito já lhes explicava que viria gente de longe. O que teria acontecido se os brancos, ao invés de os massacrar, os tivessem respeitado? Fiz-me essa pergunta várias vezes, em especial após visitar um museu, em Viena, que exibia restos da arte ameríndia, enviada por Cortez, e Dürer, o pintor, tanto admirou. Os invasores preferiram a destruição da cultura que encontraram.


Estado - Os índios assimilaram a cultura dos conquistadores. Houve um sentido inverso de influência?

Lévi-Strauss - Não, foi uma penetração de sentido único, só os índios foram afetados profundamente pelo pensamento europeu. Não podia ser diferente: era o pensamento do invasor. Mas a constatação da existência dos índios mudou algo na Europa, que descobriu não ser o único representante da humanidade e havia um novo mundo, levantando todo tipo de reflexão. Porém, se, hoje, ainda estamos longe de entender o pensamento ameríndio, o que dizer no século 16?


Estado - O que restará para a antropologia, quando esses povos forem assimilados pela tendência atual a uma "monocultura"?

Lévi-Strauss - Grécia e Roma desapareceram há mil anos e sempre somos surpreendidos por novas descobertas feitas sobre essas civilizações. No caso dos ameríndios, quando desaparecerem - não fisicamente, mas sua cultura for assimilada -, será possível continuar a trabalhar sobre suas tradições e mitos. A antropologia será transformada em filologia, em história das idéias, pois há muitos tesouros inexplorados que exigirão anos de estudo. Mesmo essa tendência a um modelo monocultural não é eterna. Ele deve cindir-se em algum momento, romper-se internamente e disso surgirão novas diversidades, sobre as quais não temos idéia nenhuma. A antropologia continuará a estudar as diversidades que se manifestarem entre os povos. Além disso, representantes letrados dos ameríndios estão tomando suas civilizações como objeto de estudo. Isso é ótimo e muito positivo.


Estado - Quais são suas lembranças do Brasil?

Lévi-Strauss - Há uma plêiade de memórias, mas as coloco em dois níveis fundamentais. O primeiro foi o contato com a juventude brasileira, animada por um enorme desejo de saber o que se passava pelo mundo, em compreender as últimas reflexões sociólogicas. Um ardor que nunca mais reencontrei em toda a minha carreira como professor em meu país. Além disso, havia a natureza. Pela primeira e única vez em minha existência tomei contato com tal exuberância, uma natureza diferente da que conhecia e estava intacta, intocada pela ação dizimadora do homem.


Estado - O que o sr. esperava encontrar nos trópicos?

Lévi-Strauss - Não sabia o que esperar. Haviam dito para mim coisas totalmente contraditórias. Meu mestre na Sorbonne, quando lhe falei do meu desencanto com a filosofia e o desejo de novas experiências me disse que, se quisesse fazer etnologia, deveria ir ao Brasil, a São Paulo, onde, contou-me, as periferias estavam cheias de índios. Certamente, para ele, Brasil, Bolívia e Peru eram a mesma coisa. Já o embaixador do Brasil na França, Sousa Dantas, me avisou que todos os índios do País haviam sido dizimados e eu não encontraria nada lá. Entre dois fogos, decidi ir assim mesmo. Foi um choque. Sem falar que a ida ao Brasil também significou para mim e meus colegas uma mudança brusca de condições materiais. Éramos professores de liceus de província e, de repente, havíamos virado professores de universidade, com direito a tratamento de primeira. Havia também a liberdade física, típica dos países tropicais. Não tínhamos mais de usar todas aquelas roupas que nos escravizavam no clima europeu. Sentíamo-nos mais livres.


Estado - Sua chegada a São Paulo coincidiu com o carnaval. Como foi?

Lévi-Strauss - Estávamos na periferia da cidade, mas São Paulo não tinha grandes manifestações carnavalescas. Eram mais grupos pequenos que dançavam pelas ruas e nas casas, de onde saía muita música. Lembro que nos aproximamos de uma delas e eles nos convidaram a entrar, com uma condição: não era para ficar olhando, mas para dançar também. Não digo que dancei, pois passei mais tempo pisando nos pés da minha parceira (risos). Recordo-me de muitas daquelas músicas. Aliás, achei muito do Brasil nas marchinhas de carnaval.


Estado - E as comidas?

Lévi-Strauss - Foi um encantamento. Todas aquelas frutas tropicais desconhecidas e aquela variedade de sabores deliciosos: creme de abacate, leitão com farofa (risos).


Estado - Como foi o trabalho na USP?

Lévi-Strauss - Foi uma chance de tomar contato com os jovens brasileiros, os quais ensinava em francês. Era fascinante estar numa cidade que se transformava a cada dia, uma sensação de estar participando de uma experiência sociólogica única. A ponto de introduzir meus alunos à sociologia e à etnologia a partir do contexto de sua cidade, fazendo com que se interessassem pelo que se passava em São Paulo. Cheguei a pedir como trabalho final uma monografia sobre a rua onde moravam. Os resultados foram os mais interessantes. Foi maravilhoso estudar algo em mutação constante, coisas que mudavam de um ano para outro. Era a sociologia viva.


Estado - Embora criada pela elite paulistana, os alunos da USP vinham de classes sociais menos privilegiadas. Não houve problemas com os professores?

Lévi-Strauss - Sim, os estudantes sentiam-se divididos em face da classe dirigente e da instituição, mas entendiam que precisavam do diploma universitário. Aos poucos, com o contato pessoal diário que tivemos fomos chegando até eles. Afinal, estávamos na mesma faixa etária dos estudantes e isso nos levou a contatos extra-universitários. Nós, professores, tínhamos uma imensa curiosidade sobre o País e nos lançamos num sem-número de pequenas aventuras com eles, que tampouco tinham uma boa idéia do que era o Brasil. Juntos, aventuramo-nos a descobri-lo. Fomos até o Paraná, a fronteira do Paraguai e muitos alunos nos acompanharam, numa relação de igualdade. Logo viramos amigos.


Estado - Houve pressão das elites sobre o que se podia ou não ensinar?

Lévi-Strauss - De forma alguma. Sim, havia grande simpatia por um certo tipo de ensino baseado na tradição de Comte e Durkheim, mais bem vistos do que as novidades anglo-saxônicas. Porém, o rompimento com essa tradição não foi bem um choque. Talvez, mais um sentido de desafio que, na época, eu não percebi e de que só tomei consciência bem mais tarde.


Estado - Vocês chegaram ao Brasil no ápice do nacionalismo. Não sentiram nenhuma forma de xenofobia?

Lévi-Strauss - Não, apenas um certo desconforto por parte dos velhos professores brasileiros que se sentiram ameaçados com a nossa presença. A sociedade, ao menos a que conheci, recebeu-nos muito bem, em especial, o pessoal do Departamento de Cultura, Paulo Duarte, Mário de Andrade. Com esse último fui muito à periferia da cidade para assistir a festas folclóricas e fazer pesquisas. Ele nos iniciou nas tradições populares e indígenas e, juntos, viajamos até Mogi das Cruzes.


Estado - Como era o ambiente cultural de São Paulo?

Lévi-Strauss - Podia ser definido como de uma grande curiosidade, um pouco desordenada, dirigida para todos os sentidos. Um desejo imenso de ser vanguarda, estar nela e não perder nada do que acontecia pelo mundo de novo, de interessante. Havia também Oswald de Andrade, que conheci menos que Mário, pois não tinha a argumentação sociólogica e etnológica desse último. Sua antropofagia não nos surpreendeu, porque na Europa tínhamos o surrealismo e não era de admirar vê-lo em sua versão brasileira.


Estado - Em `Tristes Trópicos' o sr. descreveu a Baía da Guanabara como uma `boca banguela', o que provocou polêmica e até está na letra de uma música de Caetano Veloso.

Lévi-Strauss - Naquele livro decidira descrever, com liberdade, tudo o que me vinha à cabeça diante do que via, minhas impressões imediatas, sem nenhuma auto-censura. Quando vi a Baía da Guanabara, fui invadido por uma sensação de decepção em face do que imaginara. Era uma coisa tão grande, os lugares importantes ficavam tão distantes uns dos outros que, na hora, me veio a imagem de uma boca sem dentes. Não vi porque esconder essa sensação".

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