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9.10.08

Passeio Público

(Coração de pedra)

Ainda guardo as moradas; posso procurar as vozes desaparecidas.
Ossip Mandelstam

O vazio não devasta as cidades sem passado. Coimbra, no entanto, revela-se antiga na pátina dos anos e, sem que se pressintam os clamores doridos das pedras, despovoa-se, desarruma-se na escuridão vazia do olvido. Aquela enorme faixa entre o rio e a Universidade, sobretudo, adormece lentamente na sombra do abandono.

É triste. É doloroso, excruciante. As cidades não são apenas uma armação inerte - pedras, tijolos e betão. O seu coração é outro. A sua alma é feita de risos hílares e discussões estéreis, pálpebras sonolentas e passos irrequietos, corpos entrançados e pregões nebulosos. Em cada pessoa, uma cidade. Em cada gesto, uma memória.

As pedras persistem e raramente mudam de lugar. Os seus braços amarram-se profundamente na terra. As pessoas não. São volúveis e desentendem-se facilmente com o desconforto. Reprimem os sentimentos mais atávicos de ligação a uma cidade, a um bairro, a uma rua e, porque o dinheiro não chega para tudo, reposicionam a sua vida nos subúrbios, chegam-se a Condeixa, à Lousã e a Pereira; afastam-se da sombra tutelar da “Cabra”, da firmeza obsidiante de Santa Cruz, ou mesmo da caução tranquila dos Hospitais.

Coimbra deverá aprender a despertar novamente. A sua promessa actual é enganadora. Os preços da habitação são incomportáveis para a maioria dos jovens que pretendem iniciar uma vida longe dos cuidados fieis da parentela. Na Baixa e na Alta, são muitos os prédios que ressentem a gravidade dos anos, a atracção da ruína e o desmazelo dos proprietários.

A situação não é animadora. O que fazer, então? (É absolutamente necessário fazer alguma coisa.) As respostas são muitas - mas poucas as adequadas. Quase me sinto tentado a invocar o infame exemplo de Lisboa. Talvez a Câmara Municipal pudesse requalificar os desvalidos prédios da Baixa para depois os entregar, a preços de saldo, aos jovens (desde que fossem primos do irmão do amigo da professora de um motorista dos transportes urbanos).

Descontado o exagero, é verdade que os incentivos à habitação jovem poderiam conformar-se à norma numa cidade envelhecida (se deduzirmos aos habitantes efectivos todos os estudantes que não são naturais de Coimbra) e, em algumas áreas históricas, despojada dos gestos que denunciam a vida.

Essas zonas, principalmente o Centro Histórico, paralisam na penumbra que se distende sobre o casario acabrunhado e cediço, vazio de gente e dos vestígios que caracterizam uma existência vivida. É absolutamente necessário fazer alguma coisa (repito), não uma versão requentada da megalomania de Nero, do Barão Haussmann ou de Robert Moses, mas algo que sustente as ambições de pessoas reais. De pessoas que querem voltar à sua cidade.
(Ontem, 08/10, no Jornal de Notícias)

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