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29.8.07

Não há nada melhor

Ao prazer está sempre ligada a superação de obstáculos.
[Nikolai Gógol, Avenida Névski, pág. 65]

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26.8.07

Manhãs de mar

Recordo as tranças do teu olhar e um beijo solto numa manhã de praia. O vento regrando a pele salgada, alguma areia metida nos calções. Sobretudo a areia imersa nos calções e um gesto de desespero para que te afastasses dela. Não quero mais saber, nem ver, nem cheirar, nem sentir. Quero morrer nos teus cinco sentidos, nos teus olhos que amo e desejo.

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24.8.07

A palavra não é criadora de um mundo*

Ninguém fica imune à imaginação. Sobretudo quando o que se imagina assenta com firmeza na realidade.
["Obnubilar" é uma forma patética e desdenhosa de dizer "obscurecer" ou "turvar". Como é que três vocábulos radicalmente dissemelhantes convocam, em princípio, o mesmo sentido? O significado, esfiapado numa panóplia de sinónimos, desmorona irremediavelmente num vácuo de sentido. Uma palavra, um conceito. Um conceito, uma palavra. A dor da exactidão.]
*Michel Houllebecq, A possibilidade de uma ilha, pág. 15

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23.8.07

11.25€

[...] aquilo de que não se pode falar, guarda-se em silêncio.
[Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico, pág.27]

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22.8.07

Passeio público

Hoje, no Jornal de Notícias

[Miguel Torga]

Não hei-de esquecer nunca o fugaz encontro – quase mitológico –, que mantive com Miguel Torga, passam agora, se não me engano muito, dezasseis ou dezassete anos. Apesar de tudo, agora nem sequer consigo evocar todas as circunstâncias e minudências da história mas apenas partes dela, fragmentadas e pouco vívidas. Tremia, isso é certo. O meu ânimo, excitado mas temeroso. O meu professor de Português do 8.º ano, cujo nome infelizmente já não recordo, precavera-me para uma entrevista com um grande escritor e cidadão mas de têmpera arisca e fleumática. Em suma, eu não devia esperar grandes simpatias e mesuras. Mais valia que fosse logo prevenido.

A tarde capitulava atrás da Couraça quando entrei naquele consultório adornado de madeiras antigas, discretos biombos e uma janela fronteira aprisionando a última luz do dia. O Mondego, claro, vigiava mansamente do outro lado da estrada. Um homem alto, idoso, pétrea (granítica, melhor dizendo) figura de bata branca, olhou de soslaio o meu receio perante a sua própria grandeza (literária, humana). O que é que eu estava ali a fazer, perguntou, mal disfarçando a rispidez. Mostrei-lhe o livro, branco com título carmesim, se ainda me lembro. O sorriso de Torga abriu-se, o seu olhar apaziguado em fulgores lentos de satisfação. O mito fez-se homem por 30 minutos.

Tanta coisa para dizer isto: tive a sorte de entrançar a minha existência, mesmo que por breves instantes, na vivência de Miguel Torga. Parece pouco (com certeza que é) mas, nesta altura em que se comemora o centenário do nascimento do escritor, este insignificante episódio desperta em mim um sentimento de orgulho nostálgico. De certa forma, recordo-o aqui como forma de tributo póstumo a Miguel Torga.

No dia em que, em Coimbra, se inauguraram monumentos e se afinaram discursos laudatórios, se encenaram peças de teatro e se repetiram óperas apologéticas (a ópera “Bichus”, com texto de Jorge Vaz Nande e encenação de Hélder Wasterlain, numa produção da associação Arte à Parte), passei uma boa parte da tarde a reler os “Diários” de Torga. A maior homenagem que se lhe pode fazer é – e há-de ser sempre – porfiar em ler o que escreveu.

O escritor marginal, insubmisso (realcem-se, por exemplo, as palavras do próprio Torga em “Orfeu Rebelde”: Porque não sei mentir, / Não vos engano: / Nasci subversivo), profundamente hostil ao regime salazarista, avesso às modas e aos “grupos” literários, não teria ficado, por certo, desagradado e magoado com a conspícua ausência de elementos do governo na “sua” homenagem em Coimbra. Miguel Torga possuía um carácter demasiado soberano e independente para se deixar aniquilar por afrontas de personagens de visão exígua e pose afectada.

Miguel Torga não é Berardo. Não vale pelo que tem mas pelo que deu. Foi um homem de enorme cidadania e, hoje, assenta merecida e confortavelmente no cânone literário português. Já o disse: sinto que Torga não ia ficar aborrecido com a desconsideração de Isabel Pires de Lima. Fiquei eu.

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21.8.07

Santo António de Coimbra

De manhã fui à cidade e vi coisas muito lindas. Dependurado num poste, em frente à repartição das finanças, Joel Raimundo, o artista de variedades mais conhecido de Lausana, acenava às meninas que passavam. Moinando naquela viela escura, mesmo ao lado do BCP, os drogaditos do costume. Um advogado conhecido, daqueles que aparece regularmente na SIC, subia e descia a rua principal, olhos no chão e cabeça no ar. Uma miudita loira, muito pequena, comia carapaus fritos, inteiros, e ínfimas sardinhas, das quais só deixava a cabeça. Um pedinte, sem braços, estendia a mão ao passante remediado. E artistas de rua, ah, os artistas de rua, que cospem fogo e sabem que a América é que tem "a culpa disto tudo", não sei muito bem do quê e se isso é bom ou é mau ["ter culpa disto tudo"]. De manhã fui à cidade e vi coisas muito lindas. Lembrei-me de ti e de como ficavas bem na catedral do Campo Pequeno. Ou quase isso.

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20.8.07

This little angel

Nowadays a ‘rational explanation’ is required before belief is possible.
[Edith Nesbit. Tales of terror. pág. 17]

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As cidades do porvir #seguinte

Quem foi, na certeza do corpo? Um labirinto. A escada decimal. Um dedo na ilusão. Recordo as defesas da costa e o murmúrio indolente das águas. Os teus deuses culpados ou a revelação de uma morte sempre pressentida.
Ainda há um espaço em branco nos teus braços, preenchido por silhuetas vãs, amanhecidas no sol de cada dia.

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19.8.07

As cidades do porvir


Trespassado o desencontro, asseguro a respiração próxima dos teus lábios.

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16.8.07

Passeio público

Ontem, no Jornal de Notícias

[O "caso" de Coimbra]

George Orwell, quando escreveu sobre a sua experiência como voluntário na Guerra Civil Espanhola*, achava-se persuadido que a História se apresenta, não poucas vezes, manchada de incorrecções e parcialidade. O que incomodava mais o escritor era, porém, a renúncia da noção de que a História poderia ser fixada com justeza e verdade.

Há pouco mais de dois anos (Março de 2005), a antropóloga Eugénia Cunha, professora catedrática do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, obteve as autorizações da Diocese de Coimbra e da direcção-regional do IPPAR que viabilizavam a realização do projecto científico que ambicionava reconstituir o perfil biológico do Rei fundador da nacionalidade portuguesa, sepultado na Igreja de Santa Cruz em Coimbra. Esse mesmo, D. Afonso Henriques. Cuidou também de angariar o indispensável financiamento para a execução da investigação. Os mecenas que se propunham auxiliar financeiramente este projecto eram privados, não estando, de modo algum, ligados ao Estado.

Eugénia Cunha tornou-se, então, a mentora e guia de um projecto plurinacional onde pontificavam, entre outros, o historiador José Mattoso ou o antropólogo forense Miguel Botella. Este renomado investigador espanhol é o responsável científico, por exemplo, pelo estudo do que se presume serem os restos ósseos do navegador Cristóvão Colombo, sepultado em Sevilha. Nesta inquirição científica seria dado enfoque especial à reconstituição morfológica do primeiro rei de Portugal, assim como à estimativa da sua idade à morte, ao seu perfil genético ou às doenças que o apoquentavam.

A valia científica do projecto era (e é), a todos os níveis, incomensurável. No estudo da História a partir de restos esqueléticos humanos a utopia é admissível: visibilizar o passado, resgatando as memórias fixadas nos ossos que possuem uma relação objectiva, de contiguidade, com a realidade que foi – neles se conserva um vestigium vitae, um resquício de vida.

Não obstante, no próprio dia em que estava prevista a abertura do túmulo (06-07-2006) o Ministério da Cultura e a ministra da tutela, Isabel Pires de Lima, indeferiram o intento da equipa liderada por Eugénia Cunha. Os elementos que constituem a Comissão Científica de aconselhamento da Ministra da Cultura decidiram, em voz única, que os riscos de abrir o túmulo ultrapassam os benefícios que daí decorreriam. Entretanto, a abertura do túmulo de D. Afonso Henriques foi negada mais uma vez, depois da reitoria da Universidade de Coimbra ter enviado à ministra da Cultura uma contra-argumentação ao relatório da Comissão Científica do IGESPAR (organismo que integra os extintos IPPAR e Instituto Português de Arqueologia) com argumentos de natureza técnica, científica e arqueológica que, no juízo da antropóloga, legitimam o projecto.

Sabemos o que sucede quando os argumentos de ordem esotérica, religiosa ou política se interpõem no decurso normal da ciência. Quase sempre há uma rasura consciente do passado. Através dos estudos como o que se propunha fazer Eugénia Cunha há um ciclo que se reitera: os vivos pisam as lousas tumulares e, como escreveu Torga, ligam-se organicamente aos seus mortos. Referenciam-se. Reconhecem-se nos espelhos de pedra que cobrem os antepassados.

* George Orwell. 1997. Recordando a guerra espanhola. Antígona: Lisboa

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13.8.07

Quatro anos, quatro textos

Ficou célebre a elocução de Marx segundo a qual a História, se se repete duas vezes, a primeira é como tragédia e a segunda como comédia. Começou assim, isto do Daedalus. Com a presunção toda: atente-se na "elocução" e no "Marx". O primeiro post deu o mote, o blogue ia ser cabotino e presunçoso. Foi-o muitas vezes. Mesmo muito "à mete nojo". À medida que os meses se sucediam outros azimutes foram tomados: escrita intimista, umbiguista, incompreensível para os demais. Quase sempre fermentada em irrealidades [com i] do que me rodeia. Basciamente escrevi sobre o que me apetecia, o que, por si só, é uma coisa simpática para os meus nervos. Quando escrevemos afugentamos os demónios e os anjos. Ficamos absolutamente sós, reduzidos a ossos brancos e facilmente legíveis. Foram quatro anos. Espero continuar. Dos quatro anos escolhi estes quatro textos como amostra impossível do que escrevi. Dois deles fazem parte de uma etiqueta que muito me apraz: as estéticas da morte [só se pode escrever sobre o amor e a morte, não se esqueçam]. Outro é um pequeno post sobre a merda. E o último é o post mais politicamente incorrecto que alguma vez escrevi. Perdoem o palavreado acrimonioso e preconceituoso. Nada disto é real.
Estéticas da morte #dezoito
Este homem [digamos, para efeitos práticos, que se chamava Jaime Miguel Barreiros Silvério de Alencar] gostava de sentir a arma nas mãos. Todos os dias, durante 30 anos. Passava as horas em observação pasmada e diletante, porém atenta. O peso equilibrado. As minudências barrocas da coronha. As estrias do cano curto ainda por fumegar. A frialdade do metal. A placidez tonitruante do cromado, sobretudo, provocava-lhe um frémito nos sentidos que, imaginava, ia mais além, muito mais além, que a experiência sexual. Um dia - uma noite, se quisermos ser mais exactos - decidiu ir um pouco mais longe: queria sentir a bala na têmpora direita. A arma perfeita encravou. A bala ficou pela penumbra, nunca deu sombra. Jaime Miguel Barreiros Silvério de Alencar podia agora morrer de desgosto.

O corpo arremessado
Dizer merda e fazer merda não é a mesma coisa. Parece-me mais poético o acto produtivo.

Estéticas da morte #doze
Porque o caminho era escuro havia cuidado. Um dia vieram os da EDP: fizeram buracos onde espetaram postes, assentaram candeeiros onde cravaram lâmpadas [Osram Vialox 150Watt], disseram fiat lux e assim se fez, fez-se luz. No caminho, de muita luz durante as manhãs e primícias das tardes, houve então dia durante toda a noite. E porque o caminho agora era claro não havia tanto, não havia nenhum cuidado. Foi lá, num desses dias nocturnos, que fui assaltado e morto com uma ponta-e-mola daquelas de brincar [pensava eu, antes de vomitar o sangue e abraçar a terra pela penúltima vez].

O salhão

A gaja queria mesmo casar. De véu, grinalda e hímen intacto. E o pai, bêbedo e tudo, a levá-la ao altar. Só faltava um homem que lhe pegasse. Mas pegar aquela dorna – que na balança da estação levava o ponteiro ao encarnado – era empreitada que nenhum Hércules patego considerava e muito menos desejava. E se algum cogitasse a coisa era ouvir-lhe o riso empolado, acometendo as lonjuras. De modo que a tipa deu em prometer mundos [e fundos, mas poucos] ao orago da paróquia, sem que isso lhe trouxesse benefício algum. Alguma compassiva Verónica lá lhe demonstrou, por A mais B, que o melhor era ela deixar as macacadas com o santo e virar-se para as dietas e o exercício. Nobre ideia, pensou o obstinado salhão, faço o exercício [a dieta fica para outra vez], sim senhora, mas metido numa promessa ao santinho. Todos os dias hei-de dar cem voltas ao cruzeiro da igreja com uma cruz de madeira às costas, até que o santo me arranje um homem, continuou. E assim fez, que aquilo não era mulher de arquitectar promessas vãs.

O compassado andar da gorda delineava momentos álacres na vivência da igreja. Os miúdos embargavam a catequese nas tardes de sábado para verem aquele mastodonte honrar a costumada via-sacra: a cruz enorme, de pinho velho, enfunada ao alto pela gordura informe dos braços, conduzindo o solene trote da promessa, o amplo vestido de cetim florido ajoujado ao corpo montanhoso, as hossanas embargadas pela voz ondulante, a terra em volta do cruzeiro batida por passos obstinados. Nem a geada relampejando nos campos lhe detinha o fervor. Aos sábados, já disse, os garotos da catequese formavam filas atrás dela e cantavam, Ó santo, lindo como o sol, arranja gajo que coma este rissol. E compareceram homens e mulheres, e rapazes e raparigas, de todas as condições, formando com aquela alma inusitada procissão. Até o padre e o sacristão apareciam, pela nonagésima volta, arrastando o Pater Noster pelo adro da igreja. Um dia, alguém se lembrou de pespegar o santo no andor e juntá-lo ao cortejo. Fez-se. Lá ia ele, no meio da turba, carregado por dois rapazes e duas raparigas, normalmente dois parezinhos que dali corriam para a invisível treva.

O salho é que não arranjava homem. E um dia que não apareceu na igreja aquela malta não gostou da renúncia. Alguém disse que a tipa ficara na cama, a chorar e a bramir heresias, O santo isto, o santo aquilo, puta que pariu, cona da avó. Um fulano foi buscar gasolina e com ela untaram a cruz de madeira e a casa da gaja. Pegaram fogo à casa [com a bácora lá dentro]. Ardeu bem, a gorda. O corpo estava tão calcinado, tão leve, que foi carregado para o cemitério por dois miúdos que cantavam, Ó santo, lindo como o sol, deixaste esturricar mais um rissol.

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100 anos de Miguel Torga

A minha homenagem a Torga foi passar uma boa parte da tarde de ontem a ler-lhe os Diários. Acho bem que se façam teatros, óperas [desculpa Ricardo...], que se inaugurem estátuas e se bote faladura laudatória sobre o homem. Mas a maior homenagem é - e há-de ser sempre - continuar a ler o que Torga escreveu.

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12.8.07

French music #two

Radiohead - Creep
[You're just like an angel]

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100 anos de paixão: só eu sei porque não fico em casa #48


[Quem foi que se deitou sem lavar a dentuça?]

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9.8.07

French music #one

Skip James - Devil Got My Woman
[Oh, nothing but the devil, change my baby's mind.]

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8.8.07

Passeio público

Um leve torpor conquista a cidade. As ruas renunciam à solidão povoada de que nos fala Albert Camus. São artérias extenuadas, esvaziadas de gente e dos ruídos que lhe são próprios. Os cafés - quando não encerram para férias - acolhem raros, estranhos passantes e pouco mais que isso. A Universidade respira apenas nas pedras de séculos, subjugada pelas câmaras fotográficas dos turistas, temporariamente combalida pela deserção estival de alunos e professores. É difícil encontrar um jornal. Até as igrejas parecem mais vazias que habitualmente. Santa Cruz da melancolia: lá fora, naquele sucedâneo de adro antigo, um mendigo recebe de esmola os derradeiros calores do sol, anuncia-se o fim da tarde.
Em Coimbra, Agosto é o mês das ausências. Falo das pessoas, obviamente. Sente-se a falta delas, dos seus hábitos ruidosos e dos seus passos apressados, afadigando o solo. O abandono começa um pouco antes, em finais de Julho. Afinal, é nessa altura que findam os exames e que o apelo da fuga se torna premente para os estudantes. Os que não são de Coimbra retornam ao chão natal, à parentela e aos usos antigos. Leva-os o vento. Os de Coimbra, almas cingidas de terra, percorrem o caminho até ao mar ou, compelidos pela indolência de Agosto, escapam-se para qualquer lado, desde que seja longe ou diferente.
Pouco a pouco os estudantes são seguidos por quem pode pagar (ou tem crédito para isso) umas férias afastadas dos limites que circunscrevem a cidade. Quase sempre se nota nestes proscritos voluntários a vaga, mas infalível, ânsia de mar. De preferência, o desejo materializa-se nas cálidas águas do sul ou em longitudes estrangeiras. Antigamente o mar estava mais perto Coimbra mudava-se, em peso, para a Figueira da Foz.
No Verão, especialmente em Agosto, Coimbra B tinha pouco a ver com comboios. Coimbra B era a Figueira. A mesma cidade com uma outra dentro de si. Ainda será, mas menos. As paisagens eleitas agora são outras. Eu lembro-me como era. Agora não deve ser muito diferente. Ajeitava-se a casa de férias, arrendavam-se apartamentos à quinzena, armava-se a tenda no parque de campismo ou ia-se em jornada diária, logo de manhã de comboio, de automóvel, de motorizada, até de bicicleta. Havia um comboio de hora a hora, mais ou menos, daqueles que param reverencialmente em todos os apeadeiros. Uma maçada que valia a pena. A maior parte das vezes, olhares conhecidos cruzavam-se ainda o comboio não iniciara a marcha.
No areal ou na calçada defronte do casino divide-se o tempo e a conversa com parceiros de ocasião, desconhecidos de sempre na outra Coimbra, a sem mar. Pressente-se nos diálogos contingentes essa espécie de solidariedade orgânica, própria dos exilados, em que deixa de existir a ideia de partida, de desterro em terra estranha. Naquele lugar, tirando o oceano, tudo é igual ao que pensam ter deixado para trás.

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4.8.07

Passeio público

Quarta-feira, no Jornal de Notícias

[A perdição das chamas]

Há muitos anos que não tínhamos um Estio tão hesitante, indeciso. E por isso, quase de esquecimento. Os dias de Junho (e muitos de Julho) assemelhavam-se mais a uma espécie de invernia agonizante e moribunda, mas ainda com alguns laivos de autoridade (isto é, frio e chuva). A estes últimos dias caniculares, de calor atroz, arriscamos categorizá-los já como dias de Verão. Parece que agora é que é. Eu ainda não estou convencido. Vou deixar que passem mais uns dias. Se o Inferno continuar a insistir em elevar-se até nós, não terei alternativa e serei o primeiro a dar as boas-vindas à estação soalheira, de praias, repouso, cervejas e tremoços.

A verdade é que não sabemos muito bem com o que contar. Calor no Inverno, chuva no Verão, Primavera de folhas caídas e Outono a espreitar andorinhas. Meteorologia trocada, confundida; clima impostor e com ares de pantomineiro. Como diz a minha avó, com a sapiência que os anos lhe conferem: “aquilo lá em cima está muito remexido”. As palavras serão menos eloquentes que as de Al Gore, e menos científicas, mas incidentalmente condensam e sintetizam o argumento do ex-candidato a presidente dos EUA: o clima está a metamorfosear-se, as transformações climáticas são tudo menos boas e a responsabilidade é dos humanos e da sobre-exploração dos recursos naturais. Uma das possíveis sequelas das alterações climáticas consiste no aumento das temperaturas médias.

Há algo de perverso e paradoxal na mansidão cálida do Verão. A canícula é auspiciosa quando desejamos a praia, a piscina ou a esplanada bem bebida. O problema é o resto e o sobejo não é despiciendo: os incêndios, justamente ditos “de Verão”. O distrito de Coimbra é, ano após ano, uma das cintas geográficas mais flageladas pela perdição das chamas.

Se por um lado atrai a muitos considerar levianamente que a culpa dos incêndios é sempre e apenas do Governo (rosa ou laranja, alternadamente), outros defendem a culpa de um punhado de tolos socialmente desestruturados, das empresas madeireiras e mesmo dos bombeiros.

Contudo, o questionamento cardinal deverá incidir sobre os erros estruturais cumulados desde há muitos anos e que não se esgotam na falta de meios de combate a fogos, no mau ordenamento do território florestado ou na quase inexistência de guardas florestais. Jorge Paiva, biólogo e professor na Universidade de Coimbra, refere a existência de notícias de incêndios florestais desde o século XII. As chamas não eram tão vorazes porque a floresta era, nessa altura, dominada por “folhosas”. Agora, basta seguir as estradas municipais para nos apercebermos do monolitismo da floresta no distrito de Coimbra: eucalipto, eucalipto e ainda mais um eucalipto.

As memórias dos enganos em matéria florestal estão vivas em muitos centros de investigação universitários; a Universidade de Coimbra, sobretudo, vem-se destacando no esquadrinhamento das causas dos incêndios. As medidas coercivas sobre eventuais pirómanos, o aumento do número de bombeiros e de carros de combate a incêndios, não servirão de nada se este jardim debruado de mar se transfigurar num deserto de pedregulhos e eucaliptos clonados.

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1.8.07

Back to the cave

Amanhã parto. Durante três semanas o blogue será actualizado a partir de Les Pradelles, França. Como tudo indica que os Neandertais eram info-excluídos, parece-me que os textos não vão ser muito regulares. Por isso, desejo desde já umas boas férias ao improvável leitor!

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