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31.7.07

Das pombas

Parecias ter qualquer coisa a mais. Nunca pensei que fossem os lábios.

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30.7.07

A iluminação gratuita da alma

Infelizmente já esqueci a parte fulcral da história: outras linhas se cruzaram, entretanto, e a ira do passado dispersou-se como a chuva nos telhados de zinco das casas. Permanece um olhar entaipado, a solidão que excita o reflexo dos olhos semi-adormecidos.

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"Pronto a morrer"

Então, Alex Herzevitch,
A rua é escura? Deixa lá
Alex Coraçãovitch -
Pra quê tudo? Tanto faz!

[Ossip Mandelstam, Guarda minha fala para sempre, pág. 173]

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27.7.07

A escada decimal

Falta de fair-play, diz, possivelmente, o Jorge Jesus. Ele sabe do que fala, raramente se engana, sobretudo quando se mantém calado, de boca fechada, absorto nos seus próprios quês e porquês.

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26.7.07

Porta de vidro e termostato analógico

Nós dois somos demasiados para que reste enfim o silêncio.
[Alexander Klöest, O deus que era ateu, pág. 72]

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Passeio Público

O Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses (AFMP) não é leitura benquista para acrescentar algum deleite aos alongados, cálidos dias de Julho. Não para mim, diga-se. Contudo, e apesar de não esperar dele grande entretenimento, li com ponderação e reparo o AFMP referente a 2005. Se tomarmos como certa - e eu tomo, malgré tout - a responsabilidade dos órgãos executivos municipais de bem gerir os dinheiros públicos e, subsequentemente, em prestar contas a quem de direito, com os eleitores na vanguarda da linha de fiscalização, então a leitura deste Anuário torna-se um imperativo moral de qualquer cidadão.
O meu julgamento sobre este AFMP foi selectivo. Obviamente, demorei a leitura sobre as contas referentes ao município de Coimbra. Os dados que refiro são simples e não sujeitos a qualquer tipo de parcialidade hermenêutica e interpretativa. São, indubitavelmente, sombrios e inquietantes e mostram que a situação financeira global da Câmara de Coimbra se distende sobre um chão de debilidade e fragilidade.
Coimbra apresenta uma relação francamente negativa entre as despesas comprometidas e as receitas liquidadas. É um saldo corrente negativo superior a 26 milhões de euros, que assenta confortavelmente o município no panteão dos maiores dissipadores. A este pendor desregrado acrescente-se a incapacidade de suportar o pagamento das dívidas correntias. De facto, a liquidez é inferior a zero (-17.567.656,00 euros), o que se traduz na incapacidade do executivo em liquidar as dívidas a terceiros no curto prazo (as chamadas "despesas correntes").
Declinando o olhar sobre a condição económica a médio e longo prazo da autarquia conimbricense discerne-se apenas um véu pardacento do porvir o endividamento bancário ascende a pouco menos de 40 milhões de euros (38.586.942,00 euros), o que inviabiliza, ou pelo menos limita seriamente, a concretização efectiva de quaisquer desígnios ou projectos de futuro que afectem uma elevada dotação orçamental. Finalmente, o passivo integral da municipalidade sobreleva os 75 milhões de euros.
O horizonte económico desta Câmara enleia-se nas sombras da desorientação e incerteza. Nesta conjuntura, o Conservatório de Música, o Centro de Convenções ou a Casa da Escrita, promessas do actual executivo camarário, definham ainda enquanto esboços, colapsam como protótipos de papel. Os números são inquietantes e desafiadores. Percebe-se a inquietação, mas onde está o desafio? O repto passa pela consolidação financeira racionalização dos custos, gestão eficaz de pessoal, captação de investimentos, aposta sustentada na cultura e em turismo de qualidade. Ao executivo camarário resta, portanto, recorrer à ascese - às práticas caracterizadas pela austeridade - e a algum domínio persuasivo que porventura tenham sobre o tecido empresarial.
Quanto a nós, resta-nos evocar estes dados, lendo-os. Rememorá-los e difundi-los, resgatá-los do olvido. Na realidade, não é invulgar que as verdades claras e inequívocas acabem por ser esquecidas.

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25.7.07

100 anos de paixão: só eu sei porque não fico em casa #47

Lamento

Tenho a mão injusta. Mas ela apenas segue o coração, o juíz da sentença inconsciente.

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Somar à hipocrisia

Cuidado com o mal secreto das palavras. Um dia será teu inimigo quem é por ti agora [ou já foi].

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24.7.07

Agricultura [biológica]

Praticada por jovens agricultores que não distinguem uma enxada de um sacho [aquela é maior, este é mais pequeno e perfeito para assassínios rurais]. Fruta mirrada e bichada que custa os olhos da cara. Alface com sabor a terra e a dejectos de jovens agricultores.

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23.7.07

A massagista tailandesa

As mãos. São instantes que se cravam na pele, que a atravessam, que morrem no osso. Que nos desfiguram para a eternidade. O toque das mãos.

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Greek music #sixty three

Black Rebel Motorcycle Club-Weapon Of Choice
[It’s to hard too stand aside It’s enough to stop your heart]

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22.7.07

Da melancolia

Os caminhos para a tristeza são multívios, eu sei-o e não há que negá-lo. A palavra de longa sombra fere quase sempre, mas também a imagem. Talvez a incerteza - ou a certeza - do descaminho.

Os caminhos para o Senhor são poucos e difíceis mas os que têm o seu cabo na tristeza são infinitos e rectilíneos.

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21.7.07

100 anos de paixão: só eu sei porque não fico em casa #46


Série grandes capitães
[João Moutinho]

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20.7.07

Racismos, paternalismos e outros ismos [como por exemplo a "tirania do politicamente correcto"]


Após protesto da Comissão Inglesa pela Igualdade Racial, o albúm Tintim no Congo foi cinicamente transferido das prateleiras juvenis para a secção de adultos, em uma ou duas [ou mais, não sei bem] livrarias britânicas. Como não tenho opinião formada sobre o assunto e, mesmo que a tivesse, era com certeza pior que a destes dois ilustres blógueres, remeto-vos para a sua exegese:
Comboio Azul, do Jorge Ricardo Pinto [1,2]
Pastoral Portuguesa, do Rogério Casanova [1,2]

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19.7.07

Podia ter sido dito ®

Pelo Paulo Portas [e já agora pelo Marques Mendes]:
Il n'y a plus de déserts. Il n'y a plus d'îles. Le besoin pourtant s'en fait sentir. Pour comprendre le monde, il faut parfois se détourner; pour mieux servir les hommes, les tenir un moment à distance.
Só que foi escrito por Albert Camus em L'été [pág. 13].

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Passeio Público

Ontem, no Jornal de Notícias

[O resgate do feminino]

No decorrer da Guerra de Tróia, Aquiles foi recompensado com Briseida, de "lindo rosto", por Agamémnon, comandante dos Aqueus. Mais tarde, Briseida foi tomada de volta por Agamémnon, evento que despertou a ira de Aquiles ainda na fase crepuscular da Ilíada de Homero. Um vaso grego mostra Agamémnon a prender Briseida pelo pulso, perpetuando um gesto conotado simbolicamente com a dominação masculina sobre a mulher. A história de Briseida será hoje apenas um eco esquecido do passado? Infelizmente não.
Sendo um primata inovador, o Homo sapiens engendrou uma pletora de maneiras de fiscalizar e policiar as mulheres, que incluem, entre outras, o enclausuramento, a doutrinação, a vigilância, o boato, as regras que regulam as heranças e o controlo dos recursos por famílias patrilineares. Os modos seculares de opressão do feminino medram em diversas regiões do mundo. Em Portugal, embora a igualdade de género se plasme na lei, algumas práticas discriminatórias vão resistindo, sustentadas de forma coriácea por quem mais aproveita com a manutenção do status quo: os homens.
Em 2006, a Associação de Apoio à Vítima assinalou um total de 22 casos de homicídio ou tentativa de homicídio contra mulheres. Os casos de violência contra as mulheres são inumeráveis e muitos são simplesmente grotescos e inenarráveis. Os dados do Eurostat de Abril de 2007 reafirmam a constância da maior taxa de desemprego das mulheres relativamente aos homens. Em casa são elas, ainda, as solitárias gatas-borralheiras: dedicam três vezes mais tempo às tarefas domésticas que os homens. A balança da igualdade dos géneros não está, em definitivo, equilibrada.
Louva-se a abertura em Coimbra, precisamente no Ano Europeu da Igualdade para Todos, do mestrado em Estudos Feministas, dirigido por Maria Irene Ramalho e Adriana Bebiano, professoras na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) e investigadoras no Centro de Estudos Sociais. Precisamente 51 anos depois de Maria Helena da Rocha Pereira, também na FLUC, se tornar na primeira mulher doutorada numa universidade portuguesa, este é o primeiro mestrado em Portugal que, inflectindo uma omissão tradicional sobre contribuição cultural e política das mulheres, adopta a designação de Estudos Feministas.
Este mestrado parece-me, antes de tudo, um símbolo e uma promessa de transformação política e social. O seu propósito é claro: estabelecer definitivamente um compromisso académico com a luta pela plena cidadania das mulheres. Eis, portanto, uma forma capaz de pensar e desconstruir a marginalização histórica do universo feminino, de tornar perceptível uma invisibilidade forçada de séculos.
Maria Filomena Mónica escreveu um dia que as mulheres portuguesas são parvas. Permitam-me discordar os homens, aqueles que se confortaram e confortam num regime de opressão silenciosa do feminino, não só são os verdadeiros parvos da história, como não sabem o que perdem. Porque não valorizam as mulheres, porque não sabem dar o colo aos filhos, porque não gostam de limpar o pó, porque não trocam receitas. Nós, homens, somos mesmo parvos.

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18.7.07

Under the iron bridge

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Il caimano


O retrato de uma certa Italietta, a de Berlusconi, não me seduziu por aí além, mas o próprio filme goza intensamente com os defeitos e enviezamentos dos denominados "filmes ideológicos". A contar as minudências da vida de todos os dias é onde encontramos a magistralidade, o génio, de Nanni Moretti. A interpretação de Silvio Orlando é superlativa, por vezes parece um Roberto Benigni em melhor. E a cena do carro, Dio mio, a cena do carro...

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17.7.07

Mensageiro

Confesso que não sei - provavelmente nunca vou saber - se são os emoticon do msn que representam de forma icónica o que eu sinto ou se, ao invés, são os meus sentimentos que se adaptam como podem aos bonequinhos-amarelos-que-mostram-a-língua-dão-beijos-piscam-os-olhos-ou-[se-tiverem-esse]-rebentam-com-os-miolos.

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16.7.07

A morte da antropologia?

E talvez mereça morrer:
Este curso irá deter-se nos comportamentos de sedução heterossexual (sujeitos entre os 18 e os 25 anos) em contexto urbano nocturno, festivo, com incidência na exibição corporal, nas fantasias privadas, na sedução verbal e na passagem ao acto através de carícias e de beijos. Será apresentada uma análise dos diversos discursos femininos e masculinos sobre as experiências sexuais pessoais, bem como uma análise psico-sócio-histórico-cultural das transformações na estrutura conjugal. Estas análises serão seguidas de uma interpretação das mudanças relativamente aos comportamentos vividos em contexto nocturno.

O módulo incluirá uma visita guiada aos contextos referentes às «geografias de sedução nocturna»: Bairro Alto, Docas de Alcântara, Rocha Conde d`Óbidos e Belém, seguida de reflexões sobre a estadia nesses contextos. Esta visita, de carácter não obrigatório, será agendada nas noites referentes aos 2 últimos dias de aulas.

Destinatários: Estudantes de Antropologia ou de outras áreas, público em geral.
When we say anthropology is in crisis we're talking about anthropology as defined by academic institutions. And it doesn't matter. It deserves to be in crisis; it deserves to explode, let it do so.
Leia-se ainda:

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Lembro-me

Que existe vida nas massas inertes de água, sob a esteira dos navios. Que lavar os dentes os torna mais brancos. Que seria muito melhor se ninguém me desse notícias. Que olhar para dentro de nós mesmos é impossível. Que um dia vou esquecer. Que um dia hei-de recordar com um sorriso. Que detesto a mentira, a omissão. Que a banda desenhada também é arte e na FNAC podemos lê-la sem pagar. Que, de ti. Que os pombos metem medo a algumas pessoas. Que já visitei cidades. Que procurei o que está entre as pernas das mulheres. Que ainda estou a ler o Proust, tanto tempo depois. Que me esqueci do teu aniversário. Que não me sinto seguro. Que procuro não confundir a modorra com a melancolia. Que me dói o corpo. Que desmereço quem merece o melhor de mim. Que não sei o que fazer. Que faço o que não devo. Que uma noite destas hei-de chegar tarde demais. Que durmo mal. Que durmo muito. Que merecia a sinceridade dos santos ascetas. Que dantes havia água na fonte. Que os meus dedos são mauzinhos. Que ele me enganou quando disse Vamos lá, vai correr tudo bem. Que a decepção é mais fácil de recordar que a ventura. Que não sou artista. Que gosto de jogar à bola com os amigos. Que tenho bons amigos, apesar de tudo. Que estou com vontade de chorar. Que estou com vontade de rir. Que às vezes não sou tão amigo dos meus amigos como eles o são para mim. Que gosto de mamas espalmadas nas minhas mãos. Que gosto do chilrear do pisco. Que a seguir a um dia vêm outros. Que não há porque ter medo. Que sou burro. Que sou preconceituoso. Que há muita gente que me mete nojo. Que existe morte na terra escura, sob esta existência miserável do mundo.

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13.7.07

Bom fim-de-semana

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Na penumbra

O sapo coroado, outrora príncipe, esconde-se nos umbrais da casa velha. A enjoada concupiscência, amargo infortúnio. Bicho carcomido, de moral sifilítica? Ambição desmedida, um inimigo de malas-artes. O sapo indefinido, outrora homem e viril, agacha-se na penumbra da tarde que há-de acabar, mais logo.

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Greek music #sixty two

Mão Morta - Lisboa
[Somos tomados por uma enorme letargia que nos deixa permeáveis ao frio da madrugada]

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12.7.07

Anatomia da inexistência

O corpo, tal como o conhecemos, é uma construção, não organizada em torno de uma descoberta histórica e progressiva do real, mas afeiçoada como um artefacto inseguro e inconsistente, que reflecte imperfeitamente a fixidez material da realidade.

[Rome, 1559]
Juan Valverde de Amusco [anatomista]
Gaspar Becerra [artista]

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11.7.07

Greek music #sixty one

Chris Isaak feat. Laetitia Casta - Baby did a bad thing
[You ever prayed with all your heart and soul just to watch her walk away?]

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I just can't get enough

Sophia este é para ti, um desejo plasmado na luz coada do final da tarde. Gratos pela farsa silenciosa.
Partir sem carregar alimento algum é boa didáctica processual quando aplicada aos andarilhos amadores. Quanto aos profissionais, a história é outra. Esses têm que ganhar algum dinheiro e este tem que vir de algum lado, já que a maior parte não tem pais que lhes pague a gasolina e a diária no restaurante. Os mais expeditos safam-se, entre subsídios e roubos de circunstância. Ou arranjam mecenas em troco da peregrinação e das promessas implícitas. Os mecenas sempre tiveram um papel crucial no fomento das artes. Leonardo, que não era nenhum reco, sabia-o. Tiepolo e Cranach também. E outros que seria fastidioso enumerar. É claro que não é de artistas que falamos. Falamos de jogos de solteiros contra casados, de caminheiros de duas léguas e não mais.

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Daqueles sinos deitou-se a morte aos caminhos

Quando o som insistente promete o calor, há uma mão que rasga a negro este frio do papel.

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10.7.07

Passeio público

Ontem, no Jornal de Notícias:

Coimbra é amplamente reconhecida como a cidade do conhecimento e da cultura. Não é vã e fátua esta percepção, nutrida por séculos de íntima ligação com a Universidade e, mais recentemente, por anódinas placas depostas nas bermas da auto-estrada que liga o Sul e o Norte do país. Não me parece, contudo, que esta alegação se continue a reproduzir, incontestável e axiomática.
Se, por um lado, a Universidade e alguns agentes culturais porfiam para alongar e ampliar o mandato de excelência cultural de Coimbra; por outro lado, floresce uma desavença crispada entre Câmara Municipal e os mesmos agentes culturais. Acrescente-se a inexistência de uma grande sala e de espectáculos e o revés que constituiu para a cidade a nomeação de Guimarães como Capital Europeia da Cultura de 2012.
Ao evocar o que a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) vem fazendo em proveito da cultura na cidade, nota-se que, para além do investimento em alguns equipamentos culturais (como o Teatro da Cerca de São Bernardo ou o Centro de Artes Visuais), o olvido, o desinteresse e o retrocesso são as palavras que mais modelam a concepção de cultura da administração camarária.
De facto, o executivo camarário parece ter muito poucas ideias acerca de política cultural e os estilhaços que produz não se recomendam. A estratégia cultural da CMC vagueia displicentemente entre o filistinismo e o folclorismo bacoco e atávico.
Os protocolos com grupos ligados ao teatro, à música e ao cinema, ou não existem, ou são sistematicamente infirmados por atrasos nos pagamentos. O dinheiro o supremo moderador da produção cultural. Uma submissão inaceitável, e incompreensível, apesar do oceano de limitações que o orçamento de uma Câmara Municipal inevitavelmente impõe.
A realidade mostra que nem todas as vertentes culturais foram afectadas pelo desinvestimento da CMC. Os aspectos mais folclóricos da cultura, como os ranchos ou as filarmónicas, continuam a ser protegidos e acarinhados financeiramente. E muito bem, digo eu. E a "outra" cultura? As artes de vanguarda, politicamente comprometidas, ou simplesmente associadas à "alta cultura" têm sido condenadas ao oblívio e ao definhamento.
O conceito sociológico de cultura filia as práticas culturais no sistema de produção e consumo. A cultura é um bem mercantilizado, muitas vezes dividido hierarquicamente em "alta cultura", "cultura popular" e "cultura de massas".
Os burocratas da cultura da CMC julgam tirar partido desta clivagem, financiando o entretenimento da sociedade de massas e, em concomitância, extinguindo o apoio à cultura das margens e à "alta cultura". É sedutor o caminho da rasura disponibiliza-se o circo em troca de alguma vantagem política. A cidade torna-se, no entanto, num espaço claustrofóbico, radica-se nos umbrais de um passado glorioso mas cada vez mais desvanecido. Magnífica tragédia, a de Coimbra.

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Deformed persons and eunuchs and old men and bastards are envious*

Hei-de dizer-to, António Farinhas: este livrinho, que me ofereceste no último Natal, é de capa fina e elegante [linda, arriscaria dizê-lo, se não parecesse pacóvio], mas não só. As letras são pelágicas, profundas, cerzindo infindáveis apotegmas. Seria possível transcrevê-lo completamente como uma longa e atraente citação. Sem exagero ou generosidade indevida.
*Of envy, pág. 9

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9.7.07

A Bovary

Há sempre, depois da morte de alguém, como que um espanto, tão difícil é a gente compreender a aparição do nada e resignar-se a acreditá-lo. Mas quando Carlos reparou na imobilidade da mulher, lançou-se para ela gritando:
-Adeus! Adeus!
[Gustave Flaubert, Madame Bovary, pág. 246]

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6.7.07

Ulciscor consumatum est

Cresci na sombra do abandono. Um dia levantei o olhar. Só então reparei no desejo de sol por detrás da penumbra. Fui à rua, deixei a cólera para os deuses e o Pelida.
Revenge is a kind of wild justice, which the more man's nature runs to, the more ought law to weed it out. For as the first wrong, it doth to offend the law; but the revenge of that wrong putteth the law out of office. Certainly, in taking revenge a man is but even with his enemy, but in passing it over he is superior, for it is a price's part to pardon. And Solomon, I am sure, saith It is the glory of a man to pass by an offence.
[Bacon, Francis, Of empire, pág. 1]

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5.7.07

Estéticas da morte #vinte e cinco

Fomos um dia ao mar. Fomos um dia e chovia. Não tanto assim, é preciso dizê-lo, para que não nos julgueis loucos, suicidas. A água caía sobre a água, os teus cabelos adejavam no vento da manhã: era cedo, ainda. Qualquer coisa entre as sete e meia e as sete e cinquenta e cinco. Sei-o porque o nadador-salvador, que entrava ao serviço pelas oito, já não chegou a tempo de nos salvar.

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Greek music #sixty

Beck - Little One

[In a seachange nothing is safe]

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4.7.07

Rectificação

A memória a dois funciona bem melhor. É que, afinal, também matámos a rã.

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Uma citação quase sempre se adequa a alguma coisa que acontece

-Se calhar, disse ela, sempre é capaz de haver boomerangs que não regressam. E conseguem manter-se à tona mesmo assim.
E pareceu ao psiquiatra que acabava de receber uma espécie de extrema-unção definitiva.
[António Lobo Antunes, Memória de elefante, pág. 31]

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3.7.07

Acho que foi porque nos lembrámos que a cobra nos traíu e que a rã lavou os pés ao Senhor Cristo


Parecem os mesmos todos os anos. Talvez não. O período de vida de um sapo, de uma rã, de um batráquio, afinal, não será, suponho, superior a dois anos. O ruído, esse é que é sempre o mesmo: murmúrio incoerente escapado aos motores da auto-estrada. Lá fora, trespassando a noite, na longínqua massa de água deposta em vala. Há textos medievais que falam desse barulho e da própria vala de água. Isto para introduzir o seguinte: um dia, eu e o meu primo, salvámos uma rã das mandíbulas de uma cobra matizada de cinzentos e castanhos, d'água - como lhe chamam os camponeses inexistentes e também os biólogos que estudam tão esquisita bicharada. Era um ofídeo de dimensões respeitáveis, assustador, se pensarmos - ou eu vos disser - que na altura eu levava apenas nove anos de mundo e o meu primo nove ou dez. É matéria provada que, para matar cobra, o melhor apetrecho é uma cana verde comprida. Uma única canada no lombo e é vê-la a estrebuchar e a rabear, doidinha para se deixar ir. Foi administrado o comprovado remédio e é facto vero que o ofídeo estrebuchou e rabeou e no final se deixou ir, de olhos esgazeados e lombo murcho e passado. A rã vivia, ainda. E viveu mais, que a deixámos ir, magnânimos e omnipotentes. O Homem vingava-se mais uma vez da desfeita do Éden.

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Greek music #fifty nine

[You know I'm born to lose]

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2.7.07

Agradecimento público

Um dia caí num poço de areia. Não havia nada dentro do poço, só escuridão e areia - como, aliás, seria de esperar. Creio, sem todavia ter qualquer certeza, que sobrevivi. Pelo menos ainda consigo contar a história e isso deve querer dizer que estou vivo. Ou melhor, nem sequer consigo contar a história completa mas partes dela, fragmentadas e pouco vívidas. O que é certo é que aqui estou, a tentar ir mais além destas palavras dúbias. Estive dois dias no poço. Ou menos. Ou mais, nunca poderei dizê-lo com certeza do que digo. Foram dias, foram anos, foi a vida num só dia: foi muito tempo. Sei-o porque deu tempo para ter sede e fome. Fome e sede. Vice-versa. Vieram a mim bichos diversos e peludos [aliás, repugnantes]. Comi alguns, apesar disso. A fome faz-se valer mais que a dignidade. Por vezes gritava. Um hei longo e chorado que morria antes de ver o sol. O resto do tempo pensei nos meus botões [de punho, esquecidos na mesinha de cabeceira]. De repente, um braço desconhecido, inesperado e ansiado, buscou o meu próprio braço e tragou-me para a superfície. O braço que me salvou. Grande, magnânimo, forte. Não reconhecido.

Agradeci aos que duvidaram da continuidade da minha vida. Aos que me deram como escravo de algum beduíno. Aos que me viram nas cidades mais estranhas e nas aldeias mais familiares. Aos que choraram. Aos que rezaram e foram a Fátima a pé [com uma vela do meu tamanho]. Aos que organizaram a quermesse e falaram à TVI. Aos que nada fizeram. Ao braço agradeço agora.

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1.7.07

Uma espécie de coisos

São pequenas erupções [tu sabes o que são, que já as viste] na pele lateral do dedo, aquele que por vezes indica o caminho. Não posso - nem sei - dizer mais sobre elas. Há os que torcem o nariz quando as vêem, há os que fogem do próprio olhar quando as vêem. Não são algo que se aprecie enquanto se ouvem as deliciosas notas de Bach, nunca ninguém escreverá um ensaio apologético sobre tão ínfima criação do desarranjo. Escrevo eu estas linhas e sem dúvida isso basta para que, nomeando-as, elas existam. Sublimadas, vagamente irritantes.

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