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30.7.04

A caminho de outras coisas

Começam a insinuar-se, as férias, horas restituídas pelo tempo a um corpo cansado. Vou lá fora experimentar os chinelos na terra e determino que não são suficientemente confortáveis - os caminhos modernos não são menos duros que os seus predecessores ancestrais. Levo as sapatilhas [ténis é um desporto], dois pares, e roupa leve, a suficiente. Os caminhos hão-de levar-me a qualquer lado. Falta pouco, mais uns dias.

29.7.04

De filhos e filhas

 O fim de tarde derramava-se já no outeiro pejado de casario quando se ouviu o choro primeiro de um varão incipiente e rosado, pesando pouco mais de três quilos – calculados depois de tomar a refeição primordial no úbere fecundo da desgastada mãe. Na rua, as vizinhas que não estiveram no quartinho ajudando a desgraçada mulher a deitar ao mundo mais um pobre de Cristo, procuravam ainda o pai, o Fernando, para o felicitarem por mais uma das suas avarias paternais. Quem o encontrou primeiro, um negrume de óleo cobrindo-lhe o tronco desnudo, foi a Gracinha do Lopes: “Já lhe ouvi o choro, homem. Deve ser cá um valente.” Ele, ensimesmado, apontando para o motor da Famel: “Então, não? Abri-o, limpei-o de alto a baixo que só faltou lambê-lo e meti-lhe uma vela e um condensador novos. Está a roncar que parece o porco da Ti Alice quando lhe chegam fêmea”. Pegou na motorizada, a única filha que lhe interessava, e cavalgou-a para longe.

28.7.04

Fala o adepto



O verde, o branco, um sorriso largo. 





27.7.04

O avanço do deserto



Lutam pelo pouco que ainda existe, diz um soldado da SPLA [Exército de Libertação do Povo do Sudão: árabes do norte desafectos ao governo, Núbios, Dinkas, Azande, cristãos e animistas negros], rodeado de crianças arruivadas devido à subnutrição, as barrigas proeminentes servindo mormente como apeadeiros de moscas. O pouco que ainda existe, quase nada: o que ainda não foi aniquilado pelas hordas de fundamentalistas do setentrião. O extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico ou religioso – genocídio, que há quem trate as coisas pelo nome – do povo de Darfur parece que só agora é visível aos olhos da comunidade internacional. E, no entanto, neste apocalipse no vácuo, neste cenário abominável e sem testemunhas, já morreram mais pessoas que nos conflitos do Ruanda, Balcãs e Chechénia amalgamados. E, no entanto, Darfur é somente a ponta do icebergue desértico de uma gigantesca ablação de vidas, modos de ser e esperança cujo descomunal palco é o Sudão.

[Mais sobre o genocídio em Darfur][E mais...][Mais ainda...][And so on, and so on...]


"Is silence the answer? It never was." Elie Wiesel

Sudan, The Passion of the Present
Darfur Genocide:


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26.7.04

É a primeira vez que o faço - transcrever um texto antigo e chapá-lo, de novo, no Daedalus. Mas o que escrevi há pouco menos de um ano atrás espelha fielmente o que sinto, hoje e provavelmente no próximo ano nesta altura de calores e cheiro a queimado.

As (des)culpas dos ausentes 
Enquanto ouço na TSF que agora é a vez do Algarve, com Lagos, Silves e Aljezur na testa de batalha, pleitear as flamas eversivas de um Verão já infame, perpassa pela minha mente a questão que por certo incomoda todos os portugueses com mais de 8 anos: de quem é a culpa? Infelizmente para a nossa cada vez mais depauperada floresta, esta indagação não parece ter uma resposta fácil e perspícua. Se por um lado atrai a muitos considerar levianamente que a culpa é somente do Governo coetâneo, outros são prosélitos de teorias que advogam a culpa de um punhado de tolos socialmente desestruturados; dos Governos rosa e laranja, alternadamente; das empresas madeireiras, das empresas que combatem incêndios e mesmo dos bombeiros. É reconhecido de forma indubitável que o Governo conduzido por Durão Barroso cumulou uma sucessão de erros estratégicos que o torna, quanto a mim, como o principal culpado conjuntural da crise, digamos ambiental, de que o quadrado português padece. Todavia, considero que estes equívocos conjunturais são apanágio de grande parte da governação portuguesa, pré e pós 25 de Abril.O questionamento cardinal, quanto a mim, deverá incidir sobre os erros estruturais de toda a governação portuguesa desde há muitos anos e que não se esgotam na falta de meios de combate de fogos, no mau ordenamento do território florestado, na quase inexistência de guardas florestais ou na não declaração atempada do estado de emergência. O biólogo e professor na Universidade de Coimbra Jorge Paiva escreve, em artigo no Público, que “há notícias de incêndios florestais desde o século XII, mas não eram devastadores […] Isto porque a floresta era, nessa altura […], dominada por ‘folhosas’[…]”. Os culpados primordiais da catástrofe ecológica, económica e social actual, todos ausentes da cena política e social hodierna, são, pois, os fomentadores dos Descobrimentos, os responsáveis pela floresta de produção de pinheiros depois de meados de dezanove, os promotores da “eucaliptização” do país depois da segunda metade do século transcorrido e aqueles que, pela sua inércia, deferiram a desumanização do interior e do meio rural, com todas as consequências deletérias que esse fenómeno, designado de forma imprópria como desertificação, acarretou para a floresta. Espero que os actuais governantes não continuem a desculpabilizar-se culpabilizando os ausentes. As memórias dos enganos em matéria florestal estão vivas em muitos centros de investigação universitários, em muitos professores, investigadores e institutos do estado. Reclamo, então, não um retorno ao passado mas sim uma aprendizagem com o passado. As medidas coercivas sobre eventuais pirómanos (tolos ou mercenários a soldo de madeireiras e empresas de meios aéreos), o aumento do número de bombeiros (mais profissionais, bem pagos) e de carros de combate a incêndios, não servirão de nada se o outrora “jardim à beira mar plantado”, de Camões, se metamorfosear num deserto de pedregulhos rodeado de eucaliptos clonados.
 
«Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens […]. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos?»Fiodor Dostoiewski, Noites Brancas

24.7.04

Jantar no Terreiro da Erva

Que um empresário da restauração [magnífico Sr. Reis] mova montanhas para impedir que uma alegre trupe de ébrios corsários embargue o repouso nocturno de um terreiro inteiro é compreensível e, indubitavelmente, desejável. Não deixa de ser, contudo, hilariante, tentar convencer a tal companha a cerrar a boca por intermédio de tão fantástica elocução: «Não façam tanto barulho que a senhora do terceiro está em coma; e se ela se chateia é mulher para chamar a polícia».

23.7.04

Os dedos de Deus II

Guitarra
[Carlos Paredes]

A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.

de Manuel Alegre
 

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Os dedos de Deus


Carlos Paredes [1925-2004]

Amo demasiado a música para viver às suas custas.

 




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22.7.04

Klepsydra

A água percorre a Clepsidra... um ano depois. Parabéns!

Agostinho na curva 17

Em Alpe d'Huez o fantástico americano deixou o mundo atrás de si, a sua bicicleta negra com pouco  mais de 6 kg adejando como uma bala sobre o esfalto. Se todos os outros subiram a montanha, Lance parecia ter caído num precipício, tal a velocidade que imprimiu durante o contra-relógio.

José Azevedo demonstrou que não é o mero aguadeiro do magnífico Armstrong, é antes o depositário fiel da herança genial de Joaquim Agostinho, o deus velocipédico de Brejenjas. A passada feroz de Azevedo na curva 17, a de Agostinho, a sua extroversão de menino que aprende a dar as primeiras voltas na bicicleta "roda 16", emocionou-me, quebrou as parcas resitências que eu cozinhava em relação à sua qualidade. Lembrei o Agostinho que nunca vi correr mas que pairava ao longo da estrada, amparando o português que, num desporto que parece ser de um homem só, é o melhor "jogador" de equipa.


Agostinho


21.7.04

Blogues e morte


Pouco tempo depois de ter soçobrado ao que um dia designei por “apelo lânguido da moda blogue” verifiquei – não com pouco espanto – que, mais que uma moda, o blogue se tornara uma ferramenta de escrita e reflexão empenhada por um crescente número de pessoas. Há pouco mais de um ano, incorporei a naturalidade da génese exponencial de novos blogues, alimentada por visitas diárias a inauditos nomes e links e pela natural excitação da descoberta.
Agora, olho para a coluna da direita, e contemplo – com pesar – o aumento dos blogues cujo nome é acrescentado de um decoroso mas elucidativo “[RIP]”. Blogues que morreram, por causas várias, que não me interessa discutir, mas que denunciam um incontornável apotegma: “um dia, todos morremos”. E na blogoesfera tudo é rápido de mais, até a morte.

p.s. Tem a ver este texto com a “morte” de um blogue muito caro ao humilde escriba. Porém, nem tudo são más notícias.

20.7.04

Insensatez

A sensatez é uma virtude que não cultivo com aquele esmero que é usual, por exemplo, nos columbófilos ou nos indivíduos que se divertem a cortar raminhos do bonsai. O agradável espectro da vilegiatura de Agosto começa a adejar na minha cabeça e, aos jantares que se sucedem em barda, aos fins-de-semana no norte e no sul, à t-shirt em saldo, a uma noite a mais em L., não consigo dizer que não. A vacuidade da conta bancária pedirá meças à fossa das Marianas em breve e as férias estão aí, a exigir ainda mais uns euros. No fundo, gostava de ser uma versão mais feminina da Manuela Ferreira Leite.
 

18.7.04

Imperdoável

O blogue em que a letra e a palavra são um corpo de mulher tratado com amor fez um ano na quinta-feira. O opróbrio do meu esquecimento é incorrigível. As desculpas sentidas seguem na mesma, tomando a forma de um abraço de parabéns.

Delírio

Pequenas mentiras em suaves instantes de insensatez. O autocarro à minha espera quando eu há muito que parti. Subo as escadas três a três, velocipédico, a subir nenhum santo ajuda. No leito branco de leite a incerteza da escuridão. O teu corpo e eu.

16.7.04

Finitude

Vishuatan Singh fez sete anos no frio de janeiro – a professora contou, na escola, que muito longe, na Europa, fazia frio em janeiro –, gostava de brincar com os irmãos mais velhos e dos longos passeios pelas margens do Cauvery com o avô, que lhe contava as histórias dos avatares de Vishnu enquanto colhia as flores que depois depositava nos pés de uma estátua estranha, verde e com muitos braços – muitos mais que os dele e os do avô, juntos. Mas na escola é que se sentia verdadeiramente bem – os amigos, os números e as letras, os brinquedos de plástico nos intervalos, o beijo da professora no final da aula: eram coisas só dele e da escola de Kumbakonam. Cidade de um templo na Índia que Bollywood e o mundo não conheciam. Até hoje.

Vishuatan Singh não fará oito anos no frio de Janeiro. Amanhã não irá à escola.

15.7.04

Não resisti


Jim Carrey em "Eternal Sunshine of the Spotless Mind"


Dá-se generosa recompensa a quem adivinhar porque pus este retratinho no Daedalus.

Modos de não fazer 1

Embora não me julgue autorizado, por via da experiência prática ou teórica, a fazer o tipo de asserções que pretendo compor de seguida, admito a relevância de um breviário "tipo-revistas-para-adolescentes-ou-Maria" que exponha aos jovens casais enamorados aquelas acções ou palavras que devem ser evitados a todo o custo, se se pretende manter a boa saúde relacional. Começo por alinhavar a manta com três exemplos práticos que, seguramente, serão úteis a alguns de nós.
1. A expressão “Ela [ou ele, vou intercambiar o género em cada exemplo, façam de conta que os exemplos funcionam para qualquer tipo de relação e para qualquer um dos géneros] é mais feia que tu” deve ser evitada se a consorte for entendida em lógica. Vejamos: se “ela é mais feia”, então a interlocutora também é feia, embora menos que a rapariga-comparação. A frase correcta deverá ser: “Ela não é tão bonita como tu”.
2. Uma coisa que irrita todos os rapazes é a conversa elogiosa relativamente aos ex-namorados. Mesmo que eles tenham sido muito bons, desanquem-nos. Mesmo mentindo descaradamente é a melhor opção.
3. Finalmente uma situação mais hard core. O rapaz diz à namorada: “Vou a uma festa de despedida de solteiro na Passerelle. Mas não te preocupes que só levo dinheiro para beber um copo. Assim, tenho a certeza que se cair em tentação não vou poder fazer nada”. A acautelar, obviamente.

p.s. Façam as vossas sugestões: nos comentários, por mail, nos vossos blogues, etc.

14.7.04

Maxine

Antes de partir quis despedir-se da criadagem. O capataz Rocha regrou a descoordenada coorte no pátio da roça, perfilando-os como antigamente, antes de trocar o ofício de sargento pelo de aventureiro, perfilava os mancebos nos primeiros dias de recruta em Santa Margarida. O Dr. Freitas, impecavelmente trajado – o branco do fato de algodão contrastando com o negro das botas de montar – começou por apertar a mão aos homens: o negro Romero, criado de dentro, o negro Matias, cozinheiro, o negro Vicente, jardineiro, e outros homens negros, com outros nomes e outras funções naquela casa. Às mulheres, paternal, obsequiou-as com um beijo na testa – se não fossem todas negras era vê-las a corar – e um abraço. A última, Maxine, atraiu o patrão [ex-patrão, é a independência, diziam os camaradas que lutavam ainda no mato] junto ao seu corpo e depois de o beijar duas vezes na face disse-lhe ao ouvido:
-Nunca vou deslembrar de si patrão.
-Ah sim? E Porquê? - O Dr. Freitas, surpreso.
- Enquanto eu me lembrar do siô, Deus vai lembrar o mal que nos fez. E o Demónio, quando o vier buscar, também.

12.7.04

Francesinha

No Sábado à noite desloquei-me propositadamente ao Porto para deliciar a alma e o estômago com uma excelente e calórica Francesinha. O Festival da dita, no Lordelo do Ouro, ofereceu aos muitos milhares de visitantes uma exuberância de escolha que muito me jubilou, já que, se os preços praticados nas diferentes barracas eram similares, a qualidade das Francesas postas à nossa disposição mensurava-se pelos antípodas. O Douro calmíssimo dava o mote à enorme e lenta fila de espera na tenda da Locanda, restaurante de Gaia, que escolhemos por se afirmar à boca cheia que tinham a melhor Francesinha do Festival. As duas horas de espera foram recompensadas pelo pequeno mas delicioso ágape: Francesinha, batatas fritas e dois finos. Olé! Bem que gostaria de oblatar a receita deste manjar aos sibaritas que visitam o Daedalus, mas o segredo do molho é pertença exclusiva de uma elite de privilegiados [e, no entanto, será que o Francisco José Viegas nos pode ajudar?].

Francesinhos

Em França uma mulher com uma criança de colo foi brutalmente humilhada por cinco jovens que lhe cortaram o cabelo e lhe desenharam suásticas por todo o corpo. Só porque pensaram que a jovem era judia. A agressão ocorreu durante uma viagem de comboio e foi presenciada por dezenas de passageiros que se limitaram a olhar para a cena infame – cobardes, digo eu. É esta a França que se arroga o direito de andar a julgar outros países pela sua conduta em matéria de direitos humanos. Eu até acho uma arrogância moral julgar a história com a vantagem do tempo, mas eu nem invoco a Argélia, a Indochina ou a cobardia colaboracionista durante a II GM, eu denuncio o presente, o dia de hoje. Pátria da liberdade? Presunção e água benta…

11.7.04

Voltar ao ponto



O labirinto é urdido para fomentar o logro. O melhor labirinto é o que nunca extirpa ao que se perde a esperança da fuga. É uma promessa que para ser perfeita nunca se poderá cumprir.

9.7.04

Parabéns [com atraso de 2 dias]

O mui preclaro esquadrinhador de subterrâneos tesouros perfez um ano de actividade: os meus parabéns sinceros. Para o Marcos foi demasiado simples escavar um blogue tão bom.

Rainha dos pobres



Ontem, quando ia para casa - o carro mais lento devido ao trânsito denso - as constantes paragens permitiam um olhar mais atento ao dia-a-dia da cidade: ontem definitivamente alterado pela feição religiosa e festiva ofertada pela procissão da rainha Santa. Não raras vezes, quando conduzimos um automóvel, somos pressionados a parar defronte de uma zebra, para que um, dois ou mais transeuntes passem de um lado ao outro da estrada em segurança. A jovem, talvez bonita e vestida à moda, trespassou a estrada, altiva, como guarda de honra de uma velhota de face empergaminhada, de negro trajar, suspirando os passos lentos de joelhos, talvez percorrendo o longo caminho que permeia a Igreja da Graça até ao Convento de Santa Clara a Nova. A paradoxal imagem atordoou-me por instantes - somos tão pequeninos, mas alguns conseguem fazer tanto. Lacrimejei, taciturno, enquanto pisava o acelerador e a velhinha perseguia o seu secreto desígnio.

8.7.04

Castrati?

Uma amiga, moída e cumulada de olheiras, dizia-me ontem que ia mandar castrar o siamês que, involuntariamente arredado das lides de conquista ateadas pelo cio, busca a vindicta nos móveis do apartamento ao mesmo tempo que proclama a plenos pulmões a sua desditosa condição de celibatário. Disse-lhe eu que tal procedimento é, no meu entender, de uma violência inaudita para o pobre animal, que o extirpa das únicas ferramentas que dão algum sentido à sua miserável vida. Afinal a malta anda cá para sobreviver e se reproduzir [entre outras coisas, mas pensem bem: é um gato!, não sabe ler, não pode ir ao cinema…]. Pelo menos a julgar pela exegese de Darwin e dos seus seguidores, entre os quais eu orgulhosamente me incluo. Ainda por cima o gatito ainda é virgem, id est, nunca gozou as delícias proporcionadas por um corpo de semelhante numa frescal noite de Janeiro. Indecência dupla. E os direitos dos animais?, atirei ainda, a matar. Mas quais direitos?!, esse tinhoso não me deixa dormir, sempre a miar a noite toda, revoltou-se a minha amiga. Com uma pontinha de ironia, exauri a homilia: Então corta-lhe a língua, faz-lhe menos falta que os tintins!

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7.7.04

Rocìo

Apesar do nevoeiro e da impenetrável escuridão, eu sabia que alguém me seguia pelas ruas estreitas – e, àquela hora nocturna, desertas de seres viventes – de Córdova: as botas do perseguidor eram demasiado animosas para uma caçada silenciosa. Pressentido o perigo, a inteligência aguça, lembrei-me de ouvir dizer a minha avó nos serões invernais na costa da Cornualha. Invadi um providencial prostíbulo que encerrava a Calle de los Rubios e refugiei-me no corpo de uma andaluza de olhos tristes e seio farto, asseverado de uma restante noite cálida de prazeres e longínqua de perigos.

Acordei sobressaltado. O bom caçador nunca larga a presa, palavras sapientes do meu avô durante as caçadas a cavalo nos vales de Dorset. Rocìo, a puta, olhava fixamente o meu desespero, com aqueles olhos tristes da cor da terra, e glosou: “Falaste durante o sono, inglês. Não percebi uma única palavra mas sei que tinha a ver com caçadas (ou guerras), o som dos tiros é igual em todas as línguas”. “Escondi-me em ti porque me perseguiam, talvez para me matarem” – repliquei. A espanhola riu, como uma louca, e disse-me: “É uma boa razão para procurares uma mulher. Quando a morte é próxima os homens lembram-se sempre da mãe. E, nesse momento, todas as mulheres são mães, todas as mulheres são a salvação.”

6.7.04

O Hilé

No começo é fácil embrenharmo-nos no bosque blogoesférico e, quais Hänsel e Gretel desavisados, perdermo-nos através de sendas e veredas cada vez mais longínquas. Com o avolumar de minutos, horas e dias de experimentação no alforge, os pontos de referência constituem-se, a rosa é norteada e pequenos mapas são debuxados. Vem isto a propósito de quê? Já não me lembro. Ah... Pois… Dois dos pontos cardinais das minhas andanças pelo vácuo electrónico são o Avatares de um Desejo e o Blogue de Esquerda. Outros me fornecem a lamparina para ver ao longe, mas hoje falo nestes dois por uma razão – ou apelo neles retido [1 e 2].
1) Se não conheço blogues criados por adolescentes, tal não quer dizer que não existam. A ausência de evidência não é evidência de ausência. E o blogue do David é evidência bastante para me convencer que eles existem. E que, se forem como o Funda de David, são muito bons.
2) O arcanjo Gabriel é o meu ungido. É o mensageiro principal de Deus, aquele que transmite as mensagens mais importantes. Tal como nós, bloggers. Cada um convencido de que o que diz é de suprema monta para o mundo.

Julho

Desço as escadas três a três, sucumbido pela estreiteza dos degraus, imponderando os riscos de queda – não sou mulher pós-menopáusica e se cair não quebro o colo do fémur, talvez só um braço –, secretamente ansiando que os anjos existam e me amparem o trambolhão. Mas porquê esta urgência, tão desajustada numa manhã cinzenta e quase fria, nem parece que estamos no verão do ano, tão caótica e saturnal num edifício adormecido pela modorra dos exames? A porta aberta, franqueada à escassa luz do dia e aos fortuitos passeantes, pressagiava um momento de alívio ao eterno penar de um rapazinho desiludido. Lá fora, um café ou os teus olhos da cor de Julho.

5.7.04

Desilusão?


Nem pensar!
Obrigado por tudo rapazes...

5/7
Não esquecer
Despertar novamente: para a crise governamental, o desemprego e a retoma que nunca mais se confirma. Adeus sonho, olá mundo real.

3.7.04

In memoriam


Marlon Brando [1924-2004]



Sophia de Mello Breyner Andresen [1919-2004]


O mundo fica mais pobre.

2.7.04

Slow food de forma rápida 6

O pratinho que recomendo hoje, de simplíssima confecção, deleita os comensais no início da refeição de dia santo ou o doente incapaz de tragar repasto mais substancial - falo concretamente da mítica canja de galinha. O preparo requer uma galinha do campo [1,5kg], com miúdos [vejam lá... a moela e similares...não é o João e a Margarida...], depenada em água aferventada de fonte próxima [que até pode ser a torneira]. Depois de depenada e limpa a galinha, cozem-se, juntamente, todas as carnes [também os miúdos], em água munida de sal e um pouco de azeite. Durante a cozedura retirem-se do tacho as espumas que se forem gerando. Depois de cozida a pita colocam-se no tacho 100 gramas de massinha ou arroz e deixa-se cozer mais 20 minutos. Finalmente, juntam-se ao aprestado os ovinhos, se os houver. Um óptimo mantimento para o próximo Domingo, levezinho e fácil de digerir antes das emoções da bola.

Uma versão mais elaborada, originária da Figueira da Foz, foi descrita pelo general inglês Arthur Wellesley à sua esposa e pode ser consultada aqui.

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1.7.04

O golo do Euro

Durante um jogo de futebol sobrevêm por vezes lances que, tocados pela rotina de outros jogos, parecem ao olhar do mais cauto e instruído apenas mais um lance daqueles que não vão dar em nada. No canto do relvado, Cristiano Ronaldo, talvez incentivado por uma epifania, decidiu marcar o canto curto, tocando levemente, com amor, a bola para Maniche [veja-se o seu verdadeiro nome aqui]. O homem que mais sorri na nossa selecção simula um pouco, contém-se talvez, mas o arrebatamento genial do remate em arco, quase beijando o poste da baliza, já se esvai com o ruído dos aplausos ao melhor golo do Euro 2004.


Esta nem o Super-Homem lá ia buscar...

O Último dos Moicanos



Velhos...são os trapos!